Não sou um especialista do design, nem percebo nada do tema. Apenas sei, como o comum dos mortais, o que aos meus olhos me parece fazer sentido. O que me atrai, o que é bonito.
Longe de mim impor as minhas preferências, mas creio não estar sozinho se disser que as decorações com as cores da Martini, dos Porsche e Lancia Beta Montecarlo que participaram nas 24 Horas de Le Mans aos 037 e Delta que somaram títulos no Campeonato do Mundo de Ralis fazem parte desse leque, cumprindo na perfeição o que se pretendia originalmente quando foram lançadas: primeiro, criar notoriedade de marca; segundo, deixá-las na memória de todos os que as viram.
Acredito que continuarei a não estar longe da verdade se disser que a McLaren e a Penske estarão sempre associadas à Marlboro, com a primeira a manter inclusive elementos do ‘Marlboro Red’ nas suas cores, mesmo quando a West e a Vodafone substituíram a tabaqueira do grupo Philip Morris para se assumirem como principais patrocinadores. E o mesmo com o John Player Special da Lotus, casos isolados como o BMW M1 da BASF ou os diversos carros de corrida da Bastos.
Todos estes exemplos personificam esquemas de cores icónicos que ficarão para sempre na memória dos adeptos das corridas, e que servirão para mostrar aos mais novos como era possível criar esta ligação e entusiasmo com o desporto motorizado. O que nos traz para a recém-apresentada decoração da Renault (maioritariamente negra), o cinza esperado da Haas F1 Team – escolha em anos recentes da Sauber, da antiga Spyker (ex-Jordan) e da McLaren, neste caso desde 2015, quando aquele prateado que surpreendeu o mundo em 2006: a) deixou de mostrar na perfeição os patrocinadores; b) confundia-se com a Mercedes apesar de os alemães terem sido substituídos pela Honda – e um certo teor monocromático e amorfo (o que dizer das novas cores da Toyota, Audi e da própria Porsche no WEC, que, excepção feita às 24 Horas de Le Mans, também optou por um esquema sem brilho) que abrange o automobilismo no seu todo.
O que se passou então? Qual o motivo para as marcas e as equipas estarem cada vez mais distanciadas da importância do cariz visual do que nos é apresentado e da velha máxima de que devemos agradar aos olhos porque estes é que determinam o impulso de compra, o fanatismo, a atenção e a curiosidade?
Peter Steven, um dos mais reputados designers britânicos do mundo automóvel e industrial, diz que deixou de se ter em consideração as linhas dos carros, o que nos leva a perguntar se quem toma estas decisões são apenas os departamentos de marketing das equipas/patrocinadores ou se efetivamente alguém que – ao contrário de mim – perceba realmente do assunto chega a ser ouvido. Também não ajuda que dirigentes como Ron Dennis, pessoas com a máxima responsabilidade e interesse em criar uma imagem de culto dos seus produtos, digam coisas como “as cores não ajudam a tornar os carros mais rápidos” ou “qual o propósito de criar um design esteticamente aprazível?”, alguns dos impropérios que foram disseminados na comunicação social depois de muitos fãs terem criticado a primeira decoração da nova parceria McLaren-Honda.
Para quem não sabe, Peter Steven foi responsável por criar as cores da Brabham a partir de 1978, o último ano em que a equipa foi patrocinada pelo vermelho da Martini. Nessa época, a grande maioria dos telespectadores assistia à emissão a preto e branco. E foi aí que Steven reparou que, na caixa mágica quadrada, o monolugar da equipa tinha um aspeto totalmente diferente quando visto numa televisão a preto e branco e noutra a cores. Essa sua experiência permite-lhe analisar com precisão o que está a falhar nas decorações modernas, neste caso tendo por base os atuais carros da Fórmula 1. A descrição, do início de 2015, é longa. Mas vale a pena. Veja por si e depois diga-nos se concorda com esta análise:
Quando me pediram para trabalhar nas cores e no grafismo dos carros de Fórmula 1 da Brabham, estes eram na sua maioria vermelhos com linhas e números brancos, azul claros e azul escuros. Durante essa primeira temporada, 1978, fiquei surpreendido como o carro era tão diferente numa televisão a cores quando comparado com o que se via numa televisão a preto e branco. Portanto no final desse ano comprei uma pequena televisão a preto e branco para experimentar com as combinações que melhor resultariam neste tipo de ecrãs. O preto, branco e amarelo funcionavam bem, como o azul escuro e o branco.
A Renault já estava a usar o amarelo com o preto, portanto propus à Brabham que utilizássemos o azul escuro com o branco. Uma identidade que ficaria para a história como a “Parmalat Brabham”.

O único objetivo da identidade gráfica de um carro de corridas é dar exposição às companhias que patrocinam uma determinada equipa, concretizando a teoria de que, ao apresentar uma imagem forte e uma identidade gráfica na televisão a cada duas semanas, uma marca irá tornar-se familiar para os seus espetadores, e estes irão depois associá-la ao mundo requintado e sempre em movimento do desporto motorizado.
De forma a fazê-lo com sucesso, os espetadores têm de reconhecer o nome dos produtos nos carros. Isto pode ser feito através das riscas da Martini no Williams, por exemplo, ou por intermédio do logo muito forte do “touro” que a Red Bull utiliza nas suas duas equipas. Mas tal como a Fórmula 1 ainda não compreendeu a quantidade de aparelhos distintos que os jovens utilizam para ver as corridas e acompanhar as novidades do desporto, os patrocinadores também ainda não perceberam como os seus logos são indiferentes e pouco distintivos quando visualizados num ecrã de um smartphone ou de um tablet, por exemplo.
Muitos dos esquemas gráficos dos carros de Fórmula 1 de 2015 aparentam ter sido desenhados apenas com a vista lateral e frontal em mente. Quando as riscas coloridas cruzam superfícies sem terem em consideração o formato do carro, toda a imagem pode aparentar crua e rude. As riscas da Martini no Williams são um bom exemplo. A forma como elas caiem do topo da superfície e terminam nos suportes da asa da frente é simplesmente amadora.

A linha branca do Ferrari que separa o vermelho do preto parece ok numa perspetiva lateral, mas sem qualquer sentido a partir de outro ângulo. Assim que a quebra dessa linha, escondida numa visão lateral pela roda da frente, é visualizada, percebemos como é fácil falhar na arte de aplicar linhas numa forma tridimensional.
A Force India, por outro lado, estreou uma nova linha gráfica em 2015. Mas é demasiado complexa e a quantidade de nomes de patrocinadores pintados de branco na cobertura negra do motor assemelha-se quase a um exercício desesperado de procurar angariar o maior número possível de empresas e de outros patrocínios. Tudo é demasiado confuso. Pode parecer duro, mas se o patrocinador quer estar associado a um desporto moderno então a apresentação é tudo.
O Lotus de 2015, exceptuando o vermelho e branco do logo da PDVSA, tem um tema muito forte com o creme a ser utilizado tanto para o nome dos patrocinadores como para pequenos detalhes gráficos, como as riscas que o acompanham.

Ao contrário da Sauber, que escolheu um azul sem sabor como cor principal e depois aplicou o amarelo e branco do “Banco do Brasil” nas laterais. O espaço para patrocinadores num carro de Fórmula 1 é vendido a peso de ouro e consoante a sua localização; os departamentos de marketing podem ora ser criativos na forma como estes espaços são vendidos ou então rigorosamente inflexíveis. É clara qual a abordagem escolhida por eles!
A Mercedes esteve indecisa e já mostrou pelo menos três versões alternativas quanto ao aspeto final da cobertura do motor, e o mesmo acontece com o fundo verde atrás do Petronas que pinta os flancos laterais. É ponto assente que se uma companhia quer reforçar a força da sua imagem, esta indecisão aparente e constantes mudanças não é de todo a melhor forma de consegui-lo. Tens de ter confiança numa abordagem gráfica bem definida e depois repeti-la sem quaisquer modificações em todas as tuas mensagens. Isto parece ter sido esquecido.”
André Bettencourt Rodrigues

Fonte: www.cardesignnews.com

























