Mundial de Ralis em transição: a visão de Andrea Adamo sobre o WRC e o mundo automóvel

Por a 21 Maio 2025 12:19

WRC: desafios atuais e perspetivas futuras segundo Andrea Adamo

Com Nuno Branco

Numa altura em que muitos sentem que o Mundial de Ralis (WRC) está a perder o seu brilho, procurámos a análise de Andrea Adamo, ex-líder da Hyundai Motorsport, para desmistificar os desafios atuais e perspetivar o futuro dos ralis. Com uma vasta experiência e paixão pela modalidade, Adamo oferece uma visão ponderada sobre o estado do WRC e o mundo automóvel em constante mudança.

Todos os que estão nos ralis e que seguem o Mundial de Ralis sentem que o WRC está um pouco perdido. Porque é que os ralis estão a perder visibilidade ou popularidade? Neste contexto, é excelente ter uma pessoa como Andrea Adamo para fazer a sua análise quanto ao futuro dos ralis, dos desafios atuais e perspetivas futuras. Perguntámos-lhe o que está a acontecer aos ralis, e como poderá ser o futuro, especialmente com os novos regulamentos que estão para chegar em 2027…

“Essa é uma longa pergunta que merece uma longa resposta, perdoem-me se for demasiado longa. Em primeiro lugar, penso que, de alguma forma, estamos todos um pouco num ciclo negativo. Não sei por quê! Porque toda a gente fala de possíveis problemas, de coisas negativas, etc., enquanto ninguém olha também para as coisas boas que estão à nossa volta.

Por vezes, fico um pouco surpreendido, porque parece que toda a gente está a dar tiros nos pés, sendo que, no passado, houve situações piores do que as que estamos agora a falar. Honestamente!

Mas nessa altura, as pessoas eram mais positivas, claro que não podemos negar que há coisas que têm de ser resolvidas, mas não vejo nada de muito negativo. Temos um grupo de pessoas a trabalhar arduamente para criar novas regras técnicas e pelo que leio, ouvi muito e falei um pouco com as pessoas, na minha opinião, estamos a ir na direção certa…”

“É evidente que, antes de mais, não nos podemos esquecer de uma coisa. É muito importante olharmos para o quadro global, que o mundo automóvel está muito complicado neste momento, nem tudo é claro para os fabricantes OEM, (ndr, Fabricantes OEM, ou “Original Equipment Manufacturer” (Fabricante do Equipamento Original), são empresas que produzem peças, componentes ou até produtos inteiros que serão utilizados ou revendidos por outras empresas sob as suas próprias marcas) portanto não podemos comparar com outras categorias. O WEC (Mundial de Endurance) é para marcas de topo, e são um mercado diferente…

Se olharmos para os ralis, feitos com carros de estrada normais, esse mercado está muito difícil de compreender, estamos num momento de transição no que diz respeito ao grupo moto propulsor estamos num momento de transição no que diz respeito ao tipo de carros que temos na estrada, é evidente que o segmento B e talvez o segmento C, estão a desaparecer.

Agora temos cada vez mais Mini SUV e coisas do género, e não é assim tão fácil, face aos que foram sempre os carros dos ralis. Portanto, antes de apontarmos o dedo a todas as pessoas, temos de compreender o que está à nossa volta e a direção que estamos a tomar em termos de indústria automóvel no que os carros de ralis se suportam, as coisas não estão assim tão fáceis, porque não sabemos exatamente o que pode suceder daqui a três ou quatro anos.

Se olharmos para trás, há três anos, toda a gente falava que os carros elétricos eram o futuro, que a eletricidade era o que todos precisavam. No entanto, no mundo de hoje, toda a gente já diz que talvez a eletricidade não seja assim tão boa, e não estamos a falar duma coisa de há 20 anos, mas sim há 3 anos. Não podemos negar que há grandes grupos – sem referir nomes – que investiram milhões de euros na eletricidade e que estão agora a fechar fábricas, a deixar de empregar pessoas.”

“Estamos a falar de uma grande crise, sabem, na maior de todas, o nosso mundo está a mudar. Querem um exemplo? Aqui há uns anos a Fórmula E era o lugar para estar, agora toda a gente está a começar a fugir. Por isso, o que está certo e o que não está certo, é difícil de perceber, não estamos a falar de uma situação realmente difícil nos ralis, enquanto fora dos ralis se está a viver uma era dourada.

Penso que há problemas em todo o lado e, falando muito claramente, a maior parte do dinheiro do apoio dos países europeus neste momento está a ser gasto em armamento…”

“Tudo está a ficar diferente, o mundo está a mudar, tudo é totalmente diferente e penso que, neste momento, também temos de olhar para trás, sentarmo-nos um pouco e refletir o que é o correto a fazer. Penso que as regras, tal como estão, são inteligentes, mas também temos de perceber que tipo de motorização veremos nos carros no futuro, porque concordamos que o elétrico já não é solução única, mas agora precisamos de conversar seriamente com os fabricantes para entender o cenário. E neste momento, às vezes os fabricantes nem têm tempo para pensar no automobilismo, pois estão preocupados em salvar as suas fábricas. Então precisamos de falar com eles e perguntar: ‘Ei, no que vocês realmente estão interessados? Qual é o caminho que vocês querem seguir?’ Não acho que tenhamos de ser negativos. Temos também de apreciar o que temos, por uma vez na vida, e não nos queixar sempre e ver passo a passo o que o futuro pode trazer. Mais uma vez, desculpem, mas vejo coisas boas. Claro que há boatos por todo o lado sobre o facto de o promotor estar à venda, mas, ok, isso é algo que está a acontecer em todo o lado. Por isso, não sei, não sou tão negativo. Talvez porque agora estou reformado. Por isso, estou a aproveitar mais a vida, mas sabes, também acho que as pessoas têm de parar de se queixar e de apontar o dedo umas às outras e trabalhar mais em conjunto. Para onde quer que vá, vejo agora pessoas a atacar-se umas às outras. Porque não paramos um momento para relaxar e tentar cooperar melhor?

Como explica um interesse tão grande no WEC – Campeonato do Mundo de Resistência e tão pouco interesse nos ralis mundiais atualmente?

“Quem é que se interessou? Eu vejo lá os supercarros… E por quem? Nos construtores há mundos diferentes, há marcas que dificilmente podem estar nos ralis. Certo, a Toyota está a fazer os dois, a Stellantis, está no WEC com a Peugeot, estas duas marcas estão a fazer, de alguma forma. Os outros que estão a fazer o WEC, não podemos negar que fizeram um grande investimento nestas regras, mas eu gostava que olhassem para a história recente do WEC, porque as regras atuais estavam lá, também quando no início tínhamos apenas a Alpine, comprometida, Glickenhaus e Toyota, e eram as mesmas regras de hoje: eles lutaram, eles investiram nas regras – podiam cair, mas eram boas – e ninguém estava lá a correr e a dizer, que merda de espetáculo. Nós vamos para lá? Toda a gente estava bem, vamos construir sobre isto. Damos estabilidade de futuro, e depois as coisas, se forem bem feitas, acabam por acontecer…”

Agora temos alguns fabricantes, temos alguma coisa, mas estamos, como dizemos em Itália, a cuspir no prato, como, por isso acho que devemos parar um momento e pensar que se eles fizerem as coisas certas, e os fabricantes virem boas possibilidades em regras inteligentes, podem avançar passo a passo. Portanto, então, porquê o pânico? É a pior reação de todas: “Ah, está uma merda que não muda”, com isso desperdiça-se energia. É importante ver o que é bom, o que podemos fazer para tirar o melhor partido de tudo, e fazer algumas propostas. Quando eu estava a trabalhar, muita gente vinha com problemas. Mas poucas, com soluções. Eu dizia ao meu engenheiro, não preciso de um engenheiro para trazer problemas, para ter problemas, posso ter pessoas ‘normais’ e pago muito menos.”

Acha que seria possível ter mais flexibilidade no WRC e implementar um equilíbrio de desempenho ou medidor de binário?

“Falar do BoP ou Medidor de Binário são coisas diferentes. Na minha opinião, se precisarmos de grupos moto propulsores diferentes, acho que talvez seja uma boa solução, porque podemos permitir que os diferentes fabricantes testem e evoluam e também promovam o seu tipo de produto, como sempre foi nos ralis, tivemos a Lancia, a Audi, muitas outras, com coisas que se puderam ver no futuro, e acho que pode ser bom, acho que o medidor de binário não é a tecnologia dos vaivéns espaciais, hoje em dia, porque podemos tentar encontrar uma forma de ter todos mais ou menos iguais. Quando eu era mais novo, toda a gente falava em cavalos de potência. Agora falam de megajoules. Não quero dizer que seja uma coisa má, mas seria ótimo ver carros híbridos, carros a gasóleo e carros a gasolina com coisas diferentes, porque não? Isso seria ótimo para os ralis, porque quando eu era mais novo, lembro-me que tínhamos, 4 cilindros turbo, 5 cilindros turbo, de forma diferente, os V6, porque não? Sem turbo!

Na minha opinião, é algo que temos de apreciar e, se precisarmos de um medidor de binário, não vejo o Diabo ou qualquer mal nisso.

Então, falando de outras soluções possíveis, como é que se trazem mais fabricantes?

“Bem, em primeiro lugar, ter muitos fabricantes é um sonho, mas não se esqueçam que só um ganha, e que tivemos muitos fabricantes no passado, que permaneceram muito tempo. Podemos gastar muito ou só metade, mas se não ganharmos o que quer que seja que gastamos, é um desperdício. Primeiro temos de perceber, e penso que toda a gente percebe, que o mundo está a mudar, por isso já não vivemos o tempo em que se podia ir à administração pedir milhões de euros para fazer um campeonato de ralis. A situação é muito diferente. Acho que deve ser proposto ter o mesmo carro em todo o lado, porque, para mim, não faz sentido ter um carro específico para o WRC, deve ser como era no passado, em que o mesmo carro podia correr nos ralis nacionais e no WRC e isso seria importante numa proposta com ajuda do marketing que se poderia fazer a uma administração, uma espécie de Customer Racing, como no passado fez a Prodrive, por isso, com apoio de um patrocinador, temos de ter a possibilidade de, com as regras, criar uma imagem global que nos permita encontrar um plano e o orçamento para que isso aconteça. No tempo em que se ia à administração e se dizia: “Importa-se de me dar 100 milhões de euros? Sabes, se pedires 10 milhões, agora dão-te metade. Mas o mundo está a mudar e, por vezes, as pessoas têm de ver o calendário e esquecer que já não estamos em 1982, estamos em 2025…”

Caro leitor, esta é uma mensagem importante.
O Autosport já não existe em versão papel, apenas na versão online.
E por essa razão, não é mais possível o Autosport continuar a disponibilizar todos os seus artigos gratuitamente.
Para que os leitores possam contribuir para a existência e evolução da qualidade do seu site preferido, criámos o Clube Autosport com inúmeras vantagens e descontos que permitirá a cada membro aceder a todos os artigos do site Autosport e ainda recuperar (varias vezes) o custo de ser membro.
Os membros do Clube Autosport receberão um cartão de membro com validade de 1 ano, que apresentarão junto das empresas parceiras como identificação.
Lista de Vantagens:
-Acesso a todos os conteúdos no site Autosport sem ter que ver a publicidade
-Desconto nos combustíveis Repsol
-Acesso a seguros especialmente desenvolvidos pela Vitorinos seguros a preços imbatíveis
-Descontos em oficinas, lojas e serviços auto
-Acesso exclusivo a eventos especialmente organizados para membros
Saiba mais AQUI

1 comentários

  1. Vasco Morgado

    21 Maio, 2025 at 18:17

    Andrea Adamo, sempre muito directo e incisivo no modo como aborda as questões que lhe são colocadas e que nem sempre é do agrado de muita gente que não gosta da frontalidade com que este antigo dirigente desportivo o faz.

Deixe aqui o seu comentário

últimas Newsletter
últimas Autosport
newsletter
últimas Automais
newsletter
Ativar notificações? Sim Não, obrigado