Azores Rallye: A história de um mito do automobilismo português

Por a 14 Novembro 2025 15:43

O Azores Rallye é uma lenda viva do desporto automóvel português. Nascido em 1965 como Volta à Ilha de São Miguel, transformou-se gradualmente numa das provas mais icónicas e desafiantes dos calendários português e europeu de ralis, conquistando reconhecimento internacional e marcando gerações de pilotos.

Hoje, apesar de atravessar um período menos visível, de ‘olho’ no Campeonato de Portugal de Ralis, depois de um período conturbado no Grupo Desportivo comercial, a prova permanece como um baluarte incontornável da tradição portuguesa dos ralis.

Os primeiros passos de uma prova lendária (1965-1972)

Tudo começou no dia 18 de julho de 1965. Luís Toste Rego, ao volante de um Fiat 1500, fez história ao vencer a primeira edição da então designada Volta à Ilha de São Miguel, uma prova que nasceu com 32 equipas inscritas — apenas 28 terminaram a maratona.

O evento suscitou curiosidade imediata nos meios dos ralis nacionais, atraindo nomes sonantes da modalidade, como Zeca Cunha, piloto reconhecido pelo triunfo na VII Volta à Ilha da Madeira, e figuras do panorama internacional, como Frederick Purdy, cônsul dos Estados Unidos em Ponta Delgada.

O entusiasmo gerado pela primeira edição não se extinguiu. Já em 1968, a prova passou a integrar o Campeonato Nacional de Ralis, confirmando a sua importância no panorama interno português. O reconhecimento internacional chegou mais tarde: em 1972, o evento adquiriu estatuto de prova internacional, abrindo portas para uma transformação que ainda estava por vir.

A afirmação no palco europeu (1973-1992)

O ano de 1973 marcou um ponto de viragem. Pela primeira vez, pilotos de renome internacional estiveram presentes no Rallye Açores. Giovanni Salvi, Sandro Munari e Alcide Paganeli trouxeram consigo a credibilidade que a prova necessitava para alçar voo. Embora com estatuto internacional, o rali ainda não era parte integrante de nenhum campeonato europeu, mas esse período de avaliação estava a chegar.

Entre 1983 e 1985, o Rallye Açores passou por um processo de avaliação rigorosa para integrar o Campeonato Europeu de Ralis. O reconhecimento chegaria oficialmente em 1992, com o coeficiente 2, marcando um momento decisivo. Esse ano foi especialmente significativo pela presença de Yves Loubet, piloto francês que conduzia o Toyota Celica GT-4 com que Carlos Sainz vencera o Rali da Argentina em 1991 — uma prova do calendário do WRC.

A visibilidade global do evento e da região elevou-se significativamente.

O apogeu europeu e a chegada de campeões mundiais (1993-2013)

A década seguinte consolidou a posição do Azores Rallye como um dos mais relevantes do continente. Fabrizio Tabaton (1993), Sébastien Lindholm (1996), Alister McRae (1997), Bruno Thiry (1997) — nomes de respeitabilidade internacional — visitaram as estradas açorianas. O auge chegou em 2001, quando Juha Kankkunen, tetracampeão do Mundo de Ralis, venceu a prova ao volante de um Subaru Impreza WRC. Estes nomes reforçavam a mensagem: o Azores Rallye não era apenas uma prova europeia, era um desafio mundial.

Fruto de sucessos consistentes e avaliações positivas, o rali atingiu o coeficiente máximo de 10 no Campeonato Europeu de Ralis. Alterações regulamentares posteriores transformaram-o em prova integrante da Taça da Europa FIA de Ralis, mantendo sempre a proeminência.

A era do Intercontinental e a consolidação internacional (2008-2022)

Em 2008, abriu-se uma nova janela de oportunidades. O Azores Rallye foi integrado como IRC Supporter Event no Intercontinental Rally Challenge, promovido pela Eurosport. Um ano depois, em 2009, ascendeu a prova plena do campeonato. Com a fusão do IRC, o rali passou a fazer parte do European Rally Championship (ERC) em 2013, consolidando a sua posição de destaque no automobilismo europeu.

Durante este período, o evento alterou também a sua identidade comercial. Começou como SATA Rallye Açores a partir de 1999, mantendo este nome até 2015. Em 2016, adotou a designação internacional Azores Rallye, refletindo a sua ambição e alcance globais.

Transformação, desafios e perspetivas futuras (2023-presente)

Em setembro de 2022, o novo promotor do ERC, o WRC Promoter, anunciou uma decisão controversa: a exclusão do Azores Rallye do calendário europeu em 2023, justificando a medida com a intenção de tornar o campeonato mais central e reduzir custos para as equipas. A decisão provocou comoção na comunidade dos ralis portugueses, mas revelou-se apenas temporária.

Em dezembro de 2023, o Azores Rallye foi integrado na Tour European Rally (TER), uma competição organizada pela TER Series e aprovada pela FIA, que reúne provas com características únicas em locais de elevado interesse turístico. Este regresso teve contornos memoráveis: Sébastien Loeb, vencedor de nove títulos do World Rally Championship, venceu a edição de 2023 ao volante de um Škoda Fabia RS Rally2. O regresso ao Europeu de Ralis terá de esperar mais algum tempo, mas, tendo em conta a marca que a prova sempre deixou na competição, é natural que regresse um dia, assim que se defina melhor os caminho que os ralis terão num futuro próximo, com novas regras para o WRC, que poderão ter também impacto no Europeu.

Atualmente, o rali encontra-se igualmente fora do Campeonato de Portugal de Ralis, situação que reflete as dificuldades operacionais por que passou o Grupo Desportivo Comercial, entidade organizadora desde a sua fundação. Contudo, especialistas e dirigentes do desporto automóvel português não hesitam em afirmar que esta é uma situação temporária. A prova é demasiado importante, demasiado respeitada e demasiado admirada para permanecer afastada indefinidamente. Claro que tem de ser cumprido um percurso até que isso suceda, mas se tudo correr com os responsáveis do GDC e adeptos em geral, esperam, a prova há-de voltar a integrar o CPR e depois o ERC.

Um palco único no mundo dos ralis

O Azores Rallye distingue-se pela singularidade do seu traçado. Disputado quase exclusivamente em pisos de terra, apresenta troços lendários, que colocam desafios distintos dos habituais no calendário europeu.

Paisagens deslumbrantes, meteorologia imprevisível e pistas técnicas e seletivas, fazem desta prova um verdadeiro teste de resistência, destreza e adaptabilidade. Não existe piloto de topo que não goste ou deseje competir neste rali; não existe prova que ofereça cenários tão esteticamente notáveis.

O regresso inevitável

Apesar do período menos luminoso, a história do Azores Rallye é a história de uma resiliência notável. De uma modesta Volta à Ilha de São Miguel em 1965 para um acontecimento reconhecido mundialmente, o rali dos Açores consolidou-se como património do automobilismo português e europeu.

Quando as condições se normalizarem e os constrangimentos financeiros forem ultrapassados, a certeza é uma: o Azores Rallye regressará ao lugar que lhe pertence, porque é, efetivamente, uma das provas mais fantásticas, mais diversas e mais bonitas do mundo dos ralis.

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1 comentários

  1. [email protected]

    15 Novembro, 2025 at 11:45

    Sem dúvida!
    Participei duas vezes: p’ra mim o meu rali preferido, a Tronqueira sendo o meu troço de eleição!
    Depois são os Açores em si, junta-se o útil ao agradável…
    Uma curiosidade:
    O ilhéu de Monchique é que é de facto o ponto mais ocidental! (constando nas cartas marítimas oficiais…)

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