Recordar Attilio Bettega

Tudo se deveu ao facto dos responsáveis da Lancia terem optado por montar pneus duros nos 037 de Markku Alen, Miki Biasion e Attilio Bettega, que, supostamente, iriam suportar o piso abrasivo dos 31 quilómetros da especial e dessa forma, bater o Renault 5 Maxi Turbo de Jean Ragnotti, dominador da prova. O problema é que até os pneus aquecerem e atingirem a temperatura ideal, pareciam manteiga a derreter.

Antes do início do troço, Bettega dizia: “Se não ganhar aqui, não ganho em lado nenhum!” o Italiano era um forte especialista do Rali da Córsega, e nem o terrível acidente que foi vítima em 1982, que o mandou seis meses para o Hospital, o abanava. Depois de regressar, uma série de acidentes marcou a sua carreira, na Sardenha e Costa Esmeralda, e infelizmente, como todos sabemos, essa série teve o seu epílogo na Córsega.

Antes da prova, palavras como “Desta vez é a vitória ou nada!” pareciam somente de auto motivação, e mostravam uma grande confiança nas suas capacidades. Mas afinal era uma premonição! Tudo ou nada! Pouco depois do início da quarta especial, existia uma grande curva à direita, a descer, que se abordava a cerca de 150 km/h. Na curva anterior, o italiano saia com uma trajetória um pouco larga, e as rodas do lado esquerdo ‘morderam’ as pequenas pedras plantadas na berma. Quis o destino que uma pedra um pouco maior desviasse o Lancia 037 Rally da sua trajetória o que levou Bettega a ‘perder’ o volante por instantes, que se revelaram fatídicos, pois já não foi a tempo de ‘agarrar’ o carro, cujos pneus também não ajudaram, pois naquela fase da especial ainda não estariam no pleno da aderência. O Lancia fez meio pião a alta velocidade, batendo em várias árvores, do lado do piloto. O ‘espetáculo’ que se seguiu foi, minutos depois, testemunhado por Miki Biasion, Bernard Béguin e François Chatriot, que pararam, e pouco depois dirigiram-se para o final da especial, depois de perceber que nada havia a fazer.

Maurizio Perissinot, o seu navegador, contou o que aconteceu: “Fizemos a direita sem grandes problemas, já tinha ditado a pequena reta e as duas curvas que se seguiam, quando percebi que se passava algo. Levantei os olhos das notas e só vi árvores na minha frente.” O Lancia 037 Rally deixou a estrada a velocidade elevada, entrando pelas árvores que ladeavam a berma; o embate nestas foi fortíssimo, do lado de Bettega e o tejadilho, bem como o “roll bar”, não resistiram, tendo o piloto sofrido morte instantânea, devido aos ferimentos na cabeça. Ironicamente, três anos antes, no mesmo rali, Bettega tinha já sofrido um violento acidente, ao embater numa ponte, fraturando em diversos locais os membros inferiores, mas sobrevivendo. Maurizio Perissinot era, também nessa altura, o seu navegador.

Eram 11h04m da manhã quando a especial foi interrompida, minutos antes tinha perdido a vida Attilio Bettega, aos 32 anos. A exemplo do que sucedeu com tantos outros pilotos que perderam a vida depois de noutras fases das suas carreiras terem tido acidentes graves, também Attilio Bettega acabou por morrer depois de vários acidentes graves. Um ano depois, Toivonen e Cresto voltavam a apontar a lança a maldição sobre o Lancia com o número quatro…