José Pedro Fontes esteve no debate da Eleven Sports sobre o futuro dos ralis, em sua própria representação, como piloto mas também como líder da Sports & You, representante Ibérico da PSA MotorSport. Como já várias vezes deixou bem expresso nas páginas do AutoSport, tem a mesma visão para os ralis há muito, pois entende que a concorrência que há entre grandes eventos e outros desportos em Portugal, não se coaduna com alguma amadorismo que existe no CPR. Por isso entende que deve ser feito um esforço para desbravar um caminho que torne o CPR um produto mais forte, mais vendável, mais apelativo para pessoas que têm muitos outros eventos para escolher.
José Pedro Fontes sabe que existe uma enorme paixão pela modalidade, sabe também que depois do futebol, e mesmo ‘esse’, só nos três grandes se vê mais gente do que nos ralis. Fontes sabe que a força dos ralis em Portugal é grande, mas pode ainda ser maior, se forem dados os passos certos.

Zé Pedro, qual é o caminho para os ralis regressarem?
“Temos que estar muito solidários e do lado dos clubes, pois entendemos dificuldades que irão existir para organizar provas. Teremos de cumprir as regras sanitárias que forem impostas, salvaguardar a segurança e dar o exemplo. Estou convicto que os nossos adeptos, dos ralis, nos ajudarão a fazê-lo bem. As organizações e a FPAK irão ditar as regras que todos nós devemos cumprir e ser responsáveis. Temos mesmo de assegurar isso. Todos nós temos que ter este espírito construtivo. Neste momento temos que estar focados no que temos de fazer para que as provas possam ir para a estrada”.
Por onde começar?
“Para já é fundamental assegurar a autorização para o fazer em segurança. Não devemos passar uma má imagem daquilo que são os ralis. Vamos certamente ter muito público, as pessoas necessitam de ter atividades para fazer ao fim de semana, será uma boa oportunidade para ter muita gente mas também por isso temos que passar uma mensagem de sensatez e segurança, e se tivermos de abdicar de alguma coisa, que assim seja, e por fim temos que estar ao lado dos clubes.
Acho que é possível desde que o façamos com bom senso. É muito importante não nos esquecermos disto. Nestes primeiros tempos acho que não deve haver super especiais, que são propícias a ter muita gente num espaço muito reduzido. Temos que aproveitar bem os troços onde há espaço para garantir o distanciamento social. Depois impor medidas excecionais para as partidas, pódios, limitar áreas de menos espaço para não sermos um mau exemplo. Agora que muitos outros estão parados, temos que dar um bom exemplo e passar uma boa imagem.”,
Há muito que dizes que os ralis devem mudar…
“Acho que estamos num momento em que devemos fazer as reformas que tantas vezes falámos. Pensar o desporto automóvel, torná-lo um produto para vender, organizado, tem que existir um eixo orientador, há que pensar no aspeto comercial. A TV é fundamental, e se os ralis tiverem que ser mudados para ir de encontro à TV, temos que o fazer. Há que aproveitar agora, esta nova oportunidade.
Há que ter a mente aberta e perceber que temos que mudar o campeonato, direcionando-o para algo com muita visibilidade.
Há que deixar os patrocinadores contentes, fazendo crescer a dinâmica. Acho que é altura de repensar isto tudo, pensar nos ralis como um produto comercial vendável, obter a atenção dos media traçando um plano estratégico, já para 2021, que vai ser um ano ainda mais difícil. Temos que nos unir e pensar num plano estratégico e como vamos dar mais visibilidade ao campeonato. Precisamos de um bom espetáculo, bons carros, temos de trabalhar para procurar soluções para melhorar, otimizar, tornar mais eficiente balanço custo/retorno. Precisamos disso, pois se não dermos esse passo vamos passar momentos difíceis.
2020 é uma coisa, mas tu já olhas para 2021…
“Para este ano é importante não parar, não podemos ter decisões para a realidade de cada um, mas uma solução para o bem do desporto.
Para 2021, uma folha branca. Falaram da proposta do Miguel Campos de cinco provas! Ele é economista, eu sou Licenciado em Comunicação e cinco provas não é razoável para um Campeonato Nacional. O custo não é tudo, o que verdadeiramente interessa é o balanço entre o custo e retorno. Há um consenso entre os pilotos, 10 provas é demais. Sete ou oito, destas deve tirar-se o pior resultado. A base devem ser as grandes provas e a seguir ao Rali de Portugal, Açores e Madeira, deve haver ralis com uma relação entre custo/retorno, alto.
Devem ser em sítios com uma organização ativa e dinâmica, dentro do mesmo espírito da Escuderia Castelo Branco, que é bom exemplo disso, trabalha sempre com os pilotos.
Quero deixar claro que é importante o CPR ter uma abrangência no território do país, acredito que é interessante ir às ilhas, mas há que pensar num consenso. Porque não clubes juntarem-se para fazer provas. Porque não ralis que pontuem nos campeonatos de dois países, Portugal e Espanha. Provas que não têm sustentabilidade não podem fazer parte do CPR.
Mas tenho mais: A parte técnica dos ralis deve estar ao serviço da parte comercial. Porque razão um piloto que desiste na PE1 não pode, se o carro tiver condições para isso, recomeçar à tarde e fazer o resto do rali? Há nos ralis várias realidades, e penso que seria importante juntar o mais possível concorrentes no mesmo evento. Temos que acabar com a quantidade enorme de ralis que há em Portugal.
Temos que criar grandes eventos, até mesmo juntar com outras modalidades. Por exemplo, há uns anos, eu corria na velocidade, e o Rali do Algarve teve uma especial no autódromo do Portimão, onde havia corridas.
Temos grande concorrência de vários desportos que são muito bem organizados. São fortes, mas têm muito menos gente que os ralis.
Eu sei que é mais fácil ir às Câmaras Municipais procurar apoios, mas nós temos que ir às grandes cidades. E se tivermos ralis muito fortes, o CPR só vai ganhar com isso. Se fizer um festival de música vou querer fazê-lo num sítio onde possa ter muita gente, as melhores condições, mas para isto é preciso trabalhar e pensar. Tudo tem que acompanhar este profissionalismo”.
Que outras soluções, TV?
“A TV não resolve problemas todos. A força dos ralis está no público que vai à estrada, mas temos que fazer ralis bem organizados, bem promovidos e nos sítios onde existe público. Temos que ir aos grandes centros. Não compreendo porque não se faz uma prova na zona de Lisboa.
Mais coisas que os ralis têm que ser?
“Temos que escolher onde, a que horas, como promover, fazer acordos com os media generalistas, tem que haver imprensa de nível nacional.
Deve também haver orientação para aquilo que cada clube tem de fazer. Há grandes diferenças em termos organizativos nas provas do CPR, há clubes que não podem estar no CPR. Tem que estar perfeitamente definido o que cada um tem que fazer, tem que haver estratégia.
E do ponto de vista a Sports & You, como são as coisas?
“A Sports & You enfrenta, como todas as empresas, tudo isto com preocupação, mas focados na estratégia para o futuro. Procurar novas áreas de negócio, novos projetos que possam acontecer. Temos áreas de negócio que não estão dependentes das corrida, estamos ativos à procura de soluções. Preparar a retoma e pensar em novos negócios”
Para terminar, um resumo…
O balanço é positivo, 2020 é para sobreviver, 2021 para reinventar, agora há que chegar a entendimentos, bem comum, fazer cedências mas sabendo que é tempo de agir. Agradecer a todos os pilotos reunidos pelo consenso, estou bastante contente pelo diálogo que a FPAK e os clubes têm tido com os pilotos, pois perceberam que podem contar connosco, que seremos parte solução.”









