Entrevista a José Pedro Fontes, Lancia, legado e luta de gerações: o seu novo capítulo no CPR
Durante mais de uma década, o nome de José Pedro Fontes confundiu-se com o da Citroën nos ralis portugueses: 11 anos de ligação, dois títulos absolutos no Campeonato de Portugal de Ralis e uma coleção de momentos que o fixaram como uma das referências da era moderna da modalidade.
Agora, chega a vez de virar a página sem mudar de casa-mãe: dentro do universo Stellantis, Fontes abraça o desafio Lancia, estreia o novo Ypsilon Rally2 HF Integrale em Portugal e entra num capítulo que mistura tecnologia de última geração, peso da história e um evidente tom de passagem de testemunho familiar.

Ao longo desta entrevista, o piloto e gestor da Sports & You explica como é passar de um Rally2 ‘veterano’ para um carro totalmente novo, o que sentiu nos primeiros quilómetros. Esclarece também um dos temas mais falados nos bastidores: não, o Ypsilon Rally2 não é “um C3 mascarado”.
Fontes fala ainda do “peso da História” de guiar um Lancia com o emblema HF Integrale na grelha, recorda o miúdo que sonhava com um Delta e explica porque é que compara a Lancia nos ralis à Ferrari na Fórmula 1. Entre memórias de Carlos Bica, referências a figuras que marcaram a sua carreira e o orgulho de partilhar agora a marca com o filho Francisco, o piloto assume-se mais motivado do que nunca para entrar numa época que antevê como uma autêntica luta de gerações no CPR – e na qual, garante, ainda se sente em forma para lutar por títulos, mesmo com o relógio e a gestão da Sports & You a apertarem cada vez mais.
“Para mim, guiar um Lancia é como para um piloto de F1 guiar para a Ferrari”
AutoSport: Zé Pedro, 11 anos com a Citroen, dois títulos no CPR, agora outro capítulo, como vai ser?
José Pedro Fontes: “É outro capítulo no mesmo grupo. É um orgulho grande porque é sinal que a parceria tem sido ‘win-win’ para ambas as partes. É um desafio novo, um carro novo. Nós andamos nos últimos anos a discutir o campeonato com o Rally2 mais antigo. Portanto, temos agora um carro completamente novo, que acreditamos possa ser um bocadinho melhor. Por outro lado, vai ser um campeonato diferente do que foram os últimos campeonatos. Na minha opinião, vai ser uma luta de gerações, o que é ótimo, fico muito feliz com isso.
E portanto, nós vamos tentar encarar este campeonato com a máxima ambição e profissionalismo, para tentarmos vencer novamente o campeonato.”

AS: Já testaste o Lancia, que feeling que tiveste do carro antes do Rali Serra da Cabreira?
JPF: “Fiz um teste muito pequeno em asfalto. Antes do carro ir para Espanha, numa estrada que nunca tinha andado de Rally2. Fiz um roll-out do carro cerca de 10 quilómetros esta quarta-feira passada em Baltar. É difícil dizer.
O carro tem como base muitas coisas do C3, mas não é um C3. Em termos de chassis é bastante diferente.
Este fim de semana em Vieira do Minho estamos a perceber o carro, fazer as alterações que se podem fazer no carro e a ganhar ritmo competitivo. No final do rali já terei uma ideia mais clara, mas como é lógico, neste momento é muito cedo para dizer muito mais…”
AS: O que sentiste quando deste a primeira volta com o carro? Foi um “uau” ou um “temos muito trabalho pela frente”?
JPF: “O primeiro primeiro feedback que o carro dá, a primeira impressão é bastante positiva. Mas como sabes, ando há demasiado tempo nas corridas para saber que o verdadeiro teste são os tempos. O feeling é uma coisa, mas a realidade é o cronómetro. Portanto, vamos esperar e vamos ver se o feeling se traduz no cronómetro…”

AS: A Lancia tem testado muito, sentes ter carro para lutares pelo terceiro título?
JPF: “Eu acredito que sim…”
AS: Sabemos que o Lancia Ypsilon não é uma evolução direta do C3, é um conceito totalmente novo, mas há muita gente que continua a achar que é uma carroçaria Lancia em cima do ‘antigo’ C3, queres elucidar melhor essas pessoas?
JPF: Sim! Infelizmente há muita desinformação, e muitas pessoas que acham que sabem mais do que verdadeiramente sabem. O que eu posso dizer é que o carro foi feito dentro da estratégia que o grupo Stellantis, nomeadamente o que a Citroën fez que os carros que foram Campeões do Mundo, que nunca foi uma revolução total do Xsara para o C4, passaram muitos componentes, do C4 para o DS3, passaram muitos componentes e, portanto, o que se tenta fazer aqui que é o que é bom passar, e evoluir um bocadinho, e o que é menos bom tentar resolver e melhorar.
Como sabem, o motor do Citroën é considerado por muitos um dos melhores, portanto, se já sabemos isso, para que é que vamos inventar? A caixa de velocidades é de uma marca que as outras marcas também utilizam e, portanto, tem soluções diferentes.
E tudo isso leva-nos depois a ter um comportamento diferente nos diferenciais, e a base do carro é o outro chassis.
A maior vantagem disso é que esse chassis é muito mais leve, e permite-nos jogar com os pesos do carro, a repartição de pesos do carro, e isso é fundamental num carro de corridas.
Portanto, eu quando guiei o carro, digamos que ‘reconheci’ o motor. O motor é de facto na linha do que eu estou habituado, mas em termos de comportamento percebi logo que o carro era totalmente diferente.
Em Espanha o Diego Ruiloba teve o mesmo feeling.
Penso que por ser tão diferente, no que respeita às afinações que nós estamos habituados, vamos ter que mudar.
Portanto, não é um C3, é a continuidade de um trabalho de um grupo que é o que tem mais vitórias no Campeonato do Mundo de Ralis, é o grupo com mais vitórias, portanto, mantiveram a mesma estratégia…”

AS: Assim à primeira vista, o que mais gostaste no carro?
JPF: “O motor! Continuo a gostar. Eu já gostava do outro, e acho que este é ainda melhor. Em terra rodei, de facto, muito pouco. No asfalto, gostei bastante do trem inteiro, que era algo com que eu sofria, principalmente com o meu estilo de condução, no C3. E o Lancia parece-me que foi um grande passo em frente, e isso deve-se em grande parte também pela repartição que conseguem fazer do carro agora, em termos de pesos”.
AS: Falemos do Peso da História: pilotar um carro que ostenta o logotipo HF Integrale deve meter algum respeito. Sentes algo especial?
JPF: “Sinto! Sinto! Quando eu era miúdo e fiz 18 anos, o meu carro de sonho era um Lancia Delta Integrale. Na altura, não pude ter. Seguia a Lancia nos ralis como todos os apaixonados. Eu acho que a Lancia para os ralis é como a Ferrari para a Fórmula 1. E portanto, ter o privilégio de ter na porta do carro os títulos todos que a marca tem, ser apoiado pelo grupo – ainda mais com a motivação acrescida de eles quererem que fosse eu a estrear o carro em Portugal, de termos recebido a quarta unidade que eles entregaram, a seguir aos dois carros que estão no Mundial de Ralis, e ao carro de Itália, por razões óbvias. Logo a seguir a quarta unidade foi entregue ao projeto em Portugal, porque este carro, era como sabem, para ser estreado em março no Rali Vidreiro.
Acho que isso diz tudo da relação que nós temos com a Stellantis e do peso deste projeto.
E para mim, guiar um Lancia é muito especial. Eu acho que é como para um piloto de Fórmula 1 guiar para a Ferrari. Portanto, claro que sim. Tenho essa emoção, essa paixão.
Eu sou, como tu sabem, um apaixonado pelas corridas desde miúdo, as corridas para mim são a minha grande paixão, é a minha vida, e sou um apaixonado de verdade, e portanto a Lancia e o Integrale é algo que para muitas pessoas não passa despercebido, para uma pessoa como eu, ainda por cima, quando na família, tanto estivemos ligados a carros italianos, não escondo que é algo que que me orgulha e que me motiva muito.
Além do mais, a vida. O tempo está a passar e a descontar. E poder fazer este projeto Lancia com o meu filho, também no mesmo ano, na mesma marca, e tudo isso, acho que é uma coisa fantástica e que seja um grande ano para todos, que seja o início de carreira de grandes campeões a aparecerem e que nós estejamos ao nível de tudo o que a Lancia representa…”
AS: Sim, estás numa fase a correr nas mesmas provas com o Francisco, numa espécie de passagem de testemunho e qualquer dia entregas-lhe a chave e pronto. Ele dará continuidade…
JPF: “É o plano. É esse o plano…”
AS: Sabemos o que o Carlos Bica representou para a história da Lancia em Portugal, com os seus quatro títulos – e outro do Jorge Bica – acima de tudo, o que o Carlos representa para ti como amigo. Ver-te agora abraçar este projeto com um Lancia, o que é que achas que este momento significa para a vossa amizade?
JPF: “O Carlos Bica foi uma pessoa muito importante no início da minha carreira, e que se tornou um grande amigo e que me ajudou muito quando eu estava na Fiat. A família Bica está muito ligada a esta marca e eu tenho a sorte nos últimos anos de poder ter guiado marcas que me dizem muito, que tinham pessoas que eram referências para mim e que foram importantes e marcantes na minha carreira. Na Renault foi o Joaquim Moutinho e o Zé Carlos Macedo.
Na Citroën, o meu pai (NDR, Rufino Fontes) e agora na Lancia o Carlos Bica.
O Carlos acolheu-me na altura do projeto Fiat, quase como como filho, e até agora criamos uma relação de muita cumplicidade. Depois andei com o Fanã, que foi quem ganhou os campeonatos todos com o Carlos na Lancia.
Sei de todas as histórias do Lancia 037, do Delta de grupo A, do 8 válvulas, do 16 válvulas, do Deltona, essas coisas todas, e portanto para mim é fantástico poder ser eu a fazer isto. É mesmo muito importante para mim…”
AS: Sentimos que este ano estamos a ver um Zé Pedro Fontes ainda mais focado e mais motivado…
JPF: “Vai ser giro, eu acho que vai ser muito interessante! Acho nestes últimos anos, objetivamente, todos nós, os portugueses, sendo realista e de bom senso, arrancavamos a saber que poderíamos ganhar se os outros, os estrangeiros, desistissem ou tivessem problemas, mas agora vai haver esta luta de gerações, e da minha parte, como te digo, o tempo está a descontar.
Felizmente as coisas na Sports & You correm cada vez melhor, mas por outro lado cada vez é mais difícil para mim gerir a empresa e as corridas, os ralis, e o tempo que tenho. Mas eu acho que ainda estou em forma para poder ter a motivação e a esperança de poder lutar pelo campeonato, vou lutar para isso…”
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José Sousa
28 Março, 2026 at 12:09
É bem verdade que o ditado diz “o abito faz o monge” mas neste caso, muito sinceramente, o “monge” está muito longe da realidade de uma equipa de ralis da FIAT, sim porque a Lancia era da Fiat, falta-lhe a essência, não é uma equipa ITALIANA é uma equipa Francesa que usa o nome, imagem e histórico da LANCIA para se promover…enfim sinal dos tempos