Entrevista Miguel Oliveira: “As Moto3 ainda têm um caminho a percorrer”

Por a 3 Novembro 2011 12:20

Miguel, o que achaste daquele teste com a Monlau e sobretudo da nova Moto3? Quais as diferenças de pilotagem para as 125cc?

Miguel Oliveira – Aquele e outros testes que tenho vindo a realizar desde a última corrida em Aragón têm-se revelado muito produtivos, a moto tem evoluído bastante e os tempos por volta são cada vez mais rápidos e consistentes. Embora o motor, por agora, seja ainda standard, é no chassis que temos ganho toda a diferença e que faz com que seja uma mota muito fácil de pilotar. 

Em termos de performance, pensas que estas motos de motores 250cc a quatro tempos demorarão alguns meses (ou até um ano) a chegar aos tempos das 125, como aconteceu com as Moto2 em relação às antigas 250?

M.O. – Se pensarmos que uma 125Gp atinge 240 km/h, uma 600cc 4t com quatro cilindros atinge 280 km/h, uma 250cc 4t monocilíndrica ainda terá algum trabalho pela frente. Embora não se esteja longe destes valores, penso que, por agora, a diferença resultará na boa afinação do chassis.

Apesar da situação negativa com a Andalucía, o certo é que já tiveste contactos com uma Moto3 (poucos pilotos do Mundial o fizeram). Pode isto ser importante para 2012?

M.O. – É lógico que o facto de poder rodar com a Moto3, para além de poder repor os quilómetros das provas que não realizei no Mundial de 2011, dá-me a vantagem de conhecer este modelo, o que me poderá ajudar muito na escolha da equipa e respetivo pacote técnico para 2012.

Há contradições entre aquilo que o Team Machado afirmou em comunicado e o vosso comunicado após Aragón. Eles falam em incumprimentos, vocês dizem que nunca incumpriram nada. É óbvio que isto tem a ver com pagamentos, portanto e para esclarecer esta questão de uma vez por todas, podem explicar com o máximo detalhe todo o processo que depois levou à rescisão do contrato?

P.O. – Não há muito que possa dizer sobre este assunto até porque se o fizesse estaríamos a violar uma cláusula do contrato. O que posso dizer é que o contrato foi sempre por nós cumprido e que o Miguel como piloto deu sempre o seu melhor, mesmo nos momentos mais críticos. Ajudei a equipa a minimizar problemas financeiros com dois patrocinadores pessoais do Miguel, Vodafone e ACP, problemas esses que são agora dados a conhecer na imprensa espanhola e como recompensa, o Miguel não pôde terminar o Mundial. Lamento o facto de algumas pessoas que nos rodeavam terem deturpado as nossas palavras junto do proprietário da equipa e presumo que isso tenha contribuído para que o Team Machado tenha tomado a decisão de terminar o contrato. Lamento a sua decisão, mas compreendemos as dificuldades da equipa e por isso aceitamos a mesma.

Apesar de ser visível que as Aprilia do Team Machado não tinham a competitividade das motos, por exemplo, da Aspar, Ajo ou até da BQR, também é certo que o Miguel sofreu algumas quedas comprometedoras. Teve uma coisa a ver com a outra?

M.O. – Sempre fui um piloto muito competitivo, o que fez com que chegasse a este nível de pilotagem. Sou reconhecido pela minha capacidade de travagem e por colocar com a minha pilotagem o que a moto não tem. As quedas em Jerez e na Catalunha são o reflexo disso. Por outro lado, nos casos em que a moto não era o mais importante, mas sim a pilotagem, como no caso de Brno em que a pista é quase sempre a descer, mostrei que podia acompanhar os da frente e fazer boas recuperações como em Indianápolis.

O público em geral se calhar não se apercebe facilmente disto mas… quem tem dinheiro ‘compra’ realmente uns décimos de segundo nas RSA fornecidas pela Aprilia?

P.O. – O material, supostamente, é igual para todos ou pelo menos tem a mesma aparência. Penso que a maior diferença está na quantidade de material que se dispõe para trabalhar na afinação. Quando os recursos económicos são inferiores, então é verdade que quem tem dinheiro pode comprar todos os décimos de segundo que, no final, fazem toda a diferença.

O que surpreendeu mais o Miguel nesta época de aprendizagem e descobertas (dentro e fora da pista)?

M.O. – Dentro de pista, foi a rapidez com que se tem de chegar aos tempos rápidos. Fora de pista, fiquei surpreendido com o facto de as equipas serem mais profissionais que nos campeonatos por onde passei, chegando a perder-se todo o ambiente familiar que se vivia anteriormente.

É notório que o Maverick VIñales tem neste momento uma equipa e condições que o Miguel não teve em 2011. No entanto não deixa de ser impressionante aquilo que ele está a fazer, com 3 vitórias e mais 5 pódios como rookie. Conhecendo vocês o talento do Maverick e a própria BQR, isto surpreendeu-vos?

P.O. – De maneira alguma. Em 2009 o Miguel foi companheiro de equipa do Maverick no CEV na equipa BQR pelo que conheço bem o Ricard Jovê, seu representante e director de equipa. Esta equipa tem um dos melhores técnicos do mundo se não o melhor em Aprilia, o Cristian Lundberg. Uma pessoa inteligente como o Ricard tratou de colocar todos os meios para que o seu piloto pudesse alcançar os objetivos e a notoriedade que lhe é reconhecida. O Ricard conhece e reconhece os talentos do paddock mas com ele diz: “dois galos não podem estar na mesma capoeira”.   

Praticamente desde que chegou a Espanha, o Miguel sempre foi visto como o único piloto capaz de bater o Maverick, mas nas últimas épocas ele ficou atrás do Viñales no CEV em 2009 e 2010 (apesar do Miguel ter ganho mais provas nesta época) e no Europeu do ano passado, além desta estreia no Mundial onde as condições são diferentes. 2012, com motos novas para toda a gente, será o verdadeiro tira-teimas entre os dois maiores talentos desta geração?

M.O. – Desde 2004 que o meu pai me leva para Espanha para competir, e dentro das suas possibilidades colocou todos os meios ao seu alcance para que eu pudesse evoluir. A minha competitividade e do Maverick deve-se ao facto de termos personalidades muito próprias e caráter forte, o que fez com que ambos nos destacássemos dos restantes pilotos que se iniciaram na mesma altura. Quanto aos campeonatos as circunstâncias são evidentes e o Maverick não os venceu todos, também coleciono títulos em Espanha à frente dele. Não considero que 2012 seja um tira-teimas até porque, muito provavelmente, o pack técnico não será o mesmo, daí mais uma vez não poder haver comparação. 

Vocês sentem que a evolução de um piloto espanhol, com todos os sponsors, estrutura e tradição que já têm no Mundial, é incomparavelmente mais fácil do que a de um piloto português? Podem dar exemplos práticos (que sentiram no terreno) desta diferença?

P.O. – Naturalmente que a tradição é um factor determinante, mas ser o primeiro português nestas andanças é um orgulho e uma oportunidade para promover Portugal. As grandes empresas portuguesas, com interesse em divulgar a sua marca em Portugal e no mundo, não se podem demitir deste projeto. O campeonato do mundo de motociclismo é a modalidade motorizada mais vista no mundo, mais que a Fórmula 1, com audiências de mais de 300 milhões de espetadores. E creio que o Miguel provou que o motociclismo é já uma modalidade muito acompanhada pelos portugueses, o que faz do Miguel uma exceção.  

Quanto à evolução, penso     que está à vista o que o Miguel Oliveira alcançou e que nunca outro piloto português havia conseguido, o que demonstra que nós portugueses com os mesmos meios somos tão competitivos como qualquer outro.

Penso que em grande parte a responsabilidade de não termos mais e bons pilotos, deve-se à federação de motociclismo, que nunca colocou meios à disposição para o desenvolvimento da prática da disciplina de velocidade, ao contrário dos espanhóis, como por ex: escolas de iniciação, informação, parcerias, equipas, etc. Em Portugal quem se quer iniciar como piloto, tem de ser próximo de quem pratica a modalidade caso contrário não tem conhecimento. Penso que deveria haver mais informação até porque é fundamental para encontrar patrocinadores.

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