Mathieu Baumel, como muitos outros, de regresso: “motorsport não é para fracos”
São vários os fatores que ajudam a explicar por que um piloto que sofreu um acidente grave, não só decide regressar às corridas, mesmo enfrentando dor, limitações físicas e risco aumentado, como o quer fazer o mais rapidamente possível. O mais recente caso é o de Mathieu Baumel. Mas no passado, muitos outros fizeram caminhos semelhantes.
A literatura da psicologia do desporto, da psicologia do risco e alguns estudos específicos sobre desportistas lesionados permitem apontar alguns eixos principais para esta vontade comum à grande maioria.
Para muitos pilotos, o desporto motorizado não é apenas uma profissão, é o núcleo da identidade pessoal e social. Deixar de competir pode ser vivido como “perder quem se é”, o que gera sofrimento emocional tão intenso quanto o medo do acidente. Além disso, há uma dimensão de carreira: anos de investimento, contratos, patrocínios e uma janela temporal curta de oportunidade fazem com que a interrupção definitiva seja sentida como um “fim prematuro”, o que motiva o regresso apesar dos riscos.
Procura de sensação e aceitação do risco
Vários estudos mostram que pessoas com forte interesse em corridas e condução de alto desempenho tendem a pontuar mais alto em “sensation seeking”, isto é, a necessidade de experiências intensas e de forte estímulo: ‘adrenaline junkies’, dizem alguns…
Nestes indivíduos, o risco é percebido de forma diferente: ou é subestimado ou, mesmo sendo reconhecido, é aceite como um “preço” natural a pagar pela experiência e pela realização competitiva. Em pilotos de topo, esta tolerância ao risco é muitas vezes reforçada por anos de exposição repetida a situações-limite sem consequências fatais, o que reduz a perceção subjetiva de perigo.
Resiliência, crescimento pós-traumático e controlo
A investigação com atletas lesionados mostra que um trauma físico pode, em alguns casos, conduzir a “crescimento pós-traumático”: maior sensação de força pessoal, nova apreciação da vida e redefinição de objetivos. O regresso pode funcionar como forma de recuperar o sentido de controlo (“não foi o acidente que decidiu a minha vida, fui eu”) e de evitar que o medo passe a dominar o comportamento. Muitos atletas reportam que o maior sofrimento não é o medo de um novo acidente, mas a sensação de perda de objetivos e de lugar no meio competitivo.
Pressão externa, contexto económico e apoio psicológico
Também existem fatores externos: equipas, patrocinadores, media, família e adeptos podem, de forma explícita ou implícita, reforçar a expectativa de regresso, sobretudo quando o piloto é visto como peça-chave de um projeto. A isto soma‑se o contexto económico: poucos desportistas de elite têm alternativas de carreira tão recompensadoras fora do seu desporto, o que aumenta a motivação para “tentar outra vez”.
Ao mesmo tempo, a psicologia do desporto tem vindo a ganhar peso no acompanhamento destes casos, trabalhando medo, ansiedade, flashbacks, e ajudando a reconstruir confiança através de técnicas como treino mental, reestruturação cognitiva, exposição gradual ao contexto competitivo e suporte social estruturado.
Em termos psicológicos, o regresso após um acidente grave resulta de uma combinação de identidade profissional, procura de sensação, tolerância ao risco, necessidade de controlo sobre a própria narrativa de vida, pressão/contexto externo e apoio especializado que permite transformar o trauma em motivação. Cada piloto é um caso, mas estes mecanismos ajudam a compreender porque é que, mesmo depois de um choque sério, muitos continuam a escolher alinhar na grelha.
O que distingue o regresso de Baumel
O caso de Mathieu Baumel é particularmente extraordinário porque se trata de uma amputação permanente: ao contrário de muitos (como Niki Lauda ou Robert Kubica, por exemplo), Baumel não pode recuperar totalmente a integridade física. A sua volta exige adaptação tecnológica radical. E logo na ‘grande aventura’ que é o Dakar: a prova é considerada uma das mais exigentes do mundo. Não é um regresso a categorias menores, mas ao topo absoluto do desporto motorizado em termos de dificuldade.
É verdade que sendo navegador, não controla diretamente o carro mas é responsável por instruções críticas. A sua lesão afeta a mobilidade em situações de emergência (furos, reparações rápidas), tornando o desafio ainda mais técnico. A história do desporto motorizado demonstra que a determinação humana, apoiada por tecnologia adequada, pode vencer obstáculos aparentemente impossíveis. Baumel junta-se a uma linhagem de pilotos e navegadores que transformaram adversidade em inspiração.
Pilotos que regressaram após graves acidentes
A determinação de Mathieu Baumel não é única na história do desporto motorizado. Vários pilotos enfrentaram lesões graves e conseguiram regressar à competição, deixando legados de resiliência. Eis alguns exemplos notáveis:
Juan Manuel Fangio (Fórmula 1), lendário piloto argentino, sofreu um acidente, após conduzir a noite toda de Paris para Monza para uma corrida não oficial, onde competiu exausto. Perdeu o controlo do Maserati e foi projetado do carro, partindo o pescoço. Ficou em recuperação durante meses. Muitos pensaram que, dada a sua idade (já na casa dos 40), se retiraria. Pelo contrário, regressou para ganhar mais quatro títulos mundiais consecutivos entre 1954 e 1957, cimentando o seu estatuto de lenda.
Niki Lauda (Fórmula 1) é um dos casos mais icónicos. Em 1976, sofreu um grave acidente no Nürburgring que o deixou com queimaduras sérias no rosto e pulmões. Regressou apenas 42 dias depois para continuar a luta pelo título. A sua rápida recuperação é considerada quase um milagre médico e símbolo máximo de resiliência. Venceu os Mundiais de F1 de 1984 e 1985.
Alex Zanardi (Fórmula 1 e CART, WTCC): Zanardi perdeu ambas as pernas num acidente na Fórmula CART (série americana) em 2001. Apesar da dupla amputação, e depois de quase ter perdido a vida, não apenas regressou à competição, como voltou a vencer corridas com carros adaptados, no WTCC. É talvez o exemplo mais paralelo ao de Baumel, demonstrando que adaptação e determinação permitem regressos notáveis.
Robert Kubica (Fórmula 1 e WRC): Sofreu um grave acidente num rali em 2011 que o deixou com gravíssima lesão neurológica no braço direito, quase perdendo a vida, e tendo tido enorme risco de ficar sem o braço. Afastou-se da F1, mas regressou em 2019 à disciplina, vencendo anos depois as 24 horas de Le Mans, demonstrando que o regresso é possível mesmo com limitações permanentes.
Billy Monger (Fórmula 4 / Fórmulas de Promoção): Em 2017, durante uma corrida de F4 britânica em Donington Park, o jovem de 17 anos embateu violentamente na traseira de um carro parado na pista. O acidente resultou na amputação de ambas as pernas. Menos de um ano depois, “Billy Whizz” estava de volta num carro de F3 adaptado (acelerador no volante, travão com o coto da perna). Conseguiu pódios e vitórias, tornando-se uma inspiração moderna e seguindo os passos de Zanardi.
Mika Häkkinen (Fórmula 1): Nos treinos para o GP da Austrália de 1995, em Adelaide, um pneu rebentou e atirou o seu McLaren contra o muro a alta velocidade. Häkkinen sofreu uma fratura no crânio e engoliu a língua, tendo a vida salva por uma traqueostomia de emergência feita ainda na pista pelo Professor Sid Watkins. Ficou em coma vários dias. Voltou ao cockpit apenas alguns meses depois, antes do início da temporada de 1996. Não só recuperou a velocidade, como viria a conquistar dois campeonatos mundiais (1998 e 1999) face, entre outros a Michael Schumacher.
Ari Vatanen (Ralis / WRC): No Rali da Argentina de 1985, o seu Peugeot 205 T16 capotou a altíssima velocidade. O banco partiu-se, e Vatanen sofreu fraturas múltiplas nas costelas, vértebras e joelhos, além de graves lesões internas. O seu coração parou duas vezes, mas recuperou, lutou pela vida e enfrentou uma depressão severa durante a recuperação. Demorou 18 meses a recuperar, mas voltou. Embora não tenha ganho outro título do WRC, reconverteu-se aos Rali-Raids e venceu o Rali Dakar quatro vezes.
Felipe Massa (Fórmula 1): Na qualificação para o GP da Hungria de 2009, uma mola soltou-se do carro de Rubens Barrichello e atingiu o capacete de Massa a cerca de 260 km/h. O impacto fraturou-lhe o crânio acima do olho esquerdo e deixou-o em coma induzido. Após uma cirurgia muito delicada e implantação de uma placa de titânio no crânio, Massa voltou à Ferrari em 2010. Quase venceu o GP no seu regresso (no Bahrein) e continuou a correr na F1 até 2017, competindo depois na Fórmula E.
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