Entrevista a André Lavadinho (Rally Series) : ralis tradicionais com uma visão moderna e expansão internacional

Por a 9 Janeiro 2026 09:14

André Lavadinho, fundador do Rally Series explica como transformou a paixão pelos ralis num projeto promotor que visa renovar o formato da modalidade e conquistar novos públicos.

FOTOS @World

Rally Series: a visão de quem quer reinventar os ralis

Ligado aos ralis desde criança, crescendo entre parques de assistência e classificativas, o fundador do Rally Series transformou uma paixão de vida numa carreira profissional que hoje junta fotografia, marketing, comunicação, design e vídeo ao serviço do desporto motorizado.

A partir dessa base, construiu uma empresa com mais de uma dezena de profissionais e um novo projeto-promotor que pretende contar “as histórias dos ralis da forma certa”, mantendo a competitividade mas aproximando o público, pilotos, marcas e organizadores.

Convicto de que “os ralis são o melhor desporto do mundo”, defende que o grande desafio da modalidade passa agora por atrair novos fãs, tornar o espetáculo mais acessível e explicá-lo de forma simples, num modelo mais “fan friendly” que não descaracterize a essência. Daí nasce o Rally Series: um conceito pensado ao detalhe, desde o formato desportivo às arenas, comunicação, conteúdos e experiência do público, que combina ralis tradicionais com uma arena central e momentos controlados de espetáculo, à semelhança da passagem do “Nokia 3310 para o iPhone”, como descreve.

O projeto foi sendo desenhado ao longo de anos, guardando ideias recolhidas no WRC, ERC, Fórmula 1, circuitos e Dakar, até ganhar forma num puzzle coerente que foi tratado “como um projeto profissional e nunca como um hobby”. Cada elemento – arenas, especiais, logística, imagem, conteúdos, livestreamings adaptados a novos fãs – foi criado de raiz, com uma equipa promotora dedicada, sem vícios e com a ambição clara de oferecer um formato repetível onde o público está próximo da ação, os pilotos têm tempo para mostrar personalidade e as marcas identificam de imediato retorno.

O primeiro ano superou as expectativas, com forte adesão do público, elevado envolvimento digital e feedback positivo de pilotos, equipas e patrocinadores, mas o verdadeiro triunfo, sublinha, foi trazer famílias, jovens e pessoas que nunca tinham assistido a um rali, atraídas pela comodidade da arena, da fanzone e da envolvência. A sensação de “só se ouvir falar de Rally Series” e de ver novas caras em cada prova confirma que o conceito encontrou espaço num panorama onde a combinação entre espetáculo, proximidade e competitividade é rara.

Em 2026, o objetivo é consolidar e crescer: reforçar o formato da última ronda, elevar a organização, subir a fasquia na produção de conteúdos e aprofundar parcerias, num contexto em que a entrada da Castrol como Title Sponsor anual dá identidade e estabilidade ao projeto. Em paralelo, o Rally Series está a ser estruturado como modelo de franchising internacional, com o trabalho jurídico e contratual já em marcha, sempre com uma visão de longo prazo muito clara: ajudar os ralis a crescer globalmente, exportando elementos de promoção, formato e ligação ao público para outros campeonatos, sem nunca perder a identidade de uma modalidade que, insiste, não é um passatempo, mas trabalho diário, pressão constante e um esforço coletivo movido por uma paixão comum.

Leia a entrevista na íntegra:

Há quanto tempo trabalhas no mundo dos ralis / motorsport?

“Estou ligado aos ralis praticamente desde que nasci. Comecei a ver ralis aos dois anos e a minha primeira imagem publicada surgiu aos seis anos, num jornal nacional, quando o meu pai me colocou uma máquina fotográfica na mão e me disse onde disparar, durante o Rali de Portugal de 1996, com Martin Webber, então piloto oficial da SEAT.

Os meus pais trabalhavam profissionalmente na área da fotografia de motorsport, cobrindo ralis e circuitos a nível nacional, pelo que cresci dentro dos parques de assistência e das especiais. Nunca foi uma fase; foi sempre o meu ambiente natural.

Aos 18 anos tomei uma decisão clara: criar a minha própria empresa do zero. Entrei 3x na Universidade, em Marketing que tanto adoro, mas nunca consegui ir a uma aula pois já estava fora do país no meu mundo de motorsport e com o meu trabalho e clientes.

O meu primeiro grande cliente foi Nasser Al-Attiyah, a quem devo uma parte muito importante do meu crescimento profissional. Seguiram-se pilotos como Eyvind Brynildsen e Khalid Al Qassimi, e a partir daí o percurso foi sempre a evoluir.

Hoje, para além da fotografia, lidero uma empresa de marketing, comunicação, design e vídeo especializada em motorsport, com mais de 10 profissionais a trabalhar diariamente em eventos para promotores, organizações, equipas e pilotos oficiais. E agora, a Rally Series Promoter, certamente um grande desafio de vida. Tudo o que faço hoje tem origem nessa paixão inicial: contar histórias dos ralis da forma certa.”

Porque é que os ralis são uma paixão tão forte para ti?

“Porque acredito genuinamente que os ralis são o melhor desporto do mundo.

Não existe outra modalidade que combine de forma tão intensa performance, risco, emoção humana, natureza e autenticidade. E quando alguém vive um rali a sério, sobretudo ao vivo, dificilmente se afasta. Fica ligado para sempre. É uma “droga saudável”!

Por isso, acredito que o maior desafio atual dos ralis é atrair novos públicos. O desporto tem tudo para crescer; precisa apenas de ser mais aberto, explicado e vivido de uma forma diferente — fan friendly.”

O que te inspirou a criar o Rally Series?

“O que me inspirou mais foram todas as ideias que eu sempre vi, analisei, fiz análises SWOT e… guardei. Desde WRC, ERC, Fórmula 1, Circuitos, Dakar — vi tanta coisa que guardei as melhores ideias para um dia conseguir criar um projeto pensado a nível de Promotor. Sempre quis ser promotor; era um grande objetivo de vida desde que comecei a ir a ralis internacionais. Deitava-me à noite a pensar, quando será? Arrisco? Claro que sim!

Os ralis precisam de evoluir no formato, sem perder a sua essência e competitividade.

Nunca o Rally Series será um combate, mas sim uma evolução, e estou aqui para ajudar em tudo isto, pois adoro isto tudo. Costumo dizer que o meu trabalho é um hobby. Porquê? Porque para mim não é trabalho; é realmente o que adoro. Saio várias vezes da zona de conforto em várias situações, mas nunca ando infeliz. Nem desisto. Sei que é o certo. Senão, não tinha feito este projeto nem arriscado.

Foi como a era do Nokia 3310 e o surgimento do Iphone, a tal evolução normal que acontece em tudo.

Vivemos numa década em que pilotos, marcas e público procuram visibilidade, ligação emocional e storytelling, e não estamos apenas a pensar na parte competitiva. O mundo evoluiu — é a realidade.

Os novos pilotos querem mostrar quem são, querem ser vistos, querem interagir, não apenas competir contra o cronómetro de forma isolada. Para isso, também precisam de tempo, de uma maior equipa de comunicação e de chegar ao fim do dia com tempo para todo este trabalho.

O problema não é a competição.

O “problema” é que o formato tradicional, muitas vezes, retira tempo e espaço para os pilotos mostrarem a sua personalidade.

Acredito profundamente que o futuro passa por um equilíbrio: rali competitivo real + momentos controlados de espetáculo.

Foi exatamente isso que procurei criar com o Rally Series com toda a minha equipa que tanto me apoia dia a dia e trabalha neste projeto.

Um ponto muito importante, isto não são ralis em circuitos. São ralis tradicionais que unem uma arena diferente.”

Como transformaste esse sonho em realidade?

“Tratando-o como um projeto profissional e nunca como um hobby, com muita consistência diária. É o principal para se conseguir algo. Sempre fui assim.

O Rally Series foi criado do zero há vários anos em esboço, como um verdadeiro puzzle de ideias recolhidas ao longo da minha carreira internacional. Cada detalhe foi pensado: formato desportivo, arenas, comunicação, conteúdos, experiência do público, logística e imagem e uma coisa muito importante, adoro conduzir e nunca consegui um projeto completo. No Rally Series é mais fácil conseguir esse tal projeto para pilotos que merecem oportunidades!

Exigiu um enorme volume de trabalho meu e de uma equipa promotora altamente dedicada. Nada existia antes do primeiro evento. Tudo foi construído de raiz. Até a nível de comunicação, foi do 0 ao 100. Todas as ideias que sempre quisemos implementar e muitas vezes éramos travados, adotamos no primeiro ano e vamos adotar ainda mais no segundo como conteúdo criativo, livestreamings diferentes e adaptados a novos fãs, entre outros.

E é precisamente por isso que funcionou. Sem vícios.

Posso confidenciar: Em 2023, já com toda a ideia montada antes de a lançar em 2025, criei um rali federativo e com todas as regras máximas, num sítio fantástico e muito bonito. Criei uma arena, promovi a prova, organizei a prova com colegas profissionais de um clube organizador que ainda hoje estão comigo, claro, como outros, conduzi um Citroën C3 Rally2 e… ganhei a prova e foi uma batalha saudável com outros dois pilotos conhecidos de topo. Após isso, senti que uma arena disputada 4x era pouco num rali e então evoluí o esboço que tinha para uma arena + especiais tradicionais.”

Como correu o primeiro ano?

“O primeiro ano superou largamente as expectativas, mas eu nunca estou satisfeito. Sou assim em tudo. Só consigo evoluir sendo assim.

Para um país pequeno como Portugal que tanto o adoro e orgulho-me de iniciar isto e sempre com o apoio da Federação Portuguesa que tem uma visão aberta e inovadora, o impacto foi muito significativo: grande adesão do público, forte envolvimento digital, feedback extremamente positivo de pilotos, equipas, sponsors interessados e a aparecer dia após dia. É algo que dá mesmo um retorno direto.

Mas o mais importante foi termos trazido novos fãs, famílias, jovens, pessoas que nunca tinham ido a um rali. Esse é, para mim, o maior sucesso, devido à comodidade da arena, da fanzone e da envolvência.”

Qual foi o maior sucesso de 2025?

“Ter criado um sistema que funciona. Parece que se tornou viral… só se ouve falar de Rally Series.

Não apenas um bom evento, mas um formato repetível onde: o público se sente próximo da ação, os pilotos mantêm o foco competitivo total, as marcas percebem claramente o retorno e se envolvem seriamente sem ter que se deslocar até às montanhas com os seus clientes para irem assistir à prova. Também podem claro mas como têm o conforto da arena, torna-se um convívio espetacular enquanto os carros passam e esperam que os mesmos façam as outras especiais e voltem à arena. O conteúdo vive antes, durante e depois dos ralis, tivemos um recorde de inscritos num primeiro ano. Esta combinação é rara no panorama atual dos ralis.”

Houve algum momento em que pensaste: “eu consegui”?

“Sim, várias vezes e várias vezes sem conseguir adormecer toda a noite com a cabeça a funcionar a 1000 á hora de como melhorar algo, de como inovar mais, etc.

Mas os momentos mais marcantes não foram pessoais.

Foram aqueles em que vi famílias a assistir ao seu primeiro rali, crianças curiosas, pessoas a partilhar e a marcar o Rally Series nas redes sociais.

Em cada prova encontrei pessoas que nunca tinha visto em ralis. Isso confirmou-me que algo diferente estava a acontecer. Sinto-me mesmo muito, muito feliz.”

O que podemos esperar de 2026?

“2026 será um ano de consolidação e crescimento. Vamos reforçar o formato que fizemos na última ronda, que foi muito positivo e elogiado, melhorar ainda mais a organização, elevar o nível de produção de conteúdos e fortalecer as parcerias. Entramos também numa nova fase com a Castrol como Title Sponsor anual, dando identidade clara e estabilidade ao projeto, bem como o envolvimento de várias marcas que serão anunciadas em breve.

Em paralelo, o Rally Series está a ser estruturado como um modelo franchisado internacional. O trabalho jurídico e contratual já está em curso.”

Qual é a visão a longo prazo?

“Ajudar os ralis a crescerem a nível global. Tenho tudo planeado; o puzzle está montado. É só ter oportunidade — é isso que precisamos agora.

Acredito sinceramente que muitos elementos do Rally Series, ao nível da promoção, do formato e da ligação ao público, podem ser aplicados noutros campeonatos, inclusive a um nível muito elevado, e estou aqui para isso. Adoro situações difíceis; só assim me supero e melhoro.

O nome “Rally” tem uma força enorme.

A minha ambição é simples: ajudar este desporto a evoluir, sem nunca perder a sua identidade.

Isto não é um hobby. É trabalho diário, pressão constante e uma equipa inteira por detrás.

Mas ver os ralis a crescer de novo — isso é o que move tudo.”

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