Nuno Jorge (CAMG): “É um momento muito triste, mas nada comparado com o que aquela família está a sofrer”

Por a 14 Outubro 2020 11:30

Nuno Jorge, Presidente do Clube Automóvel da Marinha Grande e a equipa que dirige esforçaram-se muito para oferecer aos adeptos, em tempos de pandemia, uma prova que pudessem seguir de casa, com Live Stream e entrevistas em direto do Parque de Assistência e com convidados em estúdio. Mas a sorte não quis nada com eles e caiu-lhes em cima uma enorme tragédia, com a morte duma jovem na flor da idade. Falámos com um Nuno Jorge muito emotivo, mas que deu o peito às balas. Naturalmente triste, mas de consciência tranquila: “Confesso que falar deste assunto neste momento é complicado nesta altura, o único conforto que temos aqui e estou a falar do CAMG e de toda a sua direção, Comissão Desportiva e a parte que está a organizar, é o facto de termos a consciência de ter feito tudo bem feito. Chegámos no mínimo tempo possível para conseguir salvar, o embate foi muito forte, nitidamente, e penso que não foi imediato foi muito próximo do imediato. Não se conseguiu reanimar, chegaram a lá estar quatro equipas médicas, chegou a lá estar o helicóptero para a levar, a VMER, tudo, mas não se conseguiu. E custa muito” começou por dizer, explicando depois os momento difíceis que culminaram com o cancelamento da prova: “Obviamente que quando acontece uma coisa destas é a primeira coisa que pomos em cima da mesa. Mas também não quisemos tomar uma decisão errada. Foi tudo ponderado, falei com todos os agentes envolvidos, desde Proteção Civil, GNR, CODIS, o Colégio de Comissários, fui ter com os pilotos. Estávamos a fazer um Live Streaming em direto, em que investimos muito, foi uma coisa bem feita e estava a correr bem, mas tudo isso deixou de ter importância, e tudo acabou por ir por água abaixo da pior maneira, e custa muito. Depois de ter falado com essas pessoas todas, a decisão só podia ser esta. Esta é uma decisão com a qual estamos confortáveis, é o mínimo que podíamos fazer. E devo salientar o seguinte. Eu quando falei com os pilotos, à entrada da especial 4, eu tive o cuidado de lhes pedir para irem em fila como forma de homenagear, sei lá, homenagear qualquer coisa, chamemos-lhe o que quisermos. Via-se da cara deles que iam sentidos”, disse.

Ouvimos muita gente no Parque de Assistência, e uma das críticas que mais se ouvem é a excessiva rapidez dos troços: “Estou de consciência tranquila. Temos troços rápidos, aquela zona não estava sequer referenciada como perigosa, para nós. A zona que tínhamos referenciado como perigosa, tínhamos quatro câmaras a vigiá-las, e aí sim, estávamos com algum receio dessa parte mais rápida. Agora isto não teve nada a ver com a rapidez dos troços.

Se quiserem colocar a questão por aí, podem colocar, mas não tem nada a ver. É um momento muito triste e logo no ano em que fazemos 50, ainda custa mais, mas isso não é nada comparado com o que aquela família está a sofrer. Por isso não estamos bem. Eles não estão. Daqui a uns dia nós estamos, quase bem. Mas eles não estão…”

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4 comentários

  1. RCN

    14 Outubro, 2020 at 13:46

    Relativamente ao acidente, abstenho-me de contribuir para a dissertação pública se teve alguma coisa que ver com a velocidade a que se desenrolou esta prova. O acidente do Carlos Fernandes, piloto experiente no panorama nacional, precisamente no mesmo local sugere alguma perigosidade daquela seção (mais que não seja pela forma como o carro ficou). Contudo, seria relevante saber-se o que o CAMG alterou desde o acidente do Carlos Vieira em 2018 de forma a tornar a prova mais segura bem como quais os impactos do acidente desta edição nos próximos anos. A velocidade não tem de implicar necessariamente maior perigo mas não deixa de ser curioso os dois acidentes mais graves dos últimos anos ocorrerem nesta prova, uma das mais rápidas do CPR.

    Por um lado, tal como já tive oportunidade de comentar neste site aquando da crónica após a realização do Rally Alto Tâmega, as médias que vamos observando nos rallys de asfalto em Portugal não fazem sentido. Pela primeira vez, pelo menos nos últimos 10 anos, o CAMG decidiu introduzir a classificativa de Campos do Lis. Este troço foi disputado a uma velocidade média de 125,6 km/h, um valor inclusivamente superior aos 124,2 km/h observados em São Pedro de Moel, e muito superior aos 103,0 km/h e 113,3 km/h registados o ano passado nas passagens mais rápidas por Mata Mourisca e Assanha da Paz, respetivamente. Ou seja, este ano percebeu-se que a (já excessiva) velocidade média dos troços não é alvo de reflexão pelo CAMG tendo sido inclusivamente introduzida uma especial mais rápida que as disputadas no ano passado.

    Mais, se compararmos estes valores com os observados em contexto europeu rapidamente percebermos que os troços do Vidreiro estão completamente desajustados face ao que se faz além-fronteiras (mesmo em provas realizadas já em pleno contexto pandémico). Abaixo, está identificado o top-3 de velocidades médias mais elevadas por troço (caso o mesmo troço se desmultiplique em várias passagens, foi apenas considerado o valor da passagem mais rápida, sendo os valores aplicáveis para veículos R5 salvo se indicado o contrário):

    Portugal:

    • Rally Vidreiro (2020): 127,3 / 125,6 / 124,2
    • Rally Vidreiro (2019): 122,9 / 113,3 / 103,0
    • Rally Vidreiro (2018): 118,7 / 110,4 / 100,2

    Espanha:

    • Rally Ferrol (ago. 2020): 109,2 / 106,8 / 99,1
    • Rally Ourense (jul 2020): 109,1 / 104,6 / 95,6
    • Rally Canarias (2019): 110,2 / 99,0 / 96,7
    • Rally Comunidad Madrid (2019): 122,8 / 117,3 / 103,6
    • Rally Sierra Morena (2019): 102,4 / 99,0 / 96,5 
    • Rally RACC (2019, WRC, apenas troços asfalto): 119,9 / 117,3 / 114,8

    França:

    • Rallye Le Touquet – Pas-de-Calais (mar. 2020): 128,4 / 121,8 / 116,5
    • Rallye Mont-Blanc Morzine (set. 2020): 120,7 / 108,3 / 106,1
    • Córsega (2019, WRC): 121,1 / 117,2 / 109,3

    Itália:

    • Rally di Roma Capitale 2020 (jul.2020): 109,3 / 106,3 / 100,7
    • Rally Il Ciocco e Valle del Serchio (ago.2020): 87,6 / 83,2 / 83,1
    • Targa Florio – Rally Internazionale di Sicilia 2020 (set.2020): 113,1 / 106,2 / 105,8

     

    Alemanha:

    • ADAC Rallye Deutschland (2019, WRC): 123,7 / 117,4 / 109,9

     

    Bélgica:

    • Rally van Haspengouw (fev. 2020): 115,9 / 113,4 / 109,6
    • Aarova Rally Oudenaarde 2020 (out. 2020, WRC): 100,1 / 95,8 / 94,5 /
    • Ypres Rally (2019): 124,1 / 118,4 / 118,1

    Através destes números percebemos que não se anda em nenhum lado da Europa tão rápido como se andou este ano no Vidreiro (!) nem em rallys com WRCs (!!). Para além disso, a velocidade média dos troços em 2020 aumentou de forma significativa ao observado em edições transatas (onde já tinha existido um acidente muito grave). Convém relembrar que, apesar de não existirem diretivas oficiais, a FIA considerou em 2017 a possibilidade de vir a limitar a velocidade média dos troços a 80 mph (128 km/h) para WRCs, carros bem mais performantes que os R5 que alinharam no Vidreiro, apesar da velocidade ser bastante semelhante à que se verificou este ano.

    Por outro lado, o CAMG é a mesma organização que este ano mostrou uma preocupação completamente injustificada com o acesso do público às especiais. Numa altura em que é essencial dispersar o público ao longo dos troços e aumentar o número de sítios onde ver a prova custa-me a acreditar nas razões que levaram às medidas que vi no terreno. Estrada Atlântica (sentido Praia da Vieira – S. Pedro de Moel) cortada 3,5 km antes da interseção com troço de São Pedro do Moel o que levou a uma concentração perfeitamente dispensável de pessoas no local para público mais próximo. Outro exemplo, corte na interseção do Aceiro S com o Arrife 11 na Mata Real, sendo apresentada a possibilidade de se caminhar ao longo de 3kms (para cada sentido) para ver os troços de Pinhal de Rei e S. Pedro de Moel. Destaco que 3 kms a caminhar são cerca de 30 minutos (!!), algo que nos mais de 20 anos que levo a ver provas não me recordo de ver em algum evento do CPR, quanto mais num sem WRCs e com menos espetadores devido ao atual contexto pandémico. Reforço que este acesso de 3 kms não era sequer percorrido pelos concorrentes em ligação. Mais, mesmo após ter perguntado por diversas vezes e diversos canais (redes sociais e e-mail) o CAMG foi incapaz de me dizer se este acesso em particular estaria fechado à circulação ou não, mostrando uma desconsideração imensa com o público que (ainda) se vai deslocando às provas e uma disparidade inexplicável com as boas práticas que se observam no CPTT em igual estado de contingência.

    Fica complicado não fazer juízos de valor a uma organização que parece nada fazer em relação às velocidades médias (ridículas na minha opinião) que se observam e que mostrou a atitude com o público que mostrou (ainda mais ridículo).

    Tal como afirmei anteriormente, a presente subexploração do produto rally em Portugal preocupa-me. Mais uma vez, se não existem condições para fazer as provas com a qualidade e condições que TODOS os intervenientes merecem não as façam. Afinal de contas, ao contrário das próprias organizações e federação que vão criando e permitindo estes espetáculos deprimentes, mais ninguém vive dos rallys em Portugal.

    • Mário Oliveira

      14 Outubro, 2020 at 22:20

      Acho que a FIA anda a dormir há muito tempo relativamente às velocidades que se atingem nos ralis. A atual geração de WRC é muito interessante mas os carros têm de estar menos agarrados ao chão. Hoje em dia os ralis de asfalto são praticamente como uma prova de turismos, com a diferença de não se correr em circuito e de normalmente não haver escapatória digna desse nome.
      A segurança dos carros é hoje muito elevada, mas em situações como a que infelizmente tivemos no Vidreiro não há milagres e as desgraças acontecem. Já estivemos perto de um final triste no caso do Carlos Vieira no Rali Vidreiro e do Kris Meeke no Rali de Portugal. Deve-se ter noção que a continuar assim vai acabar por se perder vidas, mesmo no WRC. Não percebo como é que a FIA não vê nada quando isto é óbvio.
      Bons ralis.

  2. Vasco Morgado

    15 Outubro, 2020 at 16:01

    Boa tarde,

    Concordando com praticamente tudo o que o forista RCN escreveu, o que mais saliento da sua exposição foi o rigor, a coerência e os dados concretos em que baseou a sua argumentação, factores de enaltecer e que escasseiam cada vez mais neste forúm.

  3. Marco Silva

    16 Outubro, 2020 at 5:38

    Boas. Assisti a umas imagens que foram tiradas no segundo do acidente muito relevantes, apesar da velocidade, do tipo de asfalto e outros factores e se virem bem as imagens da retaguarda do peugeot de Miquel Sócias, podem ver que o rollbar foi arrastado com o chassis, e pelas imagens que vi, questiono-me se um rollbar devia de esticar um cinto de segurança até esmagar o peito de um tripulante de uma viatura. Isso deixa algumas dúvidas relativamente à normas de segurança de alguns veículos de competição com falhas no que toca à protecção da vidas dos seus tripulantes.
    Faço uma pequena ideia do que a família esteja a sofrer, o próprio piloto em si também não deve estar melhor psicologicamente.
    A organização teve uma atitude louvável num dia negro para o automobilismo internacional. Parabéns CAMG pela vossa humanidade e racionalidade para com esta tragédia.

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