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Bruno Magalhães: “Dentro de um ano este carro vai ser muito mais rápido pois tem grande potencial para ser desenvolvido”

José Luis Abreu by José Luis Abreu
6 Agosto, 2014
in Ralis
A A

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A terceira vitória de Bruno Magalhães no Rali Vinho da Madeira teve um sabor especial, pois trata-se da primeira vitória do piloto com o Peugeot 208 T16. Uma vitória suada, sobretudo neste terceiro dia de prova, onde Bruno e Carlos Magalhães tiveram de enfrentar problemas de caixa ao longo de todas as especiais de classificação. Bruno Magalhães liderou a prova desde o início, altura em que ainda se adaptava à nova máquina, ganhando a confiança necessária para atacar e deixar os seus adversários, quer na classificação FIA quer na classificação FPAK, atrás de si. Magalhães concluiu o rali com 1m42,1s de vantagem para o segundo classificado, Miguel Nunes entre os carros com homologação FIA e quatro segundos de vantagem para José Pedro Fontes com o Porsche apenas com homologação FPAK. Depois da prova madeirense, contou ao AutoSport pormenores muito engraçados que valem a pena revelar:

Antes de entrares na prova, não escondias a ambição de subir ao lugar mais alto do pódio. Alcançaste o objectivo…
“Foi a melhor forma de estrear o 208 T16. É um carro excecional e que se portou lindamente. A decisão de vir à Madeira não poderia ter sido mais acertada. Tenho de agradecer aos meus patrocinadores por terem confiado na minha decisão de fazer esta prova, assim como á Peugeot por ter construído um carro tão bom como o 208”

Como encaras o Rali Barum Zlin, próxima prova do ERC que vais disputar?
“Penso que vamos para a próxima prova do Europeu na República Checa bem preparados e com um conhecimento do carro que nos vai permitir outra abordagem. Este rali foi perfeito a todos os níveis. Não estivéssemos a falar da minha prova preferida”

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O que achaste do teu novo Peugeot 208 T16?
“Gostei bastante do carro, mas considero que não está nem de perto nem de longe no limite ao nível das afinações, nem eu tinha conhecimento para que estivesse, acho que dentro de um ano este carro vai ser muito mais rápido do que hoje pois tem grande potencial para ser desenvolvido.”

Mas já evoluíste um bocadinho em termos de afinações…
“Evolui muito durante o rail, agora a questão é que chego, por exemplo, ao rali na República Checa, que tem zero a ver com a Madeira e tenho que fazer o trabalho todo de novo, porque as especificações desse rali não têm nada a ver com a Madeira…

Como é que muda tanta coisa?
O asfalto em vez de ser liso é irregular, em vez de ter aderência é escorregadio, em vez de ser limpo, tem areia, e no meio disto tudo tens que ter um compromisso de afinação completamente diferente, desde as suspensões, a altura, barras estabilizadoras, basicamente é tudo diferente. Agora para o Rali Barum é partir de uma folha em branco novamente e adaptar o carro às características da prova porque não tem absolutamente nada a ver com a Madeira.

O que parece é que os R5 já estão a um nível tão alto que qualquer pequena coisa, faz muita diferença…
“Quando vais fazer um rali, por exemplo no campeonato nacional, os troços cá em Portugal, mais rali, menos rali, têm todos mais ou menos as mesmas características, e o asfalto é bom. Só que nos ralis do Campeonato da Europa, em que variamos de país de país, as características dos troços não têm absolutamente nada a ver umas com as outras. Vamos a Ypres e ‘levamos’ com uma estrada que não tem absolutamente nada a ver, em Ypres para os 207 tinham que ser feitos amortecedores diferentes. É exatamente por isso que o Campeonato da Europa é difícil, é preciso ganhar experiência, vamos aprendendo a afinar. Agora quando realizamos uma prova pela primeira vez é muito difícil. Por isso é que estes campeonatos internacionais, como se vê no Campeonato do Mundo de Ralis, em que os pilotos a dizem que demoram três, quatro, cinco anos até poderem estar a 100% nas provas. O mesmo se passa no Europeu. Ganhei na Madeira e sei que vou chegar à Rep. Checa com muita dificuldade. Porquê? Porque nunca lá fui.

Só com essa variedade de provas se ganha experiência…
É um dos ralis com características mais estranhas em relação ao asfalto que podemos encontrar no Campeonato da Europa, sei que vou ter muitas dificuldades, mas também sei que é um rali que está no campeonato há muitos anos e portanto se eu quero fazer um projeto a três anos, como pretendo, há de haver um dia que eu tenho que lá ir pela primeira vez. Portanto tenho que conhecer a prova, tenho que trabalhar para melhorar as afinações do carro e certamente quando lá voltar vou estar muito mais forte.

Mas a Peugeot pode-te passar afinações básicas? Como é que isso funciona?
Antigamente quando eramos as filiais tínhamos uma folha de afinação base para cada prova. Eu para esta prova da Madeira não tinha nenhuma. Para a Madeira tive que fazer tudo por mim. Felizmente com alguma experiência que já tenho e com a experiência naquele tipo de prova consegui arranjar uma boa afinação logo desde o início. Agora por exemplo no Barum que nunca lá estive, não faço a mínima ideia, vai ter que ser um rali todo à descoberta e isso é um trabalho que os espectadores não veem, os jornalistas não veem, mas é um trabalho de grande importância…

Quem está de fora não entende facilmente diferenças de afinação…
Só uma ideia para se perceber. Eu no primeiro troço do Rali Vinho Madeira era o segundo carro na estrada, atrás do Ricardo Moura. Quando chego ao final do troço, parei na ligação, saí do carro e disse ao Ricardo, ‘Moura tu vens à ‘rasca’ não vens? O teu carro vem a fugir de frente?’ E ele virou-se para mim e perguntou-me – ‘Vem, mas como é que tu sabes?’, ‘Porque eu vi as tuas linhas e vi pelas linhas que vinhas aflito. Eu vi pelas linhas de trajetória dele que ele vinha aflito e que o carro vinha a fugir de frente. Só de olhar para as linhas dele, porque eu via as linhas e metia antes para as curvas. São pormenores mas eu percebi logo as dificuldades…

Como foi o último dia com a embraiagem a dar problemas?
A partir do momento em que tive problemas, no primeiro torço, alterámos a centralina, que tem várias posições de acelerador, que vai desde o mais ‘bruto’ aos mais suave, e comecei a andar com o carro na afinação mais ‘fraca’, ou seja, a nível de cartografia de motor e posição do acelerador andei com o mais ‘fraco’ de todos, o carro com muito menos ALS, a arrancar sem LS para quando eu acelerasse o carro fosse o mais progressivo possível na resposta e dessa forma não forçasse tanto a embraiagem. Claro que dessa forma perdi potência e performance, mas pelo menos poupei o carro e deu para chegar ao fim…

Em condições normais utilizarias o modo mais ‘brusco’?
Sempre! Ainda para mais num rali como a Madeira com pisos com muito boa aderência. O que acontece é que se chega a uma curva, trava-se, aponta-se o carro lá para dentro quando ‘dás gás’ e o carro – ainda para mais sendo um tração às quatro – roda e fica direito para sair, acelera-se um segundo ou dois mais cedo. Mas com esta cartografia, metia o pé no acelerador e ele automaticamente, como tinha a direção ainda muito virada, era a mesma coisa que eu não estivesse a carregar no acelerador. Só quando estava a direito é que saía. Portanto perdi muito tempo assim.

Mas tinhas ideia que a embraiagem era capaz de aguentar?
Sinceramente, não tinha, não fazia ideia. Estava um pouco aflito pois não sabia o que podia acontecer. Com o receio comecei por colocar a afinação no mínimo, o mais ‘soft’ possível, para aguentar. Foi o que fiz. Felizmente correu bem.

Tags: Bruno Magalhães
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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