Como renasce um RRC
Após o acidente do Rali da Alemanha, o Ford Fiesta RRC que Bernardo Sousa usa no WRC2 foi recondicionado e o AutoSport foi à BS Motorsport perceber como afinal do velho se faz novo e se fica com um carro ainda mais competitivo para lutar pelas vitórias no WRC2
Depois de ter liderado a primeira etapa do WRC2 no último Rali da Alemanha, Bernardo Sousa viu o seu resultado comprometido por um furo e, mais tarde, por um capotanço já no segundo dia de prova. Por opção própria e devido aos danos sofridos no Ford Fiesta RRC, o piloto da equipa AT Rallye Team preferiu abandonar da prova para se concentrar na prova seguinte do ‘seu’ calendário, o Rali de França-Alsácia, numa atitude que muitos consideraram estranha mas que o piloto continua a ver como a melhor opção. Nas suas palavras, “pelas nossas contas abdicámos de 40 km de troços, o que significou uma poupança que deu para suportar os custos do arranjo do carro com o acidente e para ajudar a preparar a próxima prova do WRC2 onde participámos. Por outro lado, continuando, dificilmente teríamos feito alguns pontos e a imagem do carro não iria ser a melhor e, mesmo que as pessoas tenham dificuldade em perceber isso, essa é uma questão muito importante”.
Embora o acidente não tenha sido muito violento e tenha deixado a mecânica passar praticamente incólume a mazelas (à exceção de um parafuso do braço de suspensão), os danos ao nível da carroçaria ainda se revelaram algo exigentes e por isso foi também tomada a decisão de fazer regressar o Fiesta RRC às oficinas da BS Motorsport, na Charneca da Caparica, naquela que é a atual principal base de trabalho da equipa AT Rallye Team, de Oleksiy Tamrazov, que, no último ano, trabalhou em estreita base de colaboração com a formação da BS Motorsport.
Avaliados os danos que não afetaram o chassis ou a roll cage, a equipa de três elementos não perdeu tempo e lançou mãos à obra, aproveitando um intervalo de tempo maior do que o normal (já que Bernardo Sousa não foi ao Rali da Austrália) para transformar o ‘velho’ Fiesta num carro praticamente novo. “Optámos por desmontar o Fiesta todo, extraindo o motor, cablagens, suspensões ou seja, deixando a carroçaria praticamente nua. Em termos de painéis os que ficaram danificados são substituídos e mesmo os que já tinham a fibra em mau estado também o serão. Aquelas pequenas amolgadelas oriundas das inevitáveis pedradas que o carro recebe ao longo dos ralis também serão agora arranjadas para que o carro fique praticamente novo em termos de aspeto visual. Em termos mecânicos, não é necessário fazer grande coisa porque para o Rali da Alemanha, e quando passámos o carro para asfalto, o Fiesta já tinha recebido praticamente tudo novo e nem o motor necessita de ir para a M-Sport para rever pois como foi mudado no Rali da Polónia ainda tinha pela frente cerca de mais 1000 km”, explicou Bernardo Sousa. Ainda assim, a operação completa de ‘revitalização’ ‘embelezamento’ do único RRC que mora em Portugal, entre desmontagem e montagem, demora “entre quatro e cinco dias dias (dois para desmontar e três para montar)”, conforme deu conta Paulo Gomes, o principal responsável técnico da equipa que também assegura que “se este fosse um caso de extrema urgência tudo poderia ser desmontado e remontado em dois dias e meio”. Mas como esse não foi o caso, a equipa pode dar-se ao luxo de investir ainda mais num trabalho de casa bem feito para tentar tornar o Fiesta RRC ainda mais competitivo.
Trabalhar a distribuição de massas
Nesse sentido, e com o Fiesta totalmente despido e antes da reconstrução do puzzle que envolve toda a sua montagem, esteve também previsto um trabalho de otimização em termos de peso que ainda não tinha sido feito no chassis nº 26 deste WRC/RRC da M-Sport que Bernardo Sousa explica ser “uma questão de pormenor mas que pode ajudar a ser ainda mais competitivo”. Na prática, “tem tudo a ver com a distribuição de massas, sobretudo na traseira para se tentar chegar ao compromisso ideal de 50% do peso à frente e 50% do peso atrás que não é nada fácil, mas não é impossível. O objetivo é tentar ficar abaixo dos 1200 kg regulamentares para depois termos uma margem superior para distribuirmos o peso como mais for conveniente e voltarmos a ficar ‘regulamentares’”. Como é que isso se faz num Fiesta RRC? “Vamos jogar com uma proteção inferior mais fina atrás, onde ganharemos peso. Depois passamos a ‘makita’, o macaco e as ferramentas para a frente, estimando que ganharemos cerca de 10 kg à frente que passarão a ajudar a baixar o centro de gravidade e a despenalizar o ‘peso’ na traseira quando levarmos duas rodas suplentes”. No fundo e em termos pragmáticos, “são coisas que não dão uma maior performance ao Fiesta pois os ganhos físicos são mínimo mas permitem ao piloto sentir melhor o carro e isso traduz-se automaticamente no aumento da confiança na sua condução o que, por sua vez, se reflete no cronómetro”. Com regulamento técnico tão ‘apertado’ como o que existe no Campeonato do Mundo de Ralis, não se conseguem ganhos significativos operando mudanças em pontos estruturais do chassis ou carroçaria, mas não há dúvida que é nos detalhes que um carro como o Fiesta RRC pode ganhar competitividade e, nesse capítulo, a BS Motorsport e a AT Rally Team não deixam nada ao acaso.
Receita para ser mais eficaz no cronómetro
Depois de experimentar navegadores como Carlos Magalhães, Jorge Carvalho, Nuno Rodrigues da Silva, António Costa, Paulo Babo, Corrado Mancini, Bernardo Sousa parece estar cada vez mais fidelizado ao seu atual navegador, Hugo Magalhães. No WRC2, o piloto defende que “temos formado uma boa dupla e temos evoluído a todos os níveis, sendo que aprendemos sempre mais qualquer coisa em cada rali e talvez por isso estejamos cada vez mais fortes. Temos apurado o sistema de notas e corrigido a falta de rigor que às vezes as minhas notas tinham de umas curvas para as outras. A partir do Rali de Portugal, começámos a definir melhor as curvas especialmente as mais rápidas que interagem com as lentas seguintes e a apurar ainda mais os pontos de travagens, conseguindo melhoramentos de 0,1s aqui e outro acolá, o que no final se nota em termos de cronometragem e posição conseguida. Muitas vezes, até parece que vamos mais devagar e sem dúvida sentimos menos prazer a guiar, mas depois o cronómetro prova que estamos a ser mais eficazes.
Um Fiesta ‘novo’ por cerca de € 7000
Entre todas as peças de reconstrução, só uma pequena parte tem um custo de material de um carro de série. É o caso do portão da mala, do farol traseiro esquerdo e da estrutura externa dos dois pilares A, itens encomendados diretamente à Ford Lusitana. O resto, nomeadamente os painéis de fibra de carbono da carroçaria das embaladeiras, das portas, os para-choques dianteiro e traseiro, para além da asa traseira de carbono e outras pequenas coisas, têm que ter o selo da M-Sport, o que faz com que os custos de qualquer reparação, por mais pequena que seja, não sejam propriamente baratos. Neste caso, Bernardo Sousa orçamentou os estragos do Rali da Alemanha, em cerca de € 6000/7000, ainda assim um valor relativamente baixo porque as partes mecânicas, por norma as mais caras, não tiveram que sofrer reparos ou ser substituídas. Um valor extra que é preciso acrescentar aos cerca de € 50000/60000 na folha de custos que o piloto tem para participar numa prova como o Rali da Alemanha.
“Não abdico da minha rapidez para acabar ralis”
O acidente do último Rali da Alemanha foi apenas mais um na carreira de Bernardo Sousa que é tão conhecido pela sua rapidez inata como pelo histórico de acidentes no seu currículo. Um tema que o piloto frontalmente enfrenta para dizer que “não abdico da minha rapidez pela necessidade de acabar ralis. Se for para andar em 5º ou 6º, consigo fazer qualquer rali e chegar ao fim, mas esse nunca foi e nunca será o meu espírito pois só me interessa lutar pelos melhores lugares”. Uma postura que é a sua imagem de marca e que divide opiniões entre os adeptos dos ralis, mas que o piloto madeirense considera já ter trazido alguns benefícios e um bom reconhecimento por quem de direito. Avançando com algum exemplos, Bernardo Sousa dá conta que, “por exemplo, em 2011, quando fizemos o S2000, precisamente no Rali da Alemanha, demos um toque e danificámos dois amortecedores. Encomendámos dois novos, mas a M-Sport acabou por nos oferecer quatro, com uma especificação ainda mais evoluída e que nunca sequer tínhamos usado, por forma a premiar o nosso andamento até então”. De resto, já este ano, Bernardo Sousa, depois da sua vitória no Sata/Rali dos Açores, acabou por ter outro tipo de condições por parte da Pirelli (a marca de pneus que ‘calça’ o seu RRC), que, com ele, reforçou a ligação.
Piloto mas mecânico nos ‘tempos livres’
Com regras do WRC muito limitadas ao nível da intervenção dos mecânicos das equipas (que apenas podem mexer nos carros nos Parques de Assistência), as funções do piloto e navegador têm crescido e estão hoje longe de se resumir a guiar o carro durante a prova ou ditar notas (no caso, do co-piloto). Por isso, Bernardo Sousa afirma-se preparado para realizar quase toda e qualquer intervenção mecânica durante a prova necessária, desde que possível com os meios disponíveis dentro do carro. Nesse sentido, como afirma, “é também importante acompanhar a reconstrução de um carro como a que está a ser feita agora para ficar a conhecer o Fiesta ao pormenor. Sei identificar todos os orgãos, montar e desmontar muitos deles e dou sempre uma ajuda neste tipo de operações na oficina para aprender sempre mais. Para o Rali de Portugal, por exemplo, fui eu que revi as transmissões e os cubos das rodas. Se for preciso também monto o charriot, os braços de suspensão e os amortecedores, são não arrisco ainda mexer no motor e nas cablagens pois há sempre alguém mais habilitado para isso”.
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