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Histórias do Rali de Monte Carlo: Sob o signo do ‘6’ | AutoSport
 

Histórias do Rali de Monte Carlo: Sob o signo do ‘6’

Há muitas formas de olhar para a rica história do Rali de Monte Carlo. Desta feita escolhemos os curiosos ralis nos anos terminados em ‘6’…

O Rali de Monte Carlo nos anos terminados em seis, teve edições quase sempre memoráveis. Não deve haver muitos adeptos hoje em dia que se recordem do que sucedeu há 90 anos, quando Victor Bruce venceu o Rali de Monte Carlo. Ele era piloto profissional pela British AC e essa foi a primeira vitória quer de um piloto, quer de um carro britânico no evento. A sua vitória foi alcançada apesar da falha de um dos eixos de suspensão, que segundo rezam as crónicas, foi reparado por um mecânico de ocasião, que utilizou uma peça de um…Citroën, marca que no futuro iria ter uma influência bem diferente no desenrolar das coisas. Começa a ser um pouco mais provável que os adeptos se recordem do ano de 1956, trinta anos mais tarde, quando o piloto irlandês Ronnie Adams pediu emprestado um Jaguar Mark VIIM, batendo dessa forma o novo Citroën DS19, cujo melhor carro francês só terminou em sétimo.

 

Monte Carlo 1966

 

1966: O ano da vergonha
Mas para já os anos de 1926 e 1956 foram só para contextualizar, porque as verdadeiras histórias só começam agora. Dez anos mais tarde, 1966, o Rali de Monte Carlo entrou no que a opinião pública diz ser a sua ‘fase negra’, pois o evento de 1966 foi o ano que os carros britânicos, liderados pelos MINI Cooper 1275 S de Timo Makinen, Rauno Aaltonen e Paddy Hopkirk, e também o Ford Lotus Cortina de Roger Clark, foram excluídos do evento com os franceses a alegarem que os ingleses utilizavam faróis irregulares, tinham uns focos de luz montados para compensar os faróis mais fracos. Fartos de ver os ingleses triunfar no Monte Carlo, Paddy Hopkirk venceu em 1964 e Timo Makinen em 1965, com os MINI Cooper S da equipa BMC, estes voltavam a ser os favoritos em 1966 e na verdade chegaram ao Mónaco nos três primeiros lugares, com Makinen na liderança, mas nas verificações finais os comissários decidiram desclassificar os carros da BMC, e não só. E foi um ‘certo’ Pauli Toivonen, ao volante de um Citroën DS 21, que herdou a vitória, enquanto a notícia da exclusão dos MINI correu mundo. Aos franceses saiu-lhes o tiro pela culatra, já que tendo arranjado um pretexto para evitar que fossem novamente carros ingleses a vencer o Monte Carlo, a polémica que se criou à volta desta questão foi tão grande – a melhor prova é que ainda hoje se fala dela – que quem acabou por sair beneficiado de tudo isto foram os pequenos carros vermelhos de tejadilho branco. Muito mais do que se tivessem conquistado a terceira vitória consecutiva em Monte Carlo… Outra nota curiosa, a forma como Pauli Toivonen foi guiar para a Citroën. Ele era trabalhador da VW/Porsche na Finlândia, e esta troca criou uma tempestade. Mas não durou muito, já que ciente de como a sua vitória tinha sido fabricada pelos franceses, Toivonen nunca mais pilotou pela Citroën e foi para a Renault. Curiosamente, veja-se como são as coisas, a Citroën só voltou a vencer o Rali de Monte Carlo em 2003, através de um certo Sr. Sébastien Loeb, que curiosamente tinha perdido a prova de 2002, depois de uma penalização que o fez cair de primeiro para segundo. Mudam-se os tempos, mudam os franceses.

1986-01-Mc-Toivonen-Slide

Toivonen ‘limpa’ nome
A memória do triunfo de 1966 perseguiu Pauli Toivonen por vinte anos, até 1986. Esta foi a época mais eletrizante da história dos ralis. Das seis marcas que se aliaram aos Grupos B, cinco estiveram presentes em Monte Carlo, e isso incluía a Citroën com o seu BX4TC. A única falha foi a Ford, já que o RS200 não estava pronto, estando previsto, como aconteceu, estrear-se na Suécia. Foi uma prova muito extensa, 1.000 km de percurso de concentração, sendo que a distância total do evento foi de 4.000 Km. 36 especiais totalizando 867 km. O Monte Carlo nunca tinha sido tão longo. E 1986 foi uma prova absolutamente dramática, que culminou com o triunfo de Henri Toivonen, no Lancia Delta S4, depois de um grande acidente numa ligação. A luta com Timo Salonen foi fantástica, mas do detalhe daremos conta apenas na próxima edição do Autosport Histórico, com um artigo exclusivamente reservado aos inúmeros acontecimentos deste evento. Para a história fica, para já, apenas o registo desta ter sido a última vitória de Henri Toivonen no Mundial de Ralis, e a primeira do seu navegador, Sergio Cresto, que se tornou também no primeiro co-piloto norte-americano a vencer uma prova do Mundial de Ralis. Como se sabe, ambos morreram meses depois na Córsega. Depois do Monte Carlo, tive a hipótese de perguntar ao Henri Toivonen como tinha reagido o seu pai, Pauli à notícia da sua vitória e depois de uma longa pausa com um suspiro pelo meio, Henri Toivonen disse-me que o seu pai lhe tinha dito que a nuvem negra que pairava sobre o nome Toivonen no Rali de Monte Carlo tinha-se finalmente desvanecido.

Peugeot 306 MAxi Monte Carlo 1996

1996: Ano Fórmula 2
O ano de 1996 foi um pouco estranho para os ralis, e essa estranheza começou logo em Monte Carlo, já que pela primeira vez na história do Mundial de Ralis a prova monegasca não contou para a competição principal, mas sim apenas para o Mundial de Fórmula 2, a categoria reservada às duas rodas motrizes, aliás precisamente o mesmo que sucedeu nesse ano com o Rali de Portugal, se bem que para os portugueses essa memória é bem mais interessante, já que ficou marcada por uma grande luta entre Rui Madeira e Freddy Loix, ganha pelo português. Já foi há vinte anos. Portanto, efetivamente o Mundial de Ralis para a ‘classe’ principal, só se iniciou nesse ano com o Rali da Suécia. A exemplo do Rali de Portugal, os Toyota ‘oficiais’ da Castrol, no ‘Monte’ pilotado por Armin Schwarz, não tiveram muita sorte já que antes de Freddy Loix em carro igual levar uma abada de Rui Madeira em Portugal, também Schwarz se viu batido no Monte Carlo por um piloto que nunca tinha realizado, sequer, a prova monegasca, Patrick Bernardini, num Ford Escort Cosworth, que foi navegado pela primeira vez por Bernard Ocelli, antigo navegador de Didier Auriol, que foi absolutamente preponderante neste triunfo. Nunca tendo pilotado na neve, Bernardini estava frustradíssimo porque estava a rodar muito lento, até que Ocelli lhe explicou que na neve e gelo todos pilotavam aquela velocidade. A sério? Bernardini achava que era igual ao asfalto? Sem experiência nenhuma no evento, o francês bateu Schwarz, que pilotou um Toyota que quebrou quatro vezes a transmissão. Mas o grande destaque deste rali foi a vitória do Peugeot 306 Maxi de François Delecour na F2, naquela que era a primeira presença da Peugeot a nível oficial em dez anos de Mundial de Ralis. Até aquele momento, o 2º lugar de Delecour foi a melhor performance de um kit Car no Mundial de Ralis.

2006_cx_LOEB_MONTE-CARLO-2006

2006: Do buraco para o pódio
Há 11 anos, um piloto sair de estrada no WRC e nunca mais ser visto nos troços dessa prova era coisa do passado. O ‘Super rally’ já tinha sido inventado e a partir desse momento passou a ser possível um piloto ganhar um rali do Mundial depois de… abandonar por despiste. Foi o que quase sucedeu a Sébastien Loeb na prova de 2006, já que depois de se ter despistado no primeiro dia, traído por uma placa de gelo, regressou no dia seguinte com uma penalização de cinco minutos por ter falhado o último troço do dia (era essa a regra da altura, a partir deste ano, 2006, um piloto que abandone ‘leva’ uma hora de penalização para não ter ideias de se ‘armar’ em Loeb). Após uma espantosa recuperação, a partir do oitavo posto, Sébastien Loeb não mais parou de galgar lugares até ao segundo posto. Contudo, a vitória ficou na posse de Marcus Gronholm, que no rescaldo da sua primeira vitória no Monte Carlo, chegou a referir: “nunca podia ter feito os tempos que Loeb fez!”. O francês terminou um dos ralis mais difíceis do mundo no segundo lugar, a 1m01s de Grönholm! Portanto, com o Rali de Monte Carlo à porta, espera-se que a edição deste ano produza mais histórias, mas para prolongar a tradição do ‘6’, ainda faltam uns ‘anitos’ para 2026…

Martin Holmes

Autosport

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