Faltam 74 dias para o Rali de Portugal: A lenda do piloto português que surpreendeu a armada Lancia
Em março de 1984, durante a primeira etapa do Rallye de Portugal/Vinho do Porto, António Rodrigues escreveu um dos capítulos mais memoráveis do automobilismo português. Com um Lancia 037 Rallye “Evo 1” emprestado – um carro de treinos que nunca tinha competido – o piloto português não só enfrentou, como chegou a igualar os tempos das estrelas mundiais da marca italiana, incluindo Markku Alen, Henri Toivonen, Attilio Bettega e Miki Biasion, que conduziam versões mais evoluídas do mesmo carro.
Sem qualquer experiência prévia com o veículo além de “umas voltas” na véspera e descrições apressadas de Giorgio Pianta, diretor da equipa Lancia, Rodrigues ignorou as recomendações de cautela e atacou as classificativas de Sintra a um ritmo impressionante. “Parecia que estávamos a rodar dentro de um funil”, recorda, descrevendo como o público abria caminho à sua passagem.
Os resultados foram tão surpreendentes que a própria equipa oficial começou a fornecer-lhe pneus de perfil mais baixo, retirados diretamente dos carros de fábrica. Apesar do sucesso inesperado, António Rodrigues e José Cotter abandonaram conforme planeado ao final da primeira etapa, na Póvoa do Varzim, cumprindo o objetivo inicial de apenas mostrar o carro e os patrocinadores.
Esta é talvez a história mais conhecida – e reescrita – da vida de piloto de António Rodrigues. Passou-se durante a primeira etapa do Rallye de Portugal/Vinho do Porto de 1984 e bem que pode resumir-se de uma forma muito simples: ‘Ele e os outros… Lancia’
“Fui buscar o carro na véspera. Era um ‘Evo 1’, que tinha sido o carro de treinos do [Markku] Alen. Nunca tinha feito uma prova. Consegui-o por intermédio do Domingos [Piedade], que intercedeu junto do [Giorgio] Pianta [diretor da equipa Lancia no WRC]. Mal andei com o carro antes do rali, apenas umas voltas com o Pianta ao lado, que me explicou um pouco do que era o carro.”
Mas, final, que carro era este? “Era um Lancia 037 Rallye, talvez o carro mais fabuloso que alguma vez guiei. O Pianta disse-me logo que era um verdadeiro carro de corridas, uma espécie de ‘fórmula’ e que tinha que ser tratado com muito cuidado e muita precisão. Nada de exageros.”
Porém, na manhã daquele dia 7 de março de 1984, logo nas classificativas de Sintra, António Rodrigues não quis saber para nada dessas recomendações… e tratou de andar a fundo “pelo meio do público, que ia abrindo passagem à minha aproximação. Parecia que estávamos a rodar dentro de um funil. Nem tínhamos a verdadeira noção do nossos andamento e só no final, ao compararmos com os temos dos outros Lancia, percebemos que estávamos a andar ao mesmo nível deles. Mas, para isso, tinha que passar sempre a fundo!”
Quem eram os ‘outros Lancia’? Eram, antes de mais. “Evo 2, ao contrário do nosso, que era um ‘Evo 1’.” E tinham ao volante nomes do calibre de Markku Alen, Henri Toivonen, Attilio Bettega e Miki Biasion, este da Jolly Club: “Cheguei a fazer o 2º tempo, atrás do Alen [Lagoa Azul, 2m16s contra 2m15s] e cheguei a empatar com o [Hannu] Mikkola e o [Walter] Röhrl [que corriam com o potente Audi Quattro S2].” De tal forma Rodrigues deu nas vistas dos responsáveis pela Lancia que, a certa altura, em especial depois do abandono de Toivonen, “vieram ter comigo, a perguntar-me aquilo de que eu precisava. E o que mais precisava eram pneus decentes, de perfil mais baixo, para ter maior velocidade de ponta. Não hesitaram e deram-me então os pneus, mal eram retirados dos seus carros, pois eles usavam um jogo por cada classificativa.”
Mas o destino de António Rodrigues nesse Rallye de Portugal/Vinho do Porto estava traçado desde a partida: “Nunca foi nossa intenção fazer o rali todo. Apenas a primeira etapa, para mostrar o carro e os nossos patrocinadores.” Por isso, na chegada à Póvoa do Varzim, a dupla Rodrigues/José Cotter decidiu deixar a prova, apesar do brilharete que vinha fazendo: “Esta foi a melhor opção. Não estávamos preparados para continuar.”





Carlos Martins
2 Março, 2025 at 11:56
Segundo lugar na Lagoa Azul?! 2.16 contra 2.15? Em que universo paralelo?