António Coutinho: “1993 foi ano de boas e más memórias”


António Coutinho conta no seu currículo com o título de vice-campeão do Mundo FIA de Grupo N, alcançado em 1993, num ano que terminou de forma polémica com a desclassificação no Rali da Catalunha. Foi há 25 anos…

 

 

Vinte cinco anos depois de ter caído numa ‘armadilha’ que lhe retirou a hipótese de lutar pelo título de vencedor da Taça FIA de grupo N, António Coutinho, o homem que gere um dos maiores grupos do setor automóvel em Portugal, o Grupo MCoutinho, recorda com “boas e más memórias” esse ano de 1993. Numa carreira maioritariamente passada aos comandos dos Toyota Corolla, o primeiro título surgiu, curiosamente, com um Ford Escort de Grupo 2, em 1983, nos Iniciados. No ano seguinte, deu-se a passagem para a Toyota, marca que esteve com o piloto até 1990. Pelo meio foi Campeão Nacional de Grupo A em 1985, e no ano seguinte, de Produção. Depois deu-se a passagem para o Team Salvador Caetano/Mobil e aí obteve uma vitória (Sopete 1988) e vários pódios. Em 1989, o primeiro ano com o Toyota Celica GT-Four, ficou marcado pela juventude do carro, made in Portugal, com a Salvador Caetano a ter “dificuldades ao nível da suspensão, com o carro a ter muita falta de motricidade, para além de poucas peças de substituição”, recorda António Coutinho. Só no ano seguinte, depois da Salvador Caetano ter decidido montar um carro completamente novo, as coisas melhoraram. Contudo, “a preparação atrasou-se e falhámos as duas primeiras provas do campeonato”, com o programa a começar somente no Rali de Portugal.

 

 

“As coisas correram bastante bem ao ponto de vencer quatro provas e lutar pelo título com Carlos Bica e Joaquim Santos. Ainda recentemente, falava com o Carlos Bica no Algarve e a verdade é que naquele tempo, mais do que adversários, éramos verdadeiros amigos. Uma coisa era o que se passava lá dentro, outra a nossa convivência”, recordou. Foi nesse ano que António Coutinho teve a sua grande chance de ser Campeão Nacional de Ralis. A primeira vitória surgiu no Rali da Figueira da Foz, onde foi quebrado um longo jejum do Team Salvador Caetano/Mobil. O título ficaria na posse de Carlos Bica e para Coutinho ficou reservado o terceiro posto final da competição. Terminada a era Toyota, mudou-se para a Ford, e aos comandos de um Sierra RS Cosworth 4X4, disputou apenas cinco provas em dois anos, duas do campeonato português e três do Mundial: “Por motivos profissionais saí da equipa, pois não dava para manter devido à minha actividade. Passámos para o Ford Sierra Cosworth 4X4 de Grupo N, e após ter realizado em 1991 duas provas em Portugal, no ano seguinte quisemos tentar perceber como poderiam correr as coisas em provas do Mundial.” Ainda em 1991, Coutinho foi segundo em S. Miguel, mas em 1992 deu o primeiro sinal do que poderia fazer em termos internacionais no Grupo N, ao participar no Rali da Córsega, onde foi sétimo do Grupo N, indo ao pódio do agrupamento no Sanremo.

 

 

Ano do vice-campeonato

Em 1993, António Coutinho encetou uma carreira no Mundial e teria ganho este campeonato se algumas manobras pouco claras não tivessem ditado a sua desclassificação no Rali da Catalunha, onde ganhou o Grupo N, e perdeu essa pontuação quando nas verificações a barra estabilizadora traseira do seu Escort foi considerada mais estreita do que o imposto pelo regulamento. Uma história muito mal contada, que passados vinte anos é possível olhar com outro distanciamento, mas sempre com a mesma convicção de que ali “houve gato”.

 

 

 

Tudo começou com a participação no Rali de Portugal, prova em que a dupla do Ford Escort Cosworth 4X4 adquirido em Inglaterra, ao conhecido preparador Gordon Spooner, Coutinho terminou na segunda posição do Grupo N. Isto apesar de ter recebido o carro imediatamente antes do começo da prova, e de ter andado com ele três quilómetros antes da primeira especial do rali, o troço do Gradil. Terminou a primeira etapa a 17 segundos do líder do Grupo N, com um carro aligeirado em 30 cv: “Tirei-lhe potência porque sabia dos problemas ao nível da caixa de velocidades, e para além disso não havia material de substituição”, disse na altura o piloto ao AutoSport.

 

 

Para o português, a segunda prova da competição foi a Córsega, e aí Coutinho foi 15º da geral, quinto do Grupo N, passando dessa forma para o comando da Taça FIA de Grupo N. A prova teve alguns percalços, começando logo pelas verificações. No rali, “adotámos uma toada rápida sem arriscar nada e conseguimos fazer o rali sem qualquer problema”. Já na Argentina, nova boa classificação em termos de Grupo N com um novo segundo lugar. Em Sanremo, com imensos especialistas locais, Coutinho foi quinto no Agrupamento, conseguindo um precioso ponto na luta pelo título da competição. No Rali da Catalunha, António Coutinho ficou a um milímetro da vitória no Grupo N. Na prova, as coisas correram muito bem, ainda que Coutinho não pensasse vencer: “Treinei muito, mas nunca pensei em chegar à vitória. Numa altura em que já estava em segundo, ultrapassei o Alessandro Fassina, antes dele ter o problema que o atrasou”, referiu Coutinho, que nesta altura ainda pensava poder ir ao RAC disputar o título com o italiano, mas algumas horas depois tudo ruiu com a desclassificação, devido a uma barra estabilizadora frontal do Escort ter menos um milímetro do que o homologado (28 mm em vez de 29 mm). Coutinho, como a maioria dos privados, recorria a um preparador inglês Gordon Spooner, que lhe enviou uma peça correspondente ao Sierra, por engano. Foi o próprio Colin Dobinson, responsável máximo da Ford Motorsport, que disse a Coutinho para apelar: “Pague o apelo, pois se tiver razão, devolvem-lhe o dinheiro, se não, envia a factura à Ford que eu entendo-me com o Gordon Spooner. Que foi quem lhe vendeu a peça, como homologada. Por favor peça ao Spooner um fax a confirmar o pedido da peça e que foi esta a enviada.” Um Senhor, este Colin Dobinson. Para ajudar à festa, o segundo classificado do Grupo N também foi desclassificado: “Quem pagou o protesto foi o Fassina”, refere António Coutinho, bem recordado do que se passou. Desta forma, Alessandro Fassina chegou ao primeiro lugar do Grupo N, sem sequer passar pelas verificações finais: “A barra de torção mais fina só prejudicava o comportamento do Escort no asfalto. Em terra não, mas em asfalto nada ganharia em alterar a peça” Coutinho ainda pensou em levar a questão para o Tribunal da FIA, mas os homens de Boreham concluíram que era quase impossível ganhar o apelo. Portanto, facilmente se provou que António Coutinho não tinha qualquer culpa no sucedido, mas na prática, o português viu o título fugir para o italiano Alessandro Fassina, sem ter sequer hipóteses de lutar por ele no RAC, prova que não estava prevista no calendário do português, mas que poderia disputar, já que estaria um título em jogo: “Éramos uma equipa de amigos e competimos nesse ano contra um piloto, o Bin Sulayem que levava dois aviões para as provas, um para ele outro para a equipa. A verdade é que com a vitória na Catalunha, podíamos ir ao RAC lutar pelo título, onde precisávamos somente de um sexto ou sétimo lugar para ser campeões. O Fassina estava obrigado a vencer e isso não era fácil no RAC, com todos os especialistas locais. Estávamos a festejar no restaurante a primeira vitória no grupo N até que nos comunicaram que havia um problema com o carro. Ficámos perplexos, mas a verdade é que fomos desclassificados. Foi uma coisa muito feia e fiquei muito triste porque podíamos ter sido campeões. Existia uma grande diferença de meios para outras equipas, mas tínhamos uma vontade muito muito grande. Ficou a boa recordação de ter terminado as cinco provas, e terminei a minha carreira nos ralis a tempo inteiro da melhor maneira. Eram provas muito exigentes, com um grau de dificuldade que não se compara aos atuais”, conclui António Coutinho, que desta forma, terminou a época como vice-campeão de Grupo N, provando que em Portugal existiam muitos e bons pilotos.

 

 

 

Fado português

Dois anos depois, Rui Madeira venceu a Taça FIA de Grupo N e ‘vingou’ um pouco o sabor a injustiça que os adeptos portugueses sentiram com esta época de António Coutinho no Mundial, que na altura, nas páginas do AutoSport, mostrou a sua desilusão: “Fiquei triste com o desfecho e a forma como o cenário foi montado para que a minha participação naquele campeonato terminasse. Nunca me passou pela cabeça que as coisas pudessem terminar daquela forma. Basicamente, foi o dia mais triste da minha carreira automobilística”, disse Coutinho que lutou contra adversários como Jorge Recalde, entre outros: “Penso que faltou dinheiro para ter delineado um programa diferente e dispor de outros meios. Sempre achei que a minha equipa foi a melhor, pois com apenas dez pessoas todos nos redobrámos em esforços para acabar as provas. Bem gostaria de ter tido uma equipa como a do Bin Sulayem ou mesmo o campeão Fassina, apoiado pela Mazda Itália. Eu não trocava de pneus na final de cada classificativa, ao contrário, por exemplo do que acontecia com os meus adversários”, referiu Coutinho que à posteriori teria delineado um calendário diferente: “errei na escolha das provas, pois por exemplo em vez da Córsega teria trocado pela Acrópole, uma prova mais ao meu jeito. E com outro budget, com a possibilidade de ir à nova Zelândia e à Austrália, teria sido campeão.” O piloto de Marco de Canavezes ainda ponderou permanecer nos ralis mais algum tempo “nunca garanti a 100 por cento que me retirava, e só mesmo se surgisse um projecto interessante poderia continuar e isso ainda pôde suceder em 1996, quando a Peugeot o tentou convencer a entrar na equipa, com quem realizou apenas uma prova, o Rali Maia Shopping de 1996, que terminou em quinto com o Peugeot 306 Maxi: “Ainda estive ligado à Peugeot três ou quatro anos. Dei uma mão ao Adruzilo Lopes, ao Luis Lisboa e ao Paulo Silveira a montar a equipa, mas para mim os ralis tinham acabado”. Na sua carreira, a António Coutinho mais do que ter ficado a faltar o título principal, que não esteve longe de acontecer em 1990, a grande mágoa é mesmo o sucedido no Rali da Catalunha de 1993. Se nada de muito errado se tivesse passado, provavelmente Coutinho teria sido o primeiro piloto a vencer uma grande competição internacional nos Ralis, algo que foi conseguido por Rui Madeira dois anos depois, também na Taça FIA de Grupo N.