Rali de Portugal: O que o meu povo gosta

Por a 29 Março 2011 15:02

O famoso adágio português de Fátima, Futebol e Fado deve ter sido criado por alguém que nunca se deslocou ao Rali de Portugal. Nos últimos 44 anos, a prova portuguesa converteu-se num gigantesco espelho da paixão nacional pelos ralis, provando que esta modalidade nunca padeceu da falta de espetadores que afeta outras latitudes do desporto automóvel. Já era assim no passado, quando o Rali se quedou pelo Centro e Norte e é cada vez mais assim a Sul. Muitos ainda não se converteram ao ‘novo’ Rali de Portugal, mas Roma e Pavia (assim como o sucesso do antigo Rali de Portugal) não se fizeram num só dia.

Esta compulsão de massas tem vindo a sobreviver a diferentes formatos e ‘deslocalizações’, ditadas pelas exigências crescentes do próprio desporto. Seja no Norte, no Centro ou no Sul, o Rali de Portugal é sinónimo de encostas e planícies coloridas com centenas de milhares de adeptos, resistentes voluntários ao pó e à lama, ao sol e à chuva, ao calor e ao frio, às horas a fio de confraternização só para verem passar as máquinas e heróis do seu contentamento. E, quando finalmente se ouve o rugir de um motor e Loeb ou Latvala surgem no horizonte, eis que a magia acontece… nem que seja por uns segundos.

Citroën melhor do que Ford

O novo regulamento técnico da FIA para os WRC parece ter surtido algum efeito pois o nivelamento entre Ford e Citroën é agora maior, mas pelo que se viu no Rali de Portugal, os homens da Ford ainda têm que penar muito para se chegarem aos Citroën. Basta um dado muito simples para o comprovar. Os DS3 WRC venceram 13 das 17 especiais da prova. Os Ford as restantes quatro, sendo que uma delas foi a superespecial de Lisboa. O Rali da Suécia, de tão especificou, sorriu à Ford, mas o México e essencialmente Portugal mostraram que deverão ser os dois Sébastien a lutar pelo título este ano, ainda que se tenha de contar com a regularidade dos homens da Ford, que apesar de já estarem a ‘perder’ em número de vitórias, podem ter uma palavra a dizer. Mikko Hirvonen lidera ex-aequo com Sébastien Loeb nas contas do Mundial, enquanto Jari-Matti Latvala é terceiro apenas a dez pontos, depois de três terceiros lugares em outras tantas provas.

Três mosqueteiros lusos, Bruno Magalhães foi o melhor

Entre os portugueses, uma participação como há muito não se via, com um autêntico trio de luxo. Armindo Araújo estreava o novo MINI John Cooper Works, Bernardo Sousa estreava-se aos comandos de um Ford Fiesta RS WRC e Bruno Magalhães, a correr no IRC, regressava ao Rali de Portugal para ser o melhor dos S2000, aos comandos do Peugeot 207 S2000. O público nunca regateou aplausos aos três mosqueteiros lusos, que não deixaram os seus créditos por mãos alheias.

Armindo Araújo capitalizou imenso a estreia do MINI, pela curiosidade que suscitou em todo o mundo dos ralis. Enquanto o carro não teve problemas, obteve bons tempos e chegou a ser sétimo classificado a meio do segundo dia de prova, na frente de pilotos como Kimi Räikkönen, (Citroen DS3 WRC), Federico Villagra (Ford Fiesta RS WRC) e Khalid Al-Qassimi (Ford Fiesta RS WRC). O motor do MINI começou a dar problemas, e isso acabou por resultar no abandono, deixando no ar a ideia que, quando o carro for fiável, os MINI poderão ficar logo a seguir aos carros oficiais e a Petter Solberg. Mais do que isso também parece difícil. Por outro lado, Bernardo Sousa andou em nono, na sua estreia no WRC, antes de cair ribanceira abaixo em Felizes 2. Bruno Magalhães cumpriu com louvor o objetivo a que se propôs, já que foi sempre o melhor dos S2000, e no final ainda foi para si o título de melhor português. Já se calculava que assim fosse, exatamente pelos motivos que acabaram por acontecer. Fiabilidade no MINI e um excesso de Bernardo Sousa.

Mão portuguesa no PWRC

Nascida em 1987, a Taça do Mundo de Grupo N ganhou novo colorido quando em 2002 passou a chamar-se PWRC. Desde o seu nascimento, destaque natural para alguns dos melhores alunos que por lá passaram… por sinal portugueses: Rui Madeira e Armindo Araújo, com o piloto de Santo Tirso a obter dois títulos. Com praticamente todos os 18 inscritos a não quererem faltar à primeira chamada do ano, favoritos não faltaram, com muitos deles a ajudar a perpetuar a eterna luta entre Mitsubishi e Subaru. De um lado Michael Kosciuszko (Evo X), Jukka Ketomaki (Evo X) e Martin Semerad (Evo IX) versus Patrick Flodin, Heyden Paddon, Anders Grondal e Gianluca Linari. E não esquecemos Ricardo Moura, que recebeu um wild card da organização para alinhar como convidado, e teve uma boa prestação, pois era terceiro antes de abandonar, na última especial do segundo dia, com um problema de caixa de velocidades no Mitsubishi. Com tantos problemas, a vitória acabou por sorrir a Hayden Paddon, em Subaru, piloto cujo engenheiro se chama Rui Soares e é português.

Academia de Talentos

Findo o JWRC, a FIA desenvolveu um novo conceito para continuar a revelar novos nomes, denominada Academia WRC, que debutou precisamente em Portugal. O projeto engloba 24 Ford Fiesta R2 preparados pela M-Sport para jovens pilotos, mas alguns deles apresentam já currículo: Brendan Reeves venceu o Ásia-Pacífico Cup 2010, Antonio ‘Rocket’ Suarez e Yeray Lemes (campeões espanhóis de Ralis de Terra) e Craig Breen (triplo vencedor do extinto Ford Fiesta Sporting Trophy). Quem venceu foi o estónio Egon Kaur, que desta forma pode seguir as pisadas de Markko Martin e Ott Tanak no Mundial. Kaur foi o mais rápido dos 10 ‘sobreviventes’ em Portugal. Por exemplo, Craig Breen, jovem irlandês liderou a primeira etapa com uma vantagem superior a 48s mas teve uma ligeira saída no segundo dia e não conseguiu recolocar o Fiesta na estrada. O britânico Alastair Fisher (22 anos) também deu nas vistas ao liderar grande parte da derradeira etapa, mas capotou no penúltimo troço e deixou Kaur isolado no comando.

Orgulho nacional do CPR

À semelhança de Açores e Madeira, o Rali de Portugal significa mais custos, mais estratégia, mais dificuldades. Pedro Peres, Vítor Pascoal ou Vítor Lopes eram baixas confirmadas, mas Ricardo Moura optou por tentar pontuar no Rali de Portugal, e quase conseguiu a pontuação máxima. Quase porque abandonou na derradeira especial, ficando a cinco quilómetros de mais um sucesso, mantendo no entanto a liderança do campeonato. Quem venceu foi Pedro Meireles, que estreava um novo Mitsubishi Lancer Evo X, e estava no sítio certo para aproveitar o azar alheio.

Open & Clássicos

O Open também marcou presença na ronda nacional do WRC, disputando três classificativas no sábado (PE 8, 9 e 10), ainda que com caráter extra campeonato. Como não podia deixar de ser o espetáculo e a vitória foram para Ricardo Teodósio, que mostrou andamento para o…PWRC. Dias antes, em Lisboa, os Clássicos encantaram e entreteram o público lisboeta, sendo que o melhor foi o Renault 5 Turbo de Américo Antunes. Presentes estiveram ainda carros e pilotos como por exemplo o Ford Escort de Mário Silva, o Audi Quattro de Cipriano Antunes, que por sinal ficaram ambos pelo caminho, respetivamente devido a problemas de motor e dois furos.

O público

A pouco e pouco o público começa a compor melhor as zonas espetáculo do Rali de Portugal. Em Lisboa estiveram presentes cerca de 40.000 pessoas a ver a caravana do WRC, o que dava para encher o Estádio do Restelo, 100 metros mais acima. Mais a Sul, no Baixo Alentejo, na sexta-feira chegava-se calmamente às especiais, as quais permitem que o público se espalhe imenso. Ainda assim havia ZE com quilómetros de carros estacionados. No sábado, já foi bem mais complicado, e as filas de carros praticamente duplicaram, ainda que só em cinco ou seis pontos. O ACP designou 31 ZE, e se muitas delas são ótimas para ver ralis, outras há que até podem ter bons acessos, mas o espetáculo dado pelos homens do WRC merecia ser visto noutros anfiteatros.

Não tem comparação por exemplo o espetáculo que se pode ver na ZE 5 (Santinha) com o da ZE 6, ambas em Santa Clara. Como nada tem a ver o que se ‘goza’ na ZE 7 de Ourique, com a ZE 8 uns quilómetros mais à frente. Este será um ponto que o ACP poderá rever, já que o público hoje em dia comporta-se bem melhor, e por isso merece que lhe sejam oferecidos os melhores anfiteatros possíveis. Nem que para isso tenham de palmilhar quilómetros a pé. Quanto ao resto das condições nas ZE, perfeitas. Comes e bebes, sacos do lixo, e para que tudo fosse perfeito, só mais um detalhe. Era importante que os espetadores deixassem os locais onde assistem – o mais possível – como estavam quando lá chegaram. De acordo com o que foi possível testemunharmos, aparte de alguma falta de bom senso em determinados casos, na sua grande maioria as autoridades e os ‘Marshall’ contribuíram para que tudo corresse quase na perfeição.

Em resumo, uma prova que Michele Mouton, a nova manager do WRC, só teve coisas boas para dizer, numa organização que não leva lições de qualquer outra no WRC. Num momento político e económico tão difícil para Portugal, pelos menos, com o Rali de Portugal sabemos fazer ao nível dos melhores. Assim fosse em tudo o resto…

 

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