MEMÓRIA: Quando Joaquim Santos voltou a pilotar o Ford Escort RS 1800 Diabolique

Por a 1 Junho 2024 10:00

Por Filipe Pinto Mesquita e Jorge Rodrigues

Já foi há duas décadas, mas nunca é demais servir um ‘kit de mãos’ de Joaquim Santos a que se junta um Ford Escort RS 1800 carregado de história e uns bytes de memória nostálgica chamada Diabolique Motorsport. Bom apetite…

Entre as muitas matrículas dos carros que na década de 80 ajudaram a mistificar o Campeonato Nacional de Ralis, há uma que sobressai. IZ-98-28 é tão só o número de registo do Ford Escort RS 1800 que permitiu a Joaquim Santos e Miguel Oliveira conquistarem o primeiro dos seus três títulos nos anos dourados da equipa Diabolique Motorsport.

E se isso já seria um pretexto mais do que suficiente para, mais de duas décadas depois, pedir ao piloto que tentasse apanhar novamente a mão ao mítico Escort de Grupo 4! Antes mesmo de regressar ao seu “palco” de eleição e participar como carro “0” na prova dos Clássicos do Rali Nordeste Transmontano, o piloto de Penafiel aceitou o desafio e voltou a colocar o capacete para sentir as emoções de guiar um carro que, dizem os entendidos, “ensina a guiar”…

Mas a verdade é que a história do IZ-98-28 começa quando a equipa oficial da Ford, patrocinada pela Rothmans, registou o carro, a 30 de Abril de 1977. Desde aí (e embora não seja fácil comprová-lo), é quase certo que o Escort RS 1800 com o chassis número 59 de Terry Howle e assistido por David Sutton passou pelas mãos de Hannu Mikkola, Bjorn Waldegaard e Ari Vatanen, antes de chegar “ensinado” às mãos também sábias de Joaquim Santos, ainda hoje o detentor de recordes de vitórias em ralis nacionais (46) na frente de Fernando Peres (34), Adruzilo Lopes (25), Bruno Magalhães (25) eArmindo Araújo (24). Daí até ao final da primeira fase da vida deste Escort, os segundos consumiram-se num ápice, como num ápice o cronómetro registou 107 vitórias em troços para “Quim” Santos que se materializaram em sete triunfos nos 13 ralis que compunham o Campeonato Nacional de Ralis em 1982. Números impressionantes que esfumaram em cinza as esperanças de renovação do título do então Campeão Nacional de Ralis, Santinho Mendes, ou que, por exemplo, tiraram a coroa de Sintra ao invencível Mário Silva!

Vivo para sempre!

E é por todas estas razões, e mais algumas, que não havia motivos para que este RS 1800, com um legado de história e de sucessos em Portugal difícil de igualar, ficasse mais tempo fora do seu “habitat” natural, isto é, das florestais portuguesas. Se assim o pensou, Eduardo Gomes, o seu proprietário da altura, melhor o fez, entregando a sua peça de coleção a Luís Montinho, que durante quatro anos, num trabalho artesanal de desmontagem e montagem de cada peça, acabou por reconstruir o mítico carro, devolvendo-lhe todos os seus genes de competição.

O motor de dois litros que debitava então 265 cavalos-vapor, não ultrapassa agora os 245 em virtude da alimentação passar a ser feita por dois carburadores Weber que substituíram a injecção original.

Na prática, tanto Joaquim Santos como Eduardo Gomes concordam que «nesta versão de asfalto, a entrega da potência é feita de forma muito mais suave e logo a partir de regimes menos elevados, o que facilita sobremaneira a condução ». Mas, em tudo o resto, o Escort que nos anos 80 era assistido nas oficinas da Diabolique Motorsport, no Porto (numa equipa liderada por Luís Dias), mas sempre em contacto com David Sutton, apresentava-se totalmente original, desde as suspensões Bilstein, até às jantes douradas de 13 polegadas. A única expeção encontra-se nas bacquets que passaram a ser umas modernas Sparco por uma questão de comodidade e de reforço da segurança, mas também no volante que é agora um mais moderno RS. Mas, como se pode imaginar, esses são apenas dois ínfimos pormenores, para quem pode respirar este Escort RS 1800 no seu estado mais puro… O resto é saudade!

Joaquim Santos

«Um grande emoção»

Pela primeira vez em 20 anos (2005), Joaquim Santos regressou à estrada ao volante de uma das mais históricas máquinas da Diabolique Motorsport: o Escort RS 1800. Um carro com que venceu nada menos do que oito provas na temporada de 82 (ainda hoje um recorde), conquistando o seu primeiro de quatro títulos nacionais. Nesta viagem no tempo, obviamente que as recordações são ainda muitas… «Mas um dos momentos que melhor recordo aconteceu no Rali Dão Lafões, quando estava a tentar atacar a liderança do Santinho Mendes e fomos surpreendidos por um problema de caixa.

À entrada para a última classificativa, pedi à equipa para substituir a caixa avariada. Ao mesmo tempo, arrisquei em colocar pneus mais finos… e também mais sujeitos a furos. Lembro-me que fui para a estrada decidido a arriscar tudo e que no final ganhámos a prova com quase dois minutos de vantagem…». Por tudo isto, «é enorme a emoção que sinto hoje em regressar aos comandos deste carro. Aliás, mais do que recordar velhas as histórias, será talvez interessante analisar como mudaram os ralis em duas décadas. Atualmente, as pessoas já não se divertem a ver os carros passar na estrada, simplesmente porque é impossível aos pilotos serem espectaculares, tantas são as ajudas electrónicas disponibilizadas pelos atuais carros de competição. Perdoem-me a vaidade, mas sou ainda do tempo em que eram os pilotos que faziam a diferença; do tempo em que os carros não tinham ainda direcção assistida e se guiava à custa do braço e do pedal do acelerador», desabafa.

O Ford Diabolique mantém rigor histórico apreciável, onde se destacam as originais jantes douradas e as suspensões Bilstein; apenas as bacquets são umas modernas e mais confortáveis Sparco

Palmarés do IZ-98-28

(Com Joaquim Santos/Miguel Oliveira)

Rali James Póvoa de Varzim 1982 – 3º (venceu 6 dos 18 troços de asfalto)

Rali das Camélias 1982 – 1º (venceu 10 dos 16 troços de asfalto)

Rali da Figueira da Foz 1982 – 1º (venceu 11 dos 13 troços de terra e asfalto)

Rali Dão-Lafões 1982 – 1º (venceu 4 dos 10 troços de terra)

Rali Rota do Sol 1982 – 1º (venceu 14 dos 19 troços de asfalto)

Volta Galp a Portugal 1982 – 2º (venceu 9 dos 24 troços de terra)

Rali de S. Miguel 1982 – 1º (venceu 14 dos 20 troços de terra)

Rali Vinho Madeira 1982 – 4º (venceu 1 dos 31 troços de asfalto)

Rali Douro-Sul 1982 – 1º (venceu 9 dos 13 troços de terra)

Rali Serra da Estrela 1982 – 1º (venceu 5 dos 6 troços de terra)

Rali Urbibel-Algarve 1982 – 1º (venceu 21 dos 30 troços de terra e asfalto)

Rali Sopete – Póvoa de Varzim 1983 – Desistência por perca de uma roda (venceu 3 dos 16 troços de asfalto)

(Com João Luís Rodrigues/Miguel Jardim)

Rali Vinho Madeira 1983 – 8º (melhor madeirense)

CARACTERÍSTICAS

Motor 4 cilindros em linha, tipo BDA, 2 árvores de cames, 16 válvulas

Cilindrada (c.c.) 1993

Potência Máx. (cv/rpm) 255/8500

Binário Máx. (Nm/rpm) 238/6000

Alimentação 2 carburadores Weber 48 DCOE

Transmissão Tracção traseira, com caixa ZF de 5 velocidades e autoblocante (60%)

Suspensão Bilstein regulável; McPherson à frente e eixo rígido atrás com molas

semi-elípticas, paralelograma de Watt e 4 braços.

Travagem Discos ventilados à frente e discos maciços atrás

Comp./Larg./Alt. (mm) -/-/-

Peso (kg) 1040

Velocidade máxima (km/h) 200 (dependendo do “rapport”)

Aceleração 0-100 km/h(s) 5 (dependendo do “rapport”)

Consumo médio (1/100) (l/100 km) 60

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paulo.anastacio
paulo.anastacio
3 meses atrás

O carro ainda é do Eduardo Gomes? E já está pronto?

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