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Jean Ragnotti: “Monsieur spectacle”

Não interessa para nada dizer que Jean Ragnotti, “Jeannot” para os amigos, e são muitos, tem 72 anos. A mesma irreverência que o fazia assustar os vizinhos, na aldeola onde nasceu e onde desde os oito anos começou a conduzir depressa os carros da família, mantém-se bem viva e mordaz por trás daquele sorriso de maroto incorrigível. E a mesma fome de adrenalina também – ou não tenha admitido, numa conversa recente com um jornalista local, que nem sempre respeita os limites de velocidade.

Jean Ragnotti nasceu e cresceu na Vaucluse, uma região francesa o sopé dos Alpes e cuja capital é Avignon, a cidade Património da Humanidade e que chegou a ser propriedade papal e sede de um papado entre 1309 e 1377. Portanto, estradas sinuosas e curvas para todos os gostos eram coisa que, desde menino, “Jeannot” encontrou com facilidade. Bastava sair de casa…

Tinha apenas oito anos quando se sentou por trás de um volante e o vírus nasceu, súbito. E encontrou no jovem Ragnotti o caldo necessário para se criar e dali nunca mais querer sair. Antes de mais, “Jeannot” fugia para os campos com os tratores da quinta e passava o tempo a fazer “corridas” e a assustar as galinhas com improváveis manobras de “toca e foge”, entre as árvores. Aos 13 anos, ganhou mesmo uma “gincana” oficial feita precisamente com… tratores lá na aldeia. Afinal, a experiência sempre serve para alguma coisa! Menos naquela “gincana”, dois anos mais tarde, que terminou com um aparatoso acidente – de trator, é claro!

O primeiro carro foi comprado quando tinha 18 anos, portanto, dez mais tarde. Era um “4 cv” usado e custou 61 francos. Ainda hoje o piloto se lembra bem desse carro, que durou pouco tempo nas mãos dele – e recorda mesmo o dia em que teve que o vender, quando partiu uma espingarda de caça que valia mais que o “4 cv”. A maneira de arranjar uma nova foi… enganar outro com o carro. Como ele tinha sido enganado…

Entretanto, ganhava a vida a ajudar o pai, no negócio da família, vendendo flores de terra em terra, ao volante de uma camioneta.

De amador a profissional
Jean Ragnotti estreou-se em 1967, com um Fiat 850, no circuito de Miramas. Pouco depois, os ralis: com um Renault 8 Gordini participou no Rallye Pétrole d’Istres, onde terminou em 3º da geral e venceu o Grupo 2. Foi o início de uma paixão, que poucas vezes traiu ao longo da sua carreira: a eleita chamava-se, simplesmente, Renault. De facto, com honrosas exceções, toda a carreira de Jean Ragnotti está ligada à marca francesa. Foi com ela que conquistou os seus muitos títulos de Campeão, nos ralis e até nas pistas; foi também com um carro da marca do losango que venceu os seus únicos três ralis no Mundial de Ralis, hoje mais conhecido por WRC.

O ano de 1967 deu-lhe alguns resultados. Inesperados, mas os suficientes para acreditar que era ali que estava o seu futuro. E não se enganou. Numa carreira de piloto profissional de três décadas, conquistou inúmeras vitórias em campeonatos nacionais de ralis e deixou marca com a sua forma desinibida de pilotar, sem medo dos riscos, sem ignorar o prazer do espetáculo e sem perder de vista os resultados.

Essencialmente ligado à Renault, a exceção esteve nos primeiros anos da década de 70, em que foi piloto da Opel, dividindo-se então pelas classificativas e pelas pistas, onde defrontou rivais como Didier Pironi ou René Arnoux. Mesmo assim, é possível recordá-lo ao volante de carros tão díspares como, além dos muitos modelos da Renault e alguns da Opel (Kadett GT/E, Commodore GSE, Ascona, GT), o Datsun Violet ou o Alfa Romeo 2000 GTV, divertindo-se em muitas provas de rampa, no seu país natal.

Além-fronteiras, Jean Ragnotti fez a campanha do WRC durante várias temporadas, destacando-se os anos 80, em que ganhou as suas únicas três provas do Mundial (ver Palmarés). Sempre com modelos da Renault, deu muitas vezes fortes dores de cabeça aos adversários, quase sempre melhor equipados. Um bom exemplo foi o Rali de Portugal de 1987. Ao volante de um modesto Renault 11 Turbo de Grupo A, de tração apenas às rodas da frente, “Jeannot” não se intimidou com o favoritismo de Markku Alén, líder desde o início com um poderoso Lancia Delta HF 4WD e, troço a troço, foi-se aproximando perigosamente do finlandês. As coisas ficaram mesmo negras à medida que iam ‘desaparecendo’ os amortecedores que a Lancia tinha trazido para a prova, ‘devorados’ pela dureza dos pisos. A Lancia teve mesmo que mandar vir mais amortecedores de urgência, por avião e Alén lá conseguiu ganhar a prova, mas não ganhou para o susto!

Jean Ragnotti colocou um ponto final na sua carreira de piloto em 1996. Não porque não se sentisse, aos 51 anos, em forma para continuar ao mais alto nível e a vencer corridas, mas porque, disse ele nessa altura, “os carros são menos divertidos.”

Vencer em Le Mans
Piloto versátil, Jean Ragnotti não apenas foi vice-Campeão da Europa de Fórmula Renault, em 1975, ganhando as provas de Dijon, Pau, Monza e Le Mans-Bugatti e terminando por mais nove vezes no pódio como, no ano antes, participou no Campeonato da Europa de Sport – 2 Litros, com um protótipo March, subindo por três vezes em quatro corridas ao pódio, mas sem nunca vencer. E em 1973 tinha feito o campeonato francês de Fórmula 3, primeiro com um Martini e depois com um March, tendo como melhores resultados dois quintos lugares, em Magny-Cours e Croix-en-Ternois.

Como piloto oficial da Opel, correu também em provas de pista. Em 1970, venceu o grupo 1 no Troféu Opel, no Nürburgring e, no ano seguinte, com um Opel Commodore GSE de Grupo 2, foi 2º à geral na mesma competição. Em 1972, ganhou a Classe 2 com um Opel GT, nos 1000 Km. de Nürburgring.
Entre 1975 e 1982, correu nas 24 Horas de Le Mans. Em 1977, a sua segunda participação, com um Inaltera LM77 partilhado com o seu amigo Jean Rondeau, foi 4º da geral e venceu a Classe. No ano seguinte, com um Renault Alpine A442 A, repetiu a classificação, fazendo equipa com Jean-Pierre Jabouille, José Dolhem e guy Fréquelin. A partir daí, correu sempre na equipa de Rondeau mas, com exceção de 1979, em que foi quinto com Bernard Darniche, abandonou. Em 1981, viu mesmo o seu colega de equipa, JeanLouis Lafosse, perder a vida nas Hunaudières, ao volante de um Rondeau M379.
Hoje, Jean Ragnotti continua profissionalmente ligado à Renault. Já não como piloto de competição mas, mesmo assim, tem o prazer de evoluir em provas de Carros Históricos com alguns dos grandes Clássicos da marca, num programa que é da responsabilidade da Renault Classic. Além disso, está em grande parte das jornadas da World Series by Renault, onde dá espetáculo ao volante de um (claro!) Renault 5 Turbo e, em alguns ralis, serve de batedor, abrindo a estrada ao volante de um carro “0”.

“Estórias” com “Jeannot”

Estava eu a caminhar por uma lateral à pista de Paul Ricard, em direção às boxes, onde se deveria iniciar uma das corridas das Finais Renault de 1988, onde Portugal estava representado por ter então o Troféu Renault Clio como uma das provas do Nacional de velocidade, quando ouço uma travagem breve, um estrondo abafado, ali perto, mas na pista. Olho por cima do ombro e vejo, plantado sobre o tejadilho e com as quatro rodas anda em movimento, um Renault 21 Turbo, branquinho em folha. Invertidas, as letras diziam “”Pace Car” e, lá dento, ainda estava o piloto, de cabeça para baixo. Quando cheguei às boxes, fiquei a saber quem era o “desgraçado” que deu cabo de um R21 a estrear, durante uma volta de reconhecimento à pista, para ver se ela tinha ficado em condições depois da última prova. Isso mesmo, adivinharam: era Jean Ragnotti! Que regressou às boxes à boleia, sem nada de encavacado com o sucedido, antes com o seu sorriso malandreco estampado na cara. “Desculpem lá, rapazes”, deverá ele ter dito, mas disso não me lembro.

Esta não foi a única “estória” de Jean Ragnotti, enquanto convidado da Renault – ou de uma organização de Grande Prémio. Anos mais tarde, durante o GP do Mónaco de 1995, depois do treinos da manhã, o francês estava a fazer uma “visita guiada” à pista, num Renault Clio do respetivo troféu, tendo ao lado o diretor do departamento de Assuntos Externos da FIA, Francesco Longanesi, quando, na zona das Piscinas, encontrou o Footwork deTakichiho Inoue, que seguia a reboque, a caminho das bxoes. O francês, surpreendido, travou a fundo mas, em derrapagem, não conseguiu evitar o embate no F1, que capotou ficou de rodas para o ar, apoiado no “roll-bar” O problema é que Inoue seguia lá dentro, ainda com o capacete mas já sem cintos de segurança e teve que ser transportado ao hospital, onde foi proibido de tomar parte na qualificação, por causa de uma concussão ligeira no cérebro. Em por estado ficou o Footwork, cujo chassis ficou destruído.

Enfim, rezam as crónicas que Ragnotti, no longínquo e alagado GP do Mónaco de 1985, ao ver o seu amigo Prost a gesticular desesperadamente a partir do “cockpit” encharcado do seu McLaren, pedindo por sinais vigorosos que se terminasse a corrida, foi pressuroso no agitar da bandeira que, como diretor de Corrida, tinha o direito e a obrigação de utilizar. O episódio nunca foi esclarecido e, lenda ou verdade, o certo é que isso impediu o primeiro triunfo na F1 de um tal Ayrton Senna, que seguia logo atrás do pequeno francês. Só que esta é uma “estória” que não dá nenhuma vontade de rir…

Texto do nosso colega Hélio Rodrigues, recentemente falecido

PALMARÉS
1967 – Estreia nos ralis, com um Renault R8 Gordini, 1ª vitória no 1º rali: Grupo 2, no Rallye Pétrole d’Istres
1970 – Vice-campeão de França de Rallis (Opel Kadett Grupo 1)
1975 – Vice-campeão da Europa de Fórmula Renault (Fórmule Renault Martini)
1977 – Campeão de França de Rallycross (Alpine A310 V6)
1980 – Campeão de França de Ralis (Renault 5 Alpine Grupo 2/ Renault 5 turbo Grupo 4)
1981 – Segundo na Taça da Europa de Renault 5 Turbo
1984 – Campeão de França de Ralis (Renault 11 Turbo Grupo A)
1988 – Campeão de França de Superprodução (Renault 21 Turbo Quadra)
1989 – Vice-campeão de França de Superprodução (Renault 21 Turbo Quadra)
1990 – Campeão de França de Ralis Grupo N (Renault Super 5 GT Turbo)
1991 – Campeão de França de Ralis 2 Litros (Renault Clio Grupo A)
1992 – Campeão de França de Ralis 2 Litros, vice-Campeão de França de Ralis (Renault Clio 16S Grupo A)
1993 – Campeão de França de Ralis 2 Litros, vice-Campeão de França de Ralis (Renault Clio Williams Grupo A)
1994 – Campeão de França de Ralis 2 Litros (Renault Clio Grupo A)

VITÓRIAS NO WRC
1981 – Monte Carlo (Renault 5 Turbo)
1982 – Tour de Corse (Renault 5 Turbo)
1985 – Tour de Corse (Renault 5 Maxi Turbo)