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» Textos: José Luís Abreu

 

O melhor português no Rali de Portugal: a história


Hoje, vencer o Rali de Portugal entre os concorrentes portugueses já não ‘vale’ o mesmo, embora ainda valha muito. Mas, no passado, ser o primeiro português chegava a ser considerado quase tão importante quanto ser Campeão Nacional.

A atenção dos adeptos relativamente ao melhor português no Rali de Portugal chegou a receber uma cortesia que não ficava muito aquém da luta que se desenrolava pela vitória no rali à geral. Sempre conhecedor, o público português sabia melhor que ninguém quem verdadeiramente importava no topo da modalidade, mas o carinho que sempre deram aos pilotos portugueses ganhava importância verdadeiramente acrescida no Rali de Portugal.


Para muitos, a participação na prova portuguesa era o único rali que disputavam em toda a época – ainda hoje assim sucede – e para muitos outros, a participação no Rali de Portugal era o ponto alto do ano. Para os pilotos da frente, os do Mundial, a prova era complicada, por isso imagine-se entre os portugueses, com meios a ‘milhas’ dos pilotos oficiais. Mas isso nunca os fez recuar, pois numa semana faziam algo equivalente a várias provas do Nacional de Ralis. E foi assim até à passagem do Rali de Portugal para o Algarve. Nos primeiros anos, 2005 e 2006, apesar de algumas participações internacionais, com carros semelhantes aos dos melhores portugueses, a prova ‘lusa’ ainda tinha grande importância, mas com o regresso do evento ao WRC, aliado às grandes mudanças que se deram nos cinco anos em que o Rali de Portugal esteve fora do Mundial, a presença dos portugueses foi sendo cada vez mais relegada para segundo plano, tendo atingido momentos muitos complicados nos últimos anos, primeiro com o ‘empurrar’ dos portugueses para lá de tudo o que era competição ligada ao WRC, e por fim com a saída do Nacional de Ralis a prova portuguesa do Mundial de Ralis.


Esta terá sido a machadada final na forte ligação de uma prova à principal competição nacional de estrada. Mas os pilotos lusos nunca abdicaram por completo de participar na grande festa, continua a ser verdadeiramente importante ostentar o título de ‘Melhor português’ no Rali de Portugal, mas é incomparável o que sucede hoje com o passado. Entretanto a prova regresso ao Campeonato de Portugal de Ralis, e portanto essa luta voltou ter muito importância. Por exemplo, o AutoSport, no Rali de Portugal dá o mesmo número de páginas ao CPR que dá ao WRC. Oito! “Se lutamos para ter visibilidade, como podemos ficar de fora da prova mais mediática do ano?”, questiona-se um piloto.

COMO TUDO COMEÇOU
O 1º Rallye TAP, disputado em 1967, marcou a primeira internacionalização da prova portuguesa e com a sua integração no Europeu de Ralis, em 1970, o evento passou a ter cada vez mais estrangeiros a participar, e por isso os triunfos de 1967 (Carpinteiro Albino) e (1969) Francisco Romãozinho se tornaram exceções, ainda mais com a entrada no Mundial de Ralis, em 1973.
Por isso, e apesar do ‘título’ de melhor português ter passado para uma posição subalterna, essa luta entre os pilotos lusos foi ganhando cada mais importância, na direta proporcionalidade da fama que o Rali de Portugal ganhava além fronteiras. Depois disso, só em situações muito excecionais, como foi o caso do Rali de Portugal de 1986, quando Joaquim Moutinho e Edgar Fortes levaram o Renault 5 Turbo à vitória, devido ao acidente de Sintra e à ‘greve’ dos pilotos de fábrica, que deixaram o evento com pouco mais do que os concorrentes portugueses.
Ou em 1996, quando no Mundial de Ralis se procedia à rotatividade entre as provas do campeonato e nesse ano o Rali de Portugal contou apenas para a F2, campeonato de duas rodas motrizes, ficando fora a competição principal. Rui Madeira e Nuno Rodrigues da Silva aproveitaram da melhor forma a oportunidade e venceram à geral, depois de grande luta com Freddy Loix e Fernando Peres.
A prova saiu do WRC depois de 2001, e nos anos seguintes Armindo Araújo aproveitou da melhor forma um Rali de Portugal quase totalmente ‘nacional’ para triunfar diversas vezes, em 2003 e 2004, em Trás-os-Montes, e em 2006, no ano da candidatura ao WRC, numa prova ganha com grande brilhantismo.
A luta pelo ‘titulo’ de melhor português no Rali de Portugal foi sempre um espetáculo dentro do próprio espetáculo, e provas houve com grandes lutas, como por exemplo em 1972, quando António Borges realizou uma fabulosa atuação, andando pelas posições cimeiras do rali até desistir, cedendo o título de melhor português a Giovanni Salvi, que levou o Porsche 911S ao sexto lugar da classificação geral.
Anos depois, em 1978, Carlos Torres, em Ford Escort iniciava uma série de triunfos consecutivos, sempre com grandes exibições, a última delas, em 1982, quase a ‘tocar’ no pódio, terminando atrás do Audi Quattro de Franz Wittman.
Joaquim Santos obteve em 1983 o seu primeiro de três triunfos, curiosamente, sempre com carros diferentes, e Carlos Bica iniciou em 1989 uma série de três vitórias consecutivas na luta pelo melhor concorrente luso, sendo que no ano seguinte foi o quinto de cinco Lancia no topo da classificação geral, com um carro de treinos cedido pela equipa de fábrica.
O clã Bica deu continuidade às famílias triunfantes nos ralis nacionais – por exemplo MeQePê e PeQePê – com o triunfo de Jorge Bica em 1993. Mas foi a partir de 1995 que se iniciaram os triunfos dos dois mais vitoriosos pilotos entre os portugueses no Rali de Portugal. Rui Madeira venceu a prova de 1995, no ano em que venceu a Taça FIA de Grupo N, e desde aí acrescentou mais quatro vitórias, só não somando a quinta porque foi desclassificado em 2007, devido a um detalhe em que não teve culpa nenhuma, facto que o deixou muito agastado.
Mas o piloto que mais vezes foi o melhor português no Rali de Portugal, e no caso, também ele tem três triunfos à geral, é Armindo Araújo, depois de ser o melhor entre 2003 e 2006, mais duas durante o seu ‘reinado’ de Campeão do Mundo do PWRC e finalmente com o MINI JCW WRC. Atualmente, a luta pela posição de melhor português no Rali de Portugal perdeu elan, ainda mais porque o Rali de Portugal deixou
de pertencer ao Nacional de Ralis, voltando alguma tempo depois. Eram muitos os pilotos a dizerem que isso não fazia qualquer sentido, e que alguma solução tinha que se encontrada. Numa prova em que a atenção do público e dos media estão completamente no auge, o Nacional de Ralis primava pela ausência. Não faz mesmo qualquer sentido.
Ainda assim, alguns dos pilotos do então CNR não perdiam a oportunidade de marcar presença no Rali de Portugal, pois no fim, o que fica para a história são os nomes que ficaram melhor classificados. Houve outros factos a assinalar, que não tendo sido triunfos, deixaram marcas na memória. Por exemplo, as prestações de António Rodrigues na primeira etapa de 1984 ou as vitórias de Rui Madeira em troços à geral.

O MELHOR DO MEU ‘CANTINHO’
Ser o melhor português no Rali de Portugal só em sete vezes significou também vencer o rali à geral. Isso sucedeu logo na 1ª Edição do Rallye Internacional TAP, em 1967, com Carpinteiro Albino e Silva Pereira (Renault 8 Gordini), dois anos depois com Francisco Romãozinho/’Jocames’ (Citroën DS Proto), a complicada edição de 1986, com Joaquim Moutinho/Edgar Fortes (Renault 5 Turbo), em 1996, quando a prova não contou para o Mundial de Ralis e simplesmente para a F2, por Rui Madeira/Nuno Rodrigues da Silva (Toyota Celica GT Four) e finalmente em três edições em que a prova foi essencialmente para consumo interno, em 2003, 2004 e 2006, as duas primeiras em Trás-os-Montes e a última já no Algarve, que culminou com uma fantástica exibição de Armindo Araújo e Miguel Ramalho, os tri vencedores. Nos dois primeiros anos em Citroën Saxo Kit Car, no último, num Mitsubishi Lancer Evo IV.
Em todas as restantes edições, os portugueses terminaram noutras posições da geral, que não o primeiro. Por exemplo, em 1968, António Peixinho foi ao pódio e a ele se seguiram Francisco Romãozinho e Carpinteiro Albino.
Em 1971, o melhor concorrente luso já só surgia em oitavo, Gomes Pereira, em Opel 1904 SR. O pódio voltou a sorrir em ano da estreia ‘Mundial’, 1973, com o ‘oficial’ Francisco Romãozinho, a colocar o DS 21 no pódio, o que só voltou a suceder em 1976, por MeQePê, que também levou o Opel Kadett à vitória no Grupo 1. Por lá perto ficou Carlos Torres, em 1982, quando foi quarto.
Com a crescente valorização do plantel do Mundial de Ralis, as classificações dos pilotos portugueses foram-se refletindo disso, mas ainda assim, em 1985, José Miguel Leite Faria (Ford Escort RS1800) ainda foi sexto classificado. Mas por exemplo, já em 1987, no primeiro ano dos Grupo A, Joaquim Santos (Ford Sierra RS Cosworth) foi ‘apenas’ nono. Depois disso, houve mais algumas classificações muito meritórias, como por exemplo 1989, quando Carlos Bica (Lancia Delta HF 4WD) foi sexto ou ainda mais no ano seguinte, em que pilotou um carro de treinos da Lancia, com Bica (Lancia Delta HF Integrale 16v) a ser quinto classificado.


Quatro anos depois, 1994, Fernando Peres (Ford Escort RS Cosworth) realizou uma portentosa exibição e foi também ele quinto classificado. No ano seguinte, Rui Madeira, em Mitsubishi Lancer, foi o melhor dos lusos, mas a isso juntou a vitória no Grupo N e esse facto, para além de ter contribuído para o seu triunfo na Taça FIA de Grupo N no final desse ano, tornou-o num nome que passou a ser visto com outros olhos.
Rui Madeira voltaria a ser o melhor português mais quatro vezes, em 96, 98, 99 e 2001. Em 1997, Adruzilo Lopes (Peugeot 306 Maxi) foi o melhor português, mas também Rui Madeira brilhou, com vários melhores tempos à geral. Em 2000, o triunfo foi para Adruzilo Lopes (Peugeot 206 WRC), mas o destaque foi também para Miguel Campos, que assegurou o seu segundo triunfo consecutivo no agrupamento, novamente com o Mitsubishi Carisma GT Evo VI.


Depois de 2001, o rali entrou na sua ‘fase nacional’: em 2006, Armindo Araújo bateu-se muito bem contra pilotos de grande valia com carros semelhantes. 2007 foi o ano da estreia do piloto de Santo Tirso com um Mitsubishi Lancer WRC, mas desistiu perto do fim, enquanto Rui Madeira foi desclassificado por irregularidades no turbo do Mitsubishi Lancer, algo a que foi completamente alheio. Um regresso agridoce!
Nesta altura, o ‘título’ de melhor português ainda tinha grande vigor, por exemplo, em 2009, Armindo Araújo deu em Portugal um grande passo rumo ao título no PWRC, em 2011, Bruno Magalhães (Peugeot 207 S2000) bateu os favoritos Armindo Araújo e Bernardo Sousa, em 2012, voltámos a ter um piloto português em ‘full time’ na alta roda do WRC, embora, como se sabia as coisas não tenha corrido bem. Ainda assim, Armindo Araújo foi o melhor português em 2012, mas daí para cá o ‘título’ perdeu força, pelas razões atrás mencionadas.
Com a chegada de uma nova regulamentação em 2017 no WRC, o fosso entre os melhores portugueses que correm de R5, é enorme e o que aconteceu no passado, por exemplo nos tempos do Grupo A não é possível repetir.
Em 2017, depois da prova portuguesa do WRC regressar ao Campeonato de Portugal de Ralis, o melhor português nesse ano foi Miguel Campos, que terminou no 16º lugar, em 2018, Armindo Araújo (Hyundai i20 R5) venceu a prova do CPR, foi 14º da geral e em 2019, voltou a ser Armindo Araújo (Hyundai i20 R5) a vencer, desta feita terminando no 16º lugar. Seja como for, continua a ser um resultado muito importante para qualquer palmarés, ser o melhor português no Rali de Portugal.

Portugueses que venceram o Rali de Portugal à geral
1967 Carpinteiro Albino – Silva Pereira Renault 8 Gordini
1969 Francisco Romãozinho – ‘Jocames’ Citroën Ds Proto
1986 Joaquim Moutinho – Edgar Fortes Renault 5 Turbo
1996 Rui Madeira – Nuno R. Silva Toyota Celica Gt Four
2003 Armindo Araújo – Miguel Ramalho Citroën Saxo Kit Car
2004 Armindo Araújo – Miguel Ramalho Citroën Saxo Kit Car
2006 Armindo Araújo – Miguel Ramalho Mitsubishi Lancer Evo Iv

Palmarés (Melhor Português)
Armindo Araújo 9 – 2003, 2004, 2005, 2006, 2009, 2010, 2012, 2018, 2019
Rui Madeira 5 – 1995, 1996, 1998, 1999, 2001
Carlos Torres 4 – 1978, 1979, 1980, 1982
Francisco Romãozinho 3 – 1969, 1973, 1974
Joaquim Santos 3 – 1983, 1987, 1992
Carlos Bica 3 – 1989, 1990, 1991
Bruno Magalhães 3 – 2007, 2008, 2011
Miguel Campos 2 – 2002, 2015, 2016
Meqepê 2 – 1976, 1977
Adruzilo Lopes 2 – 1997, 2000
Carpinteiro Albino 1 – 1967
António Peixinho 1 – 1968
José Lampreia 1 – 1970
Gomes Pereira 1 – 1971
Giovanni Salvi 1 – 1972
Pedro Cortez 1 – 1975
Peqepê 1 – 1981
Jorge Ortigão 1 – 1984
José Miguel 1 – 1985
Joaquim Moutinho 1 1986
Inverno Amaral 1 1988
Jorge Bica 1 – 1993
Fernando Peres 1 – 1994
Miguel J. Barbosa 1 – 2013
Bernardo Sousa 1 – 2014
Pedro Meireles 1 – 2017