Colin McRae visto por Jimmy e Alister


Jimmy e Alister McRae conheceram Colin como ninguém. O pai e o irmão do piloto recordam quem eram os ídolos de Colin, como eram as rivalidades entre irmãos e tentam dismistificar a fama de ‘destruidor’ do autor de 25 vitória no WRC

Perder um filho ou um irmão é uma perda incalculável para quem nunca teve que se debater com esse drama. Os anos podem passar, mas as saudades ficam e as memórias não se perdem e com alguém tão especial como Colin McRae percebe-se há sempre um fator adicional com que lidar: o herói que, hoje, é venerado por milhares de pessoas.
Jimmy McRae, que incutiu o gosto de Colin pelos ralis e lhe ofereceu uma herança genética de talento e de técnica, nunca se nega a falar do mais velho dos seus três filhos, nem mergulhar na história e no tempo para dar a conhecer algumas das suas facetas menos conhecidas. Desde muito cedo que Jimmy se apercebeu que Colin tinha um dom natural para a condução: “aos 17 anos (em 1985) quando já me tinha percebido das suas capacidades, já sabíamos que ele queria ser Campeão do Mundo de ralis. Suponho que isso acontecesse pela influência das pessoas com que ia falando quando eu estava nos ralis. Um dia, o falecido Henri Toivonen veio ter connosco e isso teve um grande impacto no Colin. Ele também idolatrava Ari Vatanen e isso foi uma tremenda inspiração para ele quando entrou para a equipa Subaru como companheiro de equipa de Ari no Rali RAC de 1991”.
Segundo o pai McRae, “Colin foi uma pessoa que começou a desenvolver auto-confiança à medida que ia progredindo na carreira. Teve uma série de objetivos na vida e cada um deles foi abordado e gerido da melhor maneira que encontrou, mas deu tudo de si à sua carreira”. Isso não fez com que passasse ao lado de algumas crises como a verificada no final de 1996 quando se separou do seu navegador de longa data, Derek Ringer, numa altura em que estava bastante sensível. “Curiosamente, esse foi também o momento em que decidiu que queria casar com Alison. Demorou muito até Colin tomar essa decisão e fazer o pedido de casamento. De facto, a história dos dois dava, quase por si só, um livro, mas quando decidiram casar e, principalmente constituir família, ficou a certeza de que mais uma etapa da sua vida estava cumprida. Acredito que o Colin não mudou nos últimos 10 anos da sua vida, à exceção de se ter tornado mais maduro e determinado”, relembra Jimmy levantando um pouco o véu da vida pessoal do piloto escocês.
Mas como piloto, Jimmy defende o filho com unhas e dentes dos ataques de que também constantemente era alvo depois de cada acidente, sentindo que Colin não era tão agressivo com os carros como as pessoas faziam crer: “às vezes, perguntava-me se, mentalmente, os managers adicionavam uma estimativa de custos pelos carros que Colin partia para justificar os seus orçamentos. Lembro-me quando ele estava na Subaru que um certo piloto escandinavo dentro da equipa era bem mais duro com o carro do que o Colin.” Até podia ser, mas a verdade dos números e a sua relação com os acidentes ajudava a criar essa imagem de impiedoso com os carros que Colin foi construído e da qual raramente se conseguiu demitir.

Rivalidade à prova de… pés!
Mas se havia um lado menos positivo do irmão mais velho McRae, Jimmy também conta uma história que faz sobressair o ‘gigantismo’ de Colin na opinião pública e para a maior dos seus observadores: “Quando, em 1999, discutíamos os planos do Alister com as equipas eu sentia eu lia nos olhos de muitos diretores de equipa que eles não acreditavam que um segundo McRae pudesse ser tão bom como o primeiro!”.
Essa sempre foi, de resto, uma velha discussão, mas, na verdade, foi sempre desvalorizada por Alister McRae que nunca conseguiu reunir o mesmo currículo e o mesmo estatuto que o seu irmão no mundo dos ralis. Segundo Alister, “gostávamos das mesmas coisas na vida e fizemos o que gostávamos desde muito novos. Éramos os dois muito competitivos, mas nunca perdi tempo a medir o que o Colin tinha alcançado na sua carreira”. E se havia competição saudável era entre os dois irmãos, havia-o em modalidades tão diferentes como os ralis, o ski ou as motas, onde também se costumavam divertir. Bem, saudável é sempre maneira de dizer porque, uma vez, Alister chegou a fazer um relato de uma corrida de motas em que ambos decidiram levar ao limite, numa pista perto de Lanark, e que terminou de forma caricata. Parece que a algumas curvas do fim, ambos se tocaram e caíram, mas que a moto de Colin foi parar mais longe do que a de Alister e que a única maneira que Colin encontrou para não perder a corrida foi correr para a perna de Alister e segurá-la em vez de correr para a sua moto!
Poucas vezes os dois irmãos foram adversários diretos com os mesmos carros, mas chegou a acontecer em 1998 quando ambos pilotaram os Subaru Impreza 555 no Rali do RAC e no final do primeiro troço estavam juntos na liderança! Passados 14 anos, Alister recorda esse rali como uma das suas melhores experiências, referindo que o “o único desapontamento foi que não obtivemos o resultado que acho que merecíamos, mas foi fantástico perceber que depois de alguns anos ao volante dos F2 estava apto a guiar os WRC e ao mesmo ritmo que ele. Ver, no primeiro dia o Colin a liderar à frente do Carlos (Sainz) e eu estar em terceiro foi fantástico, até…apanhar nevoeiro!”. Para os dois irmãos e para a clã McRae, contudo, não houve melhor momento que o Rali de Portugal de 1999 quando Colin venceu em termos absolutos e Alister triunfou na categoria ‘2 Litros’. Foi caso para dizer, se um McRae incomodava muita gente, dois incomodavam muito mais!