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Crónica: o que é feito da originalidade?

André Bettencourt Rodrigues by André Bettencourt Rodrigues
11 Outubro, 2016
in MAIS MOTORES
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Crónica: o que é feito da originalidade?

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Não sou um especialista do design, nem percebo nada do tema. Apenas sei, como o comum dos mortais, o que aos meus olhos me parece fazer sentido. O que me atrai, o que é bonito.

Longe de mim impor as minhas preferências, mas creio não estar sozinho se disser que as decorações com as cores da Martini, dos Porsche e Lancia Beta Montecarlo que participaram nas 24 Horas de Le Mans aos 037 e Delta que somaram títulos no Campeonato do Mundo de Ralis fazem parte desse leque, cumprindo na perfeição o que se pretendia originalmente quando foram lançadas: primeiro, criar notoriedade de marca; segundo, deixá-las na memória de todos os que as viram.

Acredito que continuarei a não estar longe da verdade se disser que a McLaren e a Penske estarão sempre associadas à Marlboro, com a primeira a manter inclusive elementos do ‘Marlboro Red’ nas suas cores, mesmo quando a West e a Vodafone substituíram a tabaqueira do grupo Philip Morris para se assumirem como principais patrocinadores. E o mesmo com o John Player Special da Lotus, casos isolados como o BMW M1 da BASF ou os diversos carros de corrida da Bastos.

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Todos estes exemplos personificam esquemas de cores icónicos que ficarão para sempre na memória dos adeptos das corridas, e que servirão para mostrar aos mais novos como era possível criar esta ligação e entusiasmo com o desporto motorizado. O que nos traz para a recém-apresentada decoração da Renault (maioritariamente negra), o cinza esperado da Haas F1 Team – escolha em anos recentes da Sauber, da antiga Spyker (ex-Jordan) e da McLaren, neste caso desde 2015, quando aquele prateado que surpreendeu o mundo em 2006: a) deixou de mostrar na perfeição os patrocinadores; b) confundia-se com a Mercedes apesar de os alemães terem sido substituídos pela Honda –  e um certo teor monocromático e amorfo (o que dizer das novas cores da Toyota, Audi e da própria Porsche no WEC, que, excepção feita às 24 Horas de Le Mans, também optou por um esquema sem brilho) que abrange o automobilismo no seu todo.

O que se passou então? Qual o motivo para as marcas e as equipas estarem cada vez mais distanciadas da importância do cariz visual do que nos é apresentado e da velha máxima de que devemos agradar aos olhos porque estes é que determinam o impulso de compra, o fanatismo, a atenção e a curiosidade?

Peter Steven, um dos mais reputados designers britânicos do mundo automóvel e industrial, diz que deixou de se ter em consideração as linhas dos carros, o que nos leva a perguntar se quem toma estas decisões são apenas os departamentos de marketing das equipas/patrocinadores ou se efetivamente alguém que – ao contrário de mim – perceba realmente do assunto chega a ser ouvido. Também não ajuda que dirigentes como Ron Dennis, pessoas com a máxima responsabilidade e interesse em criar uma imagem de culto dos seus produtos, digam coisas como “as cores não ajudam a tornar os carros mais rápidos” ou “qual o propósito de criar um design esteticamente aprazível?”, alguns dos impropérios que foram disseminados na comunicação social depois de muitos fãs terem criticado a primeira decoração da nova parceria McLaren-Honda.

Para quem não sabe, Peter Steven foi responsável por criar as cores da Brabham a partir de 1978, o último ano em que a equipa foi patrocinada pelo vermelho da Martini. Nessa época, a grande maioria dos telespectadores assistia à emissão a preto e branco. E foi aí que Steven reparou que, na caixa mágica quadrada, o monolugar da equipa tinha um aspeto totalmente diferente quando visto numa televisão a preto e branco e noutra a cores. Essa sua experiência permite-lhe analisar com precisão o que está a falhar nas decorações modernas, neste caso tendo por base os atuais carros da Fórmula 1. A descrição, do início de 2015, é longa. Mas vale a pena. Veja por si e depois diga-nos se concorda com esta análise:

“Há cerca de 30 anos pediram-me para desenvolver as identidades gráficas de muitos carros de corrida. Foi uma experiência muito engraçada, mas levava essa tarefa de forma muito séria. Nessa altura, a grande maioria das pessoas via o desporto em pequenas televisões a preto e branco. Obviamente que os espectadores das provas viam os carros a cores, mas esses eram pequenos milhares quando comparados com os milhões que não podiam ver as corridas a não ser pela televisão. 

Quando me pediram para trabalhar nas cores e no grafismo dos carros de Fórmula 1 da Brabham, estes eram na sua maioria vermelhos com linhas e números brancos, azul claros e azul escuros. Durante essa primeira temporada, 1978, fiquei surpreendido como o carro era tão diferente numa televisão a cores quando comparado com o que se via numa televisão a preto e branco. Portanto no final desse ano comprei uma pequena televisão a preto e branco para experimentar com as combinações que melhor resultariam neste tipo de ecrãs. O preto, branco e amarelo funcionavam bem, como o azul escuro e o branco. 

A Renault já estava a usar o amarelo com o preto, portanto propus à Brabham que utilizássemos o azul escuro com o branco. Uma identidade que ficaria para a história como a “Parmalat Brabham”.

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O único objetivo da identidade gráfica de um carro de corridas é dar exposição às companhias que patrocinam uma determinada equipa, concretizando a teoria de que, ao apresentar uma imagem forte e uma identidade gráfica na televisão a cada duas semanas, uma marca irá tornar-se familiar para os seus espetadores, e estes irão depois associá-la ao mundo requintado e sempre em movimento do desporto motorizado.

De forma a fazê-lo com sucesso, os espetadores têm de reconhecer o nome dos produtos nos carros. Isto pode ser feito através das riscas da Martini no Williams, por exemplo, ou por intermédio do logo muito forte do “touro” que a Red Bull utiliza nas suas duas equipas. Mas tal como a Fórmula 1 ainda não compreendeu a quantidade de aparelhos distintos que os jovens utilizam para ver as corridas e acompanhar as novidades do desporto, os patrocinadores também ainda não perceberam como os seus logos são indiferentes e pouco distintivos quando visualizados num ecrã de um smartphone ou de um tablet, por exemplo.

Muitos dos esquemas gráficos dos carros de Fórmula 1 de 2015 aparentam ter sido desenhados apenas com a vista lateral e frontal em mente. Quando as riscas coloridas cruzam superfícies sem terem em consideração o formato do carro, toda a imagem pode aparentar crua e rude. As riscas da Martini no Williams são um bom exemplo. A forma como elas caiem do topo da superfície e terminam nos suportes da asa da frente é simplesmente amadora.

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A linha branca do Ferrari que separa o vermelho do preto parece ok numa perspetiva lateral, mas sem qualquer sentido a partir de outro ângulo. Assim que a quebra dessa linha, escondida numa visão lateral pela roda da frente, é visualizada, percebemos como é fácil falhar na arte de aplicar linhas numa forma tridimensional.


A Force India, por outro lado, estreou uma nova linha gráfica em 2015. Mas é demasiado complexa e a quantidade de nomes de patrocinadores pintados de branco na cobertura negra do motor assemelha-se quase a um exercício desesperado de procurar angariar o maior número possível de empresas e de outros patrocínios. Tudo é demasiado confuso. Pode parecer duro, mas se o patrocinador quer estar associado a um desporto moderno então a apresentação é tudo. 

O Lotus de 2015, exceptuando o vermelho e branco do logo da PDVSA, tem um tema muito forte com o creme a ser utilizado tanto para o nome dos patrocinadores como para pequenos detalhes gráficos, como as riscas que o acompanham.

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Ao contrário da Sauber, que escolheu um azul sem sabor como cor principal e depois aplicou o amarelo e branco do “Banco do Brasil” nas laterais. O espaço para patrocinadores num carro de Fórmula 1 é vendido a peso de ouro e consoante a sua localização; os departamentos de marketing podem ora ser criativos na forma como estes espaços são vendidos ou então rigorosamente inflexíveis. É clara qual a abordagem escolhida por eles!

Ainda sem patrocinador principal, mas já com o apoio da Honda, a McLaren decidiu não utilizar o vermelho e branco corporativo da marca japonesa. O prateado foi substituído por um esquema de cores muito sombrio com apenas um toque do vermelho da marca. O logo da McLaren no topo dos flancos laterais é um segredo bem guardado que apenas estará visível num ecrã de televisão numa pista como o Mónaco, enquanto as riscas que se prolongam até ao topo do nariz realçam as linhas pouco fluídas do carro quando poderiam ter sido utilizadas para esconder aquele longo nariz quando visto de frente.
A Red Bull conseguiu reunir a atenção de muitos meios de comunicação social à conta do disfarce preto e branco que utilizaram nos testes de pré-temporada. Era difícil perceber quem eram os patrocinadores, mas a equipa conseguiu que muita gente falasse do aspecto do carro. O esquema definitivo não só é multicolor, é na realidade bastante diferente. Mas o foco da atenção continua a estar no enorme “Red Bull” que pinta a cobertura do motor. Na Toro Rosso, o destaque vai para o vermelho mais escuro e o dourado no nariz, o que é sempre complicado porque na televisão o dourado tende a assemelhar-se a lama consoante a exposição da luz.

A Mercedes esteve indecisa e já mostrou pelo menos três versões alternativas quanto ao aspeto final da cobertura do motor, e o mesmo acontece com o fundo verde atrás do Petronas que pinta os flancos laterais.  É ponto assente que se uma companhia quer reforçar a força da sua imagem, esta indecisão aparente e constantes mudanças não é de todo a melhor forma de consegui-lo. Tens de ter confiança numa abordagem gráfica bem definida e depois repeti-la sem quaisquer modificações em todas as tuas mensagens. Isto parece ter sido esquecido.”

André Bettencourt Rodrigues

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Fonte:  www.cardesignnews.com

 

Tags: BrabhamCampeonato do Mundo de F1Campeonato do Mundo de Fórmula 1F1Ferrariforce indiaFormula 1Haas F1 TeamLanciaMartiniMcLarenMercedesPeter StevenRalisRed BullSauberToro Rosso
André Bettencourt Rodrigues

André Bettencourt Rodrigues

Apaixonado por automóveis e corridas de automóveis. Adora estradas de montanha, o cheiro da gasolina e motores ruidosos.

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