António Peixinho: “Pode falar comigo? Você deve…”

Por a 14 Fevereiro 2026 09:44

Para que se perceba um pouco melhor quem era António Peixinho, uma personagem que o desporto motorizado luso acabou de perder, atente-se na história a seguir, recontada, passada no Caramulo Motorfestival de 2016.

Estava encostado à vedação do paddock do Caramulo, bloco na mão, a ver os clássicos subirem a rampa, quando vi aproximar-se devagar, mãos nos bolsos, sorriso de quem já viu tudo na estrada, António Peixinho..

“Bela oportunidade”, pensei. O coração acelerou um pouco – aquele era o António Peixinho, não um qualquer nome da lista de inscritos. Dei dois passos à frente, quase a tropeçar num cabo, e soltei a pergunta mais banal de sempre:

“Sr. Peixinho, posso falar um bocadinho consigo?”

Ele nem hesitou. Virou‑se, levantou as sobrancelhas e atirou, com um sorriso maroto: “Pode falar comigo? Você deve.”

Foi como se abrisse uma torneira. Enquanto falava, os olhos dele ganhavam brilho sempre que recuava no tempo. Quando recordou a travessia Luanda–Lourenço Marques, quase o vi outra vez ao volante: as mãos mexiam no ar como se procurassem o volante, o corpo, curiosamente inclinava‑se ligeiramente para a frente.

“Quatro mil quilómetros, 1971… os tipos que iam comigo nem sabiam guiar”, disse, rindo. Eu só pensava: “Como é que se conta isto em meia página?”

Quando falou do Lola T 212, o tom mudou. As mãos descreveram a travagem, os dedos cerraram‑se como se quisessem agarrar a inércia. Não disse “tive medo”, mas a pausa, o olhar para o chão e o “tínhamos que habituar os órgãos” diziam tudo.

Na história do Ferrari GTO debaixo de chuva, o meu ombro desceu, quase cansado só de imaginar: nunca se tinha sentado no carro, os mecânicos a avisar “não pomos as mãos no motor” e ele a encolher os ombros, como se fosse apenas mais um domingo.

Quando, no fim, chamou aos Lacerda “os homens da montanha”, limitou‑se a olhar para a encosta e a acenar com a cabeça. Eu apertei ainda mais o bloco, com aquela sensação estranha de que uma tarde de festival se tinha transformado, sem aviso, numa aula de história viva.

António Peixinho foi um dos convidados presentes no Caramulo Motorfestival e o AutoSport aproveitou a ocasião para estar à conversa com um piloto que esteve cerca de 14 anos de competição, contando-se participações em provas como o Circuito da Fortaleza e Montes Claros, Rali das Rias Bajas ou Grande Prémio de Angola.

O piloto foi sempre muito acarinhado, e no Caramulo nesse dia não foi diferente, com muitos sorrisos de admiração e respeito da parte de quem com ele se cruzou.

Confessou ainda não seguir atualmente o desporto automóvel, ao ter-se “cansado depois de tantos anos no ativo”, revelou ter “uma grande honra no meio de tudo isso, porque só conquistei amizades, nunca tive nenhuma quezília com nenhum concorrente, alguns eram adversários numa prova e depois parceiros de equipa noutra, de maneira que foi uma época muito agradável”.

Algum tempo depois, António Peixinho foi homenageado no Estoril, na corrida de 250 km da Historic Endurance de 2016. A prova teve o nome especial de Troféu António Peixinho, com o antigo piloto a reencontrar o Alfa Romeo 2000 com que estabeleceu o recorde na ligação Luanda-Lourenço Marques.

O carro foi conduzido durante a prova pelos seus pilotos habituais na Historic Endurance, Miguel Valle e Gonçalo Silva.

António Peixinho conheceu os seus maiores sucessos em Angola, durante a fase em que as estas corridas recebiam convidados internacionais, vencendo várias provas ao volante do Alfa Romeo 33/2 e depois do Lola T292, ganhando provas como as 6h de Nova Lisboa e 500 km de Benguela.

NB

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