CPR: Seis anos de Rali Terras d’Aboboreira (2020-2025)
O Rali Terras d’Aboboreira afirmou-se, nos últimos seis anos, como uma das provas mais estratégicas e tecnicamente exigentes do panorama automobilístico nacional.
Depois de ter entrado no CPR em 2018 com Rali Amarante/Baião e se ter disputado em asfalto até 2019, o Rali Terras d’Aboboreira, entre 2020 e 2025, serviu não só como palco de excelência para o Campeonato de Portugal de Ralis (CPR), mas também como o “laboratório” predileto das equipas do Mundial de Ralis (WRC2) para preparar o Rali de Portugal. O histórico recente revela uma tendência clara: a hegemonia de pilotos internacionais de elite, contrastada com a luta resiliente dos melhores valores nacionais.

A era Meeke e a invasão mundialista (2023-2025)
Os últimos três anos ficaram marcados pela “ditadura” desportiva de Kris Meeke. O piloto norte-irlandês venceu as edições de 2023, 2024 e 2025, demonstrando uma superioridade técnica que redefiniu as expectativas da prova. Em 2025, já ao volante de um Toyota GR Yaris Rally2, Meeke selou o seu terceiro triunfo consecutivo sob condições de chuva intensa em Amarante, batendo figuras de renome como Dani Sordo.
A presença de pilotos do WRC2 tem sido uma constante, elevando o ritmo competitivo para patamares que os concorrentes lusos admitem ser quase inalcançáveis. Como refere a análise técnica da prova, “não há forma alguma dos concorrentes lusos terem hipóteses de chegar perto do ritmo dos ‘mundialistas'”, devido à diferença abismal em termos de quilometragem de testes e orçamentos.

Retrospectiva passo a passo: 6 anos de emoções
A análise telegráfica das edições anteriores permite traçar o perfil de uma prova que castiga o erro e premeia a consistência:
2020: Armindo Araújo venceu e assumiu a liderança do campeonato num ano marcado pela pandemia. A prova ficou na memória pela estreia de Adrien Fourmaux em solo nacional e pela revelação de Miguel Correia, que obteve aqui o seu primeiro pódio no CPR.
2021: Vitória do norueguês Ole Christian Veiby (Hyundai), após um duelo intenso com Pepe López. Nas contas do CPR, Ricardo Teodósio levou a melhor sobre Armindo Araújo.
2022: Um ano histórico com a primeira vitória da carreira de Miguel Correia. O jovem piloto bateu Armindo Araújo “no braço” na Power Stage, após um furo ter condicionado o veterano de Santo Tirso.
2023: O início do domínio de Kris Meeke. Uma vitória emocional dedicada ao falecido Craig Breen. Armindo Araújo foi o melhor português, terminando em quarto da geral.
2024: Meeke voltou a vencer e a convencer, batendo a armada mundialista (como Yohan Rossel e Pierre-Louis Loubet). Armindo Araújo consolidou o estatuto de “eterno segundo”, sendo o único capaz de manter o líder à vista.
2025: Sob chuva e lama, Meeke completou o “tri”, isolando-se no comando do CPR. Dani Sordo foi segundo e Armindo Araújo fechou o pódio, batendo vários nomes do WRC2.

Rali Terras d’Aboboreira: o detalhe das últimas seis edições
2020: Araújo virou o campeonato
Armindo Araújo e Luís Ramalho venceram a edição de 2020, bateram Ricardo Teodósio e José Teixeira por 32,4 segundos e saíram da Aboboreira como novos líderes do campeonato, numa prova que alterou o equilíbrio da luta pelo título. Miguel Correia, então ainda em fase de afirmação, assinou o primeiro pódio absoluto no CPR, enquanto Adrien Fourmaux mostrou andamento de vencedor, mas uma penalização afastou-o do triunfo.
O rali ficou marcado pela diferença feita nos troços mais longos, sobretudo em Amarante, onde Araújo construiu a superioridade que lhe permitiu controlar o fim de prova. Também ficou exposta a dificuldade do Hyundai i20 R5 de Bruno Magalhães em pisos onde a tração era determinante, um dado técnico que ajudou a explicar o quarto lugar do então líder do campeonato.
2021: Teodósio regressou nas contas nacionais
Ole Christian Veiby venceu à geral em 2021, com 2,8 segundos de vantagem sobre Pepe López, mas nas contas do CPR os melhores foram Ricardo Teodósio e José Teixeira, que bateram Armindo Araújo e Luís Ramalho por 8,3 segundos. Miguel Correia voltou a terminar no pódio nacional, confirmando a consistência crescente numa prova que abriu o campeonato com sinais de grande equilíbrio.
A edição voltou a cruzar a realidade portuguesa com pilotos estrangeiros em preparação para o Rali de Portugal, mas teve também vários episódios de azar, entre eles o abandono de Pedro Antunes na derradeira especial e o incêndio que retirou Georg Linnamäe da luta depois de este ter chegado a liderar. O resultado devolveu Teodósio aos triunfos nacionais, algo que não acontecia desde Mortágua 2019.
2022: Miguel Correia chegou finalmente à vitória
Em 2022, Miguel Correia e Jorge Carvalho conquistaram na Aboboreira a primeira vitória da carreira no CPR, superando Armindo Araújo e Luís Ramalho por apenas 2,4 segundos, com decisão adiada para a Power Stage. Bruno Magalhães foi terceiro, numa prova em que mostrou progressos, mas ainda sem capacidade para discutir o triunfo até ao fim.
O momento-chave surgiu com o furo de Araújo na PE6, quando liderava e viu Miguel Correia aproveitar a janela aberta para assumir o comando. Mesmo com a forte recuperação do piloto de Santo Tirso no troço final, Correia resistiu até ao fim e confirmou um salto competitivo que já vinha a anunciar-se desde o pódio obtido ali em 2020.
2023: vitória emocional e salto de escala
Kris Meeke estreou-se a vencer na Aboboreira em 2023, ao lado de Ola Fløene, e fê-lo numa prova emocionalmente carregada, que o piloto dedicou a Craig Breen, falecido 15 dias antes. Na sua primeira presença no CPR em Portugal, o norte-irlandês impôs um ritmo de referência, enquanto Armindo Araújo foi o segundo melhor do campeonato e assumiu satisfação pelo regresso competitivo após o acidente anterior: “estamos muito contentes, foi uma boa prova depois do nosso terrível acidente em Fafe. Chegar aqui e fazer este resultado, não cometer erros, estou muito contente, acho que fizemos um bom regresso”.
O rali mostrou desde logo a diferença de patamar entre um piloto com currículo mundial e o pelotão nacional. Miguel Correia perdeu terreno numa prova em que esperava discutir mais, embora tenha sublinhado que “não é o resultado que esperava mas foi um rali bem disputado, e o balanço é positivo”, enquanto Teodósio optou por segurar pontos e a liderança do campeonato.
2024: domínio absoluto em ambiente mundialista
Em 2024, Meeke repetiu a vitória com Stuart Loudon e levou o registo a três triunfos em três ralis do campeonato, desta vez batendo não apenas os rivais do CPR, mas também uma forte armada internacional que usou a Aboboreira como preparação para o Rali de Portugal. Mesmo depois de um capotanço na qualificação, o irlandês recuperou, geriu um furo e voltou a vencer com autoridade, enquanto Armindo Araújo foi novamente o melhor português.
A edição ficou fortemente condicionada pela chuva, pela leitura da meteorologia e pela adaptação dos pneus às características dos troços de Marão e Aboboreira, num contexto em que os compostos usados pelos homens do CPR terão beneficiado mais do que os pneus mais duros dos pilotos do WRC. Rúben Rodrigues estava lançado para um resultado de relevo antes de abandonar no último troço, e Ricardo Teodósio viu a prova transformar-se num duro golpe no campeonato depois de problemas elétricos e de um capotamento aparatoso.
2025: Meeke mudou de carro, não mudou de estatuto
Em 2025, já ao volante do Toyota GR Yaris Rally2, Kris Meeke voltou a vencer e completou novo arranque perfeito no campeonato, depois dos triunfos em Fafe e no Algarve. Dani Sordo foi segundo, a 27,6 segundos, após um furo na Power Stage, e Armindo Araújo fechou o pódio, tornando-se o melhor português de uma prova com forte presença internacional e de novo marcada pela chuva.
A edição reforçou a ideia de que, em cenário normal, Meeke e Sordo elevam a fasquia para um patamar quase inacessível aos pilotos nacionais. Ainda assim, Araújo voltou a capitalizar regularidade e eficácia, Rúben Rodrigues deixou bons indicadores com uma exibição em crescendo, e Teodósio voltou a ser penalizado por decisões de pneus e atraso acumulado logo no primeiro dia.
Tendências para 2026
O histórico recente sugere que a prova deste ano deverá voltar a premiar três perfis: quem ler melhor as condições meteorológicas, quem conseguir gerir pneus e tração nos troços longos e exigentes, e quem entrar forte sem comprometer a fiabilidade. Entre 2020 e 2025, várias edições foram resolvidas por furos, escolhas técnicas, incidentes mecânicos ou diferenças cavadas nas especiais grandes, mais do que por simples velocidade em troços curtos.
Há ainda uma tendência estrutural: a Aboboreira tornou-se um rali onde o contexto internacional pesa cada vez mais, seja pela presença de pilotos de preparação para o Mundial, seja pelo impacto que isso tem na leitura competitiva do CPR. Se esse padrão se repetir em 2026, o foco, agora somente dos pilotos portugueses que competem no CPR, passará, desta vez, por discutir o título absoluto e não somente o estatuto de melhor nacional, ainda que isso possa suceder neste prova. Mais logo, saberemos quem vem ‘testar’ para o Rali de Portugal.
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