CPR, José Pedro Fontes (Sports&You): “Reduzir custos sim, mas ponderar relação entre custo e retorno”

Por a 15 Abril 2020 11:47

Há muito que José Pedro Fontes tem opiniões muito fortes face ao que no seu entender deve ser o Campeonato de Portugal de Ralis.

Quer um exemplo? Em 2016 fizemos-lhe uma entrevista em que depois do termos questionado se achava que o CPR devia ter um promotor, vamos recordar a sua resposta: “Acho que não é possível haver um promotor no nosso campeonato, pela forma como o CNR está organizado. Mas é possível à Federação criar um caderno de encargos para os ralis e obrigar qualquer clube que candidate uma prova a cumprir aqueles requisitos. E pensarmos em tudo isto como um espetáculo, quase como se fossemos organizar um concerto de música: temos de escolher onde o vamos fazer, a que horas o vamos fazer, como o vamos fazer, que incentivos vamos dar para atrair o público, tudo isso. Porque é impressionante a paixão que existe em Portugal pelos ralis. Como é que é possível que uma modalidade que, no fundo, não está muito bem estruturada neste ponto de vista, sem um fio condutor, continue tão viva e inclusive a captar uma marca e a ter tanto público. Se excetuarmos o fenómeno que são os três grandes do futebol, não há nenhum desporto em Portugal que tenha tanta capacidade de atração de público como os ralis. E em condições muitas vezes difíceis – à chuva, a ter de estacionar o carro sabe-se lá onde, a ter de ir para o monte… Porque se tirarmos os três grandes, a média de espetadores num campo de futebol da Primeira Liga é de 2.800 espetadores. Qualquer rali sprint tem mais do que isso.

(…) não acredito em campeonatos feitos à base dos Grupo N ou dos duas rodas motrizes. As pessoas querem é ver algo extraordinário, algo que vai além do carro normal de estrada. Tudo isto originou que, neste momento, tenhamos um parque automóvel ao nível dos melhores da Europa. Sinceramente, só vejo o campeonato italiano mais forte do que o nosso, porque tem uma equipa oficial da Peugeot, tem uma equipa oficial da Skoda, tem troféus, que é algo que precisamos de recuperar e de apoiar. A propósito disto aproveito para dar os parabéns ao dr. Calisto pelo trabalho e pelo amor aos ralis ao fazer o Challenge DS3 R1”.

Quatro anos depois

Passaram quatro anos, e o tema voltou à baila, agora que estamos perante uma crise resultante do coronavírus. Nos últimos dias, e sem ainda se saber quando será possível à FPAK tomar medidas quanto ao CPR 2020 – porque neste momento a federação não tem dados suficientes para tomar essas decisões – o mundo motorizado nacional, no que aos ralis diz respeito tem-se pronunciado sobre o assunto e deixado bem vincado o seu ponto de vista.

Depois do AutoSport ter feito nas últimas duas semanas um trabalho sobre o passado, presente e futuro do CPR, surgiu com mais ênfase esta questão do calendário, e depois de nova conversa com o Zé Pedro Fontes, para não se repetir, sugeriu-nos: “Ouve o que disse ao Amândio, é exatamente o que te iria dizer agora a ti”. Por isso, e sem perder tempo e com a devida vénia e autorização do Amândio Santos, da Golo FM, aqui fica: “Penso que as consequências económicas desta crise serão maiores que 2008 mas também vai haver uma mais rápida recuperação” começou por dizer Fontes, que é de opinião ser necessário que se coloquem em cima da mesma “vários cenários, para os por em prática conforme situação com que nos depararmos na altura certa! Acho que o desporto automóvel vai ser muito afetado e por isso vamos ter de nos reinventar. Por isso este é um momento muito importante, há muita gente envolvida, a FPAK, as equipas, pilotos, clubes e por isso será necessária uma grande partilha de ideias de modo a que se possam criar cenários que vão encontro às necessidades e objetivos de todos. É tempo para pensarmos em mudanças de fundo que temos de fazer, não só para fazer face a esta situação, mas outras, que já deveriam ter começado antes. Há um grande trabalho pela frente que temos de fazer”, começou por explicar, dando depois a sua visão da forma como entende que as coisas deveriam ser feitas: “Há que reduzir custos, sim, mas é importante fazer uma ponderação entre o custo e o retorno. Porque um ‘produto’ pode ser barato, mas se não prestar, ninguém vai ver ou ‘comprar’.

Temos de uma vez por todas de entender que o desporto motorizado é entretenimento, e como qualquer espetáculo, tem que ser um bom espetáculo. Tem que ser um espetáculo feito para quem quer comprar esse espetáculo, tem que ser feito nos dias certos, nas horas certas, nos formatos certos, junto ao público certo, nas localidades certas, tudo isso. Quando estamos em tempos de ‘vacas gordas’, podemos dar-nos ao luxo de não ser tão eficientes, mas agora, no futuro próximo, vamos ter que ser muito eficientes e há muito que penso que temos de rever a estrutura do nosso campeonato, que tem 10 provas, para depois escolhermos oito, e pontuar em sete.

Acima de tudo, o que nós temos que procurar é ser eficientes, porque nós estamos em concorrência direta com desportos e atividades lúdicas que estão muito bem organizadas, que são postas de pé com um foco no cliente muito grande. E quem são os nossos clientes? Patrocinadores, pilotos e público. Portanto temos que pensar como vamos fazer um espetáculo equilibrado a nível de custos para a realidade que portuguesa, mas muito eficiente do ponto de vista promocional de modo a que o balanço entre o custo e o retorno seja apetecível, para que nós possamos vender a todos os patrocinadores, para os clubes poderem vender aos seus patrocinadores, as câmaras municipais que os vão apoiar.

Claro que temos de ter a noção da realidade económica que vamos ter, mas não vai ser pela simples redução de custos que podemos manter o nível de espetáculo, vai ser pelo vamos oferecer a quem quiser ‘comprar’”, explicou Zé Pedro Fontes.

Para o piloto e líder da Sports&You, é necessário começar quase de “uma folha em branco! Não faz sentido um CPR com o nível de investimento que tem, e com as marcas que estão envolvidas, não ter nenhum rali na zona de Lisboa ou na zona do Porto.

É logo por aí que vamos ter que começar a pensar. Quando alguém pensa em criar um espetáculo, fá-lo numa zona onde potencialmente terá mais público porque sabe que com isso vai ter mais patrocinadores, mais dinheiro, isso leva a mais equipas, mais pilotos e aí podemos pedir aos media nacionais que nos deem o retorno que nos é devido, até pela paixão que temos, e pela quantidade de público que trazemos.

Quantas provas, onde as devemos fazer, se queremos fazer junto dos grandes eventos ou fazer nós sozinhos, e se temos WRC, ERC e ERT, o CPR tem que estar, como está, com essas provas.

Como é que vamos fazer a hierarquia económica das classes que temos, pois estamos bem em termos de R5 mas falta a base do nosso desporto. Tem que haver humildade da parte dos pilotos e das equipas, mas também tem que haver o mesmo da parte dos clubes e da FPAK de aquilo que necessitamos para vender os nossos projetos.

Porquê o CPR está bem? Se formos a ver a estrutura é igual há 15 anos, ou pelo menos parecida .Temos que entender o contexto, as necessidades, e como vamos fazer algo que seja fácil vendermos, porque numa altura de dificuldade, isso ainda mais importante vai ser.

É imperativo fazer o calendário baseado nas pretensões das nossas equipas e nossos pilotos. É preciso abertura da FPAK para pensar em conjunto o que devemos fazer, e dar-lhe toda a força para que se tiver que tiver tomar medidas, fazer mudanças mais profundas no CPR, que o faça, desde que isso seja para o interesse de todos, e também para o interesse dos clubes. Mas tem que haver consciência clara que tudo vai ser diferente. Temos que ser mais eficientes, muito determinada e muito profissionalmente”, concluiu.

Como se percebe por estas palavras separadas por quatro anos, existe coerência no pensamento, e pelos vistos, como se tem ouvido, há outros players também muito importantes, que pensam da mesma forma.

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