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Faltam 84 dias para o Rali de Portugal: o que faltou no WRC para resgatar a sua essência?

José Luis Abreu by José Luis Abreu
20 Fevereiro, 2025
in Autosport Exclusivo, AutoSport Histórico, pv2, Ralis
A A
Walter Rohrl: Precisão germânica

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Os homens do WRC continuam à procura da melhor solução para a modalidade, e embora seja certo que não é possível regressar a 100% aos grandes tempos dos ralis – tudo é diferente agora – seria perfeitamente possível existir a cada etapa um troço longo, para marcar a diferença, ou em alternativa, um rali que todos os anos marcasse a diferença de todos os outros, e em vez de sprint, seria uma maratona, só com troços longos. Claro que a conversa seria sempre a mesma, os carros não aguentam, as equipas não querem, etc. Mas querem mudança e não querem mudar?

O saudosismo pela época de ouro dos ralis, os anos 80, não se expressa somente pelas grandes máquinas que marcaram a época, os Grupos B, mas também por toda a atmosfera, emoção e espectáculo que rodeavam os ralis da altura. Entre todos os ensinamentos que os ralis de hoje estão a tentar recuperar, encontram-se as grandes maratonas de várias dezenas de minutos ao volante, que marcaram o passado dos ralis, em Portugal e no mundo. Quem não se recorda da história de Walter Rohrl em Arganil 1980, um épico do livro da História dos Ralis.

Na era WRC, depois de 1997, as provas perderam muita da sua ligação com o passado, sendo disputados em horário de funcionário público, em troços bem mais curtos, perdendo muito do seu encanto, e diminuindo os desafios que se colocavam aos pilotos. Foi preciso Michele Mouton chegar ao cargo de Manager do WRC, para que o melhor do seu tempo fosse sendo recuperado aos poucos. Há uns anos, foram surgindo especiais muito longas, ainda que a conta gotas, que colocam verdadeiramente à prova a resistência de máquinas e pilotos. Mas os tempos são definitivamente diferentes, por isso pouco nos resta mais do que recordar os melhores momentos da história

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Precursores na história

As grandes aventuras de homens e máquinas não são uma invenção dos anos, 80, muito pelo contrário, pois há mais de um século que se realizavam grandes corridas como por exemplo o Pequim-Paris, Londres–Sydney ou Londres–México. Em 1907 o Pequim-Paris desenrolou-se entre a Rússia e a Alemanha, percorrendo cerca de 15.000 km, uma grande aventura para os veículos da época. Sessenta e um anos depois, nasceu o Londres–Sydney, num percurso que levou os concorrentes através da Grã-Bretanha, França, Itália, Jugoslávia, Bulgária, Turquia, Irão, Afeganistão, Paquistão, Índia e finalmente Austrália. No total, 16.983 quilómetros. O Londres–México de 1970, teve a particularidade de passar por Arganil, em Portugal, estendendo-se por 25.750 km, através da Europa e América do Sul.

O Rali de Marrocos será talvez o verdadeiro predecessor do Paris-Dakar. Num formato já mais convencional, a prova marroquina, pertencente ao calendário do WRC, disputava-se entre as cidades de Rabat e Casablanca. Passava várias vezes pelo deserto marroquino e tinha 11 especiais, entre 20 e 250 km, num total de 5.304 km. Por fim, disputado 29 vezes no WRC, o Rali Safari foi durante muito tempo a ‘verdadeira’ prova de endurance do Mundial de Ralis. Antes de pertencer a esta competição, já se disputava desde 1953, como East African Safari Rally. O Rali do México do ano passado fez regressar ao WRC as especiais mais longas, e se para os pilotos se disputar classificativas com cerca de 25 ou 30 quilómetros era algo habitual, passaram a ter de lidar com troços acima dos 50 Km, alterando por completo a abordagem a esses troços.

Há uns anos o Rali de Portugal recuperou alguma da tradição bem portuguesa e teve no seu menu um troço, percorrido por duas vezes, Almodôvar, com 52,30 km, em linha com muito do que se testemunhou no passado do Rali de Portugal, mas ainda longe da especial mais longa alguma vez realizada em Portugal, Mondego, com 70,6 km, que fazia parte do Rali da Serra da Estrela. José Pedro Borges, um dos responsáveis pelo percurso do atual Rali de Portugal, disputou-o em 1982: “Eram os troços longos que mais gostava, e nesse ano numa das passagens furei duas vezes. Nessa altura disputar troços longos era perfeitamente normal, e hoje em dia sorrio quando ouço um piloto do atual Rali de Portugal a dizer que a prova é dura. Eles não sabem o que são troços duros…”, referiu, recordando também aventuras por Arganil: “Imaginem correr um rali em Arganil, em dezembro, com os troços à noite cheios de gelo. Eram outros tempos”. As histórias de Arganil são aos milhares, e a mais conhecida e relembrada é a primeira passagem de Walter Röhrl pelos 43km de Arganil, em 1980. Horas antes, enquanto descansava, o alemão percorria mentalmente cada curva daquele troço. A Serra do Açor apresentava um nevoeiro cerrado e Röhrl partiu sem qualquer visibilidade. Arriscou, ganhando 4m40s a Alen. Concluiu a classificativa completamente exausto, mas feliz pela humilhação imposta: “Foi algo único e irrepetível. Tinha treinado o troço mais vezes que o habitual, e em cada momento tinha a certeza do sítio exato onde estava, mesmo sem ver nada. Se as notas referiam 150 metros eu podia fechar os olhos e sabia o que ia encontrar e o segredo foi ter percorrido mentalmente o troço deitado na minha cama no hotel. Foi perfeito e não falhei uma única curva, agora se aquilo seria possível repetir, não imagino.” Talvez este tenha sido o ponto mais alto de sempre dum piloto em toda a história do mundial de ralis.

Esta é a mais conhecida, mas não a única de Arganil, já que em 1983, passou-se também um daqueles momentos que define uma prova. Mikkola entrou para Arganil como comandante indiscutível, a meio do troço estava derrotado e no final praticamente não restavam dúvidas de que só muito dificilmente o finlandês da Audi perderia essa edição do Rali de Portugal/Vinho do Porto. Curiosamente, uma das melhores prestações desta prova foi conseguida com o carro parado, pois o tempo em que Hannu Mikkola mudou a roda quando furou na segunda passagem por Arganil constituiu novo recorde e isso permitiu-lhe chegar ao triunfo. “Quando vi passar a Michèle pensei que tinha tudo perdido, mas, depois de mudar a roda e à medida que me fui aproximando no final do troço, o pó à minha frente era cada vez maior, o que me levou a pensar que também a Michèle tinha furado. Mas quando vi que era o Lancia de Rohrl que levantava toda aquela poeirada ganhei um novo ânimo e a partir desse momento convenci-me de que o triunfo já não me escaparia.”, disse Mikkola.  Será que num troço pequeno seria possível fazer história assim?

De Norte a Sul

Na história do Rali de Portugal existem muitos exemplos de troços que já tiveram dezenas de configurações diferentes, e versões para todos os gostos. Mudaram-se os tempos, e encurtaram-se troços. Em 1976 a Cabreira, no Rali às Antas, disputou-se com 50,20 km, nos últimos anos do Rali de Portugal no norte, pouco mais de metade. A história dos troços grandes em Arganil remonta a 1978, no Rali de Aveiro (56,5 km), mas a Sul, em Monchique, já por lá andou um Lancia Delta S4 em 1985 a percorrer uma especial com 53,50 Km. Mudaram-se os tempos, hoje em dia a exceção são os troços longos, mas se a FIA quer arranjar história para dar interesse ao WRC, nos troços longos é ‘coisa’ que não falta.

Tags: WRC
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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