Guia completo do calendário WRC: características e relevância dos ralis
Com paisagens de cortar a respiração e desafios implacáveis, o Campeonato Mundial de Ralis (WRC) de 2026 promete ser mais uma época… épica. De Monte Carlo à Arábia Saudita, prepare-se para uma viagem emocionante pelos ralis mais icónicos e exigentes do planeta, onde a perícia dos pilotos e a fiabilidade das máquinas serão postas à prova em cada curva e salto. Fique a conhecer um pouco melhor as 14 provas de 2026.

Rallye Monte-Carlo (22-25 de Janeiro)
O Rallye Monte-Carlo é a prova mais icónica do WRC, com uma herança que remonta a 1911. Disputada nas estradas alpinas de França, normalmente próximas de Gap, a ‘casa’ deste ano, combina passagens em estradas estreitas de montanha, muitas vezes gelo traiçoeiro e condições climáticas imprevisíveis que desafiam pilotos e máquinas.
Os troços variam muitas vezes dramaticamente, transitando de asfalto para superfícies geladas, exigindo não só afiações complexas bem como uma estratégia de pneus o mais próxima possível da perfeição, que no Rali de Monte Carlo só existiu, como sucedeu há quatro décadas, se pudessem voltar a mudar pneus no meio de um troço.
O Monte Carlo definiu campeões de época há décadas, servindo como barómetro do desempenho inicial.
Pilotos como Sébastien Ogier construíram boa parte do seu legado nesta prova, com nove vitórias acumuladas no WRC e ainda mais uma no Intercontinental Rally Challenge, em 2009. A Super Special Stage do circuito do Mónaco, regressa ao calendário, o que permite oferecer ainda mais espetáculo único nas ruas do Principado.
Rally da Suécia (12-15 de Fevereiro)
O Rally da Suécia é o desafio principal de neve e gelo mais autêntico do WRC moderno. Disputado na Escandinávia em condições quase sempre extremamente rigorosas, os lagos congelados – que já não se usam – e estradas nórdicas cobertas de gelo e neve num ambiente minimalista mas que cria um contexto onde no passado apenas pilotos especializados e equipas com preparação invernal prosperavam.
Mas isso, mudou. Desde 2004, quando Sébastien Loeb se tornou no primeiro piloto fora daquelas paragens nórdicas a vencer, e desde aí Sebastien Ogier, Thierry Neuville e Elfyn Evans fizeram o mesmo, Ogier e Vans, duas vezes.
A prova caracteriza-se pela velocidade brutal combinada com precisão cirúrgica, onde um erro causa derrapagens que se podem tornar catastróficas especialmente se o muro de neve for mole e o carro ficar lá ‘plantado’. É a causa mais comum de atrasos na prova. A fraca aderência quando os ‘pregos’ se começam a desgastar fazem deste rali único em sensação e exigência psicológica, testando fibra emocional além da pura competência técnica.
Rali Safari Kenya (12-15 de Março)
O Safari Rally Kenya é uma das lendas no WRC, devido às suas condições normalmente totalmente imprevisíveis e também pela contínua diversidade de terrenos. Disputado em pisos de terra de muitos estilo, areia profunda e rochas vulcânicas, o rali atravessa paisagens africanas selvagens onde animais selvagens ocasionalmente cruzam a estrada. A falta de superfícies marcadas em muitas zonas obriga a muita precisão, enquanto as suspensões suportam impactos quase contínuos em solo muito acidentado. O Safari é uma prova histórica em dramatismo, em que a velocidade é muito menos importante do que ficar longe das muitas armadilhas. Por vezes as máquinas sofrem avarias quase inexplicáveis e pilotos vivenciam momentos de pura adrenalina e stress. A prova exige resistência extraordinária, tanto física quanto mental, com as equipas a enfrentar pó quase permanente – se estiver seco, ou muita lama, se chover. Poucos ralis oferecem tanta adrenalina pura como o Safari.
Rali da Croácia (9-12 de Abril)
A Croácia é uma prova relativamente recente no WRC, com um traçado que combina asfalto tipicamente europeu técnico com algumas secções de estrada mais degradadas ou menos cuidadas. O rali oferece desafio equilibrado entre precisão e velocidade, com estradas montanhosas muito técnicas sem ser muito lentas, exigindo concentração total. O ambiente mediterrânico contrasta com o clima nórdico, posicionando a Croácia como transição importante na época. A prova tem ganho relevância, o público é muito e conhecedor, e as paisagens ‘dálmatas’ da lindíssima Croácia criam um contexto visualmente deslumbrante. O traçado técnico oferece a oportunidade legítima de vitória para diferentes estilos de pilotagem, evitando especialização excessiva, mas em quatro anos, somente Sébastien Ogier repetiu triunfos, todos da Toyota, até aqui.
Rally Islas Canarias (23-26 de Abril)
O Rally das Ilhas Canárias complementa o calendário com uma prova novamente em asfalto, mas completamente diferente da Croácia. Realizada numa ilha com um clima subtropical contrastante com o norte europeu. Disputado em terreno vulcânico e estradas sinuosas, mas rápidas, a prova exige adaptabilidade rápida entre superfícies, sendo um rali muito bom para pilotos muito precisos a guiar, pois muitos dos troços mais parecem circuitos de velocidade, mas nas montanhas. Asfalto muito bom, rails nas zonas de montanha, mas também zonas mais sinuosas e técnicas e algumas passagens entre zonas habitacionais, não tantas quanto o Monte Carlo.
O isolamento geográfico da prova cria ambiente único, com paisagem árida e dramaticidade própria.
Apesar da história mais curta no WRC, as Canárias foram uma bela adição ao WRC, embora a primeira edição tenha sido totalmente dominada por Kalle Rovanpera.
Vodafone Rally de Portugal (7-10 de Maio)
O Rallye de Portugal fica marcado por ser a ‘verdadeira’ primeira prova de terra do Mundial de Ralis, e é uma das preferidas do ano por muitos dos pilotos. Com um ambiente inigualável no restante calendário em termos de público e entusiasmo nos troços, a prova portuguesa é muito difícil, e bem diferente entre si, com os troços da zona centro, Arganil, a serem muito distintos dos nortenhos de Fafe, Cabreira e Marão.
Os troços caracterizam-se por ritmos rápidos, com curvas sinuosas e elevações desafiadoras que exigem bravura considerável. O rali português oferece equilíbrio entre velocidade pura e técnica, sendo a plataforma ideal para pilotos demonstrarem a sua versatilidade. Quem andar bem em Portugal pode andar bem na grande maioria das provas de terra, exceção feita às mais específicas, tipo, Finlândia.
A prova portuguesa é um forte barómetro para o resto do campeonato, pois só há mais um rali de asfalto, o Japão, todas as restantes são em pisos de terra.
A Toyota vence em Portugal desde 2019, mas a Hyundai também já venceu, e mesmo a Ford, mas com Ogier. Este ano a marca norte-americana não tem pilotos para lutar na frente.
Forum8 Rally Japan (28-31 de Maio)
O Rally do Japão representa a entrada do calendário da Ásia, trazendo uma dinâmica geográfica diferente e este ano a prova realiza-se bem mais cedo, no fim de maio. Disputado em traçados técnicos de asfalto montanhoso, o Rali do Japão exige precisão quase extrema e concentração mental intensa. As estradas sinuosas, frequentemente estreitas, deixam margem mínima para erros, criando contextos onde pilotos experimentados e jovens promessas podem surpreender. A relevância do Japão estende-se além da prova. A logística de viagem intercontinental torna o Japão desafiante em termos de fadiga e adaptação, afetando pilotos e equipas significativamente, e os ralis ainda não conseguiram chegar perto do entusiasmo que o público japonês tem pela F1. É um processo que leva tempo e o Rali do Japão ainda só tem quatro anos depois do regresso em 2022, sendo que antes a prova só se tinha realizado entre 2004 e 2010.
Eko Acropolis Rally Greece (25-28 de Junho)
O Rali da Acrópole/Grécia é outra das provas lendárias do WRC com uma história do Mundial que remonta a 1973, e os gregos recuperaram o entusiasmo pela sua prova, embora já nada seja como era há quarenta anos em que se viviam autênticas loucuras nos troços. O Rali da Grécia continua a oferecer ao WRC um terreno montanhoso extremamente técnico, onde as estradas de terra dura oferecem uma combinação de velocidade, precisão e muita dureza. O clima é normalmente quente e árido, o que ajuda a testar a resistência física de pilotos sob condições de calor intenso.
A Grécia caracteriza-se por paisagens dramáticas, com vistas montanhosas e traçados que sobem e descem abruptamente. O rali oferece um contexto em que as equipas precisam de ter carros rápidos, mas fortes. Curiosamente, esta é uma prova em que a Hyundai tem vencido mais vezes que a Toyota.
Paralelamente, a história do Rali da Acrópole inclui momentos icónicos do WRC, com dramáticas inversões de liderança e surpresas competitivas. A prova representa oportunidade rara para equipas e pilotos afirmarem domínio absoluto em traçados verdadeiramente exigentes e muito respeitados pelos pilotos fruto da sua dureza.
Delfi Rally Estonia (16-19 de Julho)
O Delfi Rally da Estónia oferece pisos de terra rápidos, em muitos casos semelhante à Finlândia, mas sem os saltos. Tem também muito mais zonas técnicas que os seus vizinhos de cima, e normalmente provas mais secas que a Finlândia, não só pela data como pela localização geográfica.
A prova caracteriza-se quase sempre por ritmos elevados e ligeiras elevações, exigindo boa velocidade de ponta, com os pilotos a manterem o acelerador a 100% muito tempo. Agora sem a estrela local, Ott Tänak, a fazer uma pausa, a história recente do Rali da Estónia tem como vencedores quatro Toyota em cinco anos e um Hyundai, sendo que a estrela local, Tanak, só venceu em 2020… com a Hyundai.
O único vencedor anterior do rali, que vai marcar presença este ano é… Oliver Solberg! Nem Tanak, nem Rovanpera, que venceu ali três vezes…
Secto Rally Finland (30 Julho – 2 Agosto)
O Rali da Finlândia é pura mitologia do WRC, a terra natal de lendas como Hannu Mikkola, Markku Alén, Ari Vatanen, Juha Kankkunen, Timo Salonen, Harri Toivonen, Tommi Mäkinen, Marcus Gronholm, Jari-Matti Lavala e… Kalle Rovanpera.
Disputado em pisos de terra que mais parecem, na maior parte dos carros, autoestradas esculpidas por artistas divinos dos ralis, a prova finlandesa oferece velocidade brutal combinada com superfícies quase sempre lisas.
O Rali da Finlândia é sinónimo de perícia no WRC, onde só pilotos excepcionais brilham. É de longe a prova mais rápida do calendário, e ainda mais a que os carros passam mais tempo no ar.
Há uma estimativa frequentemente citada de que, no Rali da Finlândia, os carros do WRC passam até cerca de 30% do tempo cronometrado no ar nas especiais mais rápidas. Isto significa que, numa classificativa típica de 10 minutos, podem estar no ar acumuladamente perto de 3 minutos, somando dezenas de saltos ao longo do troço.
O traçado oferece desafios puros especialmente de velocidade maximalista em condições pouco benevolentes.
A importância histórica da prova é incomensurável, e vencer na Finlândia é para muitos muito importante. Especialmente para os pilotos da casa. A prova é a ‘cara’ do WRC. A par do Monte Carlo, um ‘must’. Portugal, logo a seguir…
Ueno Rally del Paraguay (27-30 de Agosto)
O Rali do Paraguai levou de volta o WRC para uma segunda prova na América do Sul, a par do Chile, mas oferecendo um evento totalmente diferente. A prova realiza-se em troços super rápidos e a sua média fica apenas um pouco atrás da Finlândia, mas com um tipo de ralis totalmente distinto.
São troços de terra tropical, alaranjada, e também desafios climáticos intensos. Normalmente disputado em calor extremo e humidade opressiva, se chove é o caos, porque o piso fica com um nível de falta de aderência quase extremo. O calor, por outro lado, testa fortemente a resistência física de pilotos e a fiabilidade das máquinas.
O Paraguai oferece um contexto completamente diferente do europeu, com logística complexa e adaptação horária necessária. O isolamento relativo do Paraguai e a paisagem subtropical criam dinâmica única no calendário WRC, oferecendo contraste absoluto com ralis europeus. Foi uma boa adição, mas o WRC tem saudades do Rali da Argentina, que tem outra ‘griffe’ a todos os níveis.
Rally Chile Bío Bío (10-13 de Setembro)
O Rally do Chile oferece uma prova que se chove se torna muito semelhante ao saudoso RAC/Rali da Grã-Bretanha.
A prova realiza-se em troços de terra de elevada qualidade, disputado em contexto de proximidade dos Andes. A prova caracteriza-se por velocidade elevada combinada com muito terreno técnico, muitos ganchos, sobe e desce, montanhas em floresta, muitas zonas sinuosas mas nunca muito lentas, exigindo pilotos versáteis. O Chile consolidou-se como prova importante no calendário WRC. O clima temperado e a paisagem montanhosa criam ambiente único e já muito respeitado pela caravana do WRC.
Rally Italia Sardegna (1-4 de Outubro)
Este ano bem mais tarde no calendário, o Rally de Itália-Sardenha oferece pisos de terra que em termos de dureza ficam entre Portugal e a Grécia. Pisos de terra em montanhas não muito altas mais um constante sobe e desce, com pisos de qualidade europeia clássica, disputado em clima mediterrânico quente. A prova caracteriza-se por ritmo equilibrado e elevações técnicas, exigindo setups versáteis e muita concentração porque a largura não é grande característica dos troços.
O rali italiano tem hoje em dia uma história respeitável no WRC, pois já se realiza quase ininterruptamente desde 2004. É uma herança do antigo Rali Costa Esmeralda, e tem produzido recentemente provas muito equilibradas até final. Algumas, mesmo ao décimo de segundo…
Rally Saudi Arabia (11-14 de Novembro)
O Rally da Arábia Saudita volta a encerrar este ano o calendário do WRC. Uma das críticas que lhe foram feitas teve a ver com o excessivo número de furos que o seu traçado causou, com pilotos a chegarem a furar duas vezes no mesmo troço o que teve forte impacto nas classificações com muitos incidentes a mudar as classificações.
Em termos de drama, para a imprensa e a imprevisibilidade é bom, mas aceitamos que para uma prova que decidia um campeonato, foi lotaria a mais. O WRC devia terminar numa prova mais ‘normal’ em que tudo pode na mesma, suceder, mas onde a sorte ou o azar não tivessem tanta influência. É que mesmo guiando com cuidado é impossível fugir de tanta pedra afiada. Curiosamente, no recente Rali Dakar, as queixas de muitos foram exatamente essas, os furos.
Contudo, a prova, para uma estreia, foi bem organizada, troços diferentes de tudo o que o WRC já tinha visto, mesmo quando foi à Jordânia em 2011. Para que se perceba o tipo de troços, uma zona de um dos troços de 2025 foi retirada do percurso por causa do perigo, com um precipício com 100 metros, sem rails, a causar stress durante os reconhecimentos aos pilotos.
A prova foi disputada sob calor residual de verão prolongado, teve muito pó, muitas pedras, muitos furos, zonas muito rápidas, outras extremamente técnicas, num rali de permanente teste às resistência das equipas.
A Arábia Saudita ofereceu um contexto único no calendário, com paisagem minimalista, mas ainda assim diferenciadora, como se exige no WRC, uma competição de enormes contrastes.
FOTOS @World
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