Já vi por aí diversas vezes escrito que “se fosse hoje, o GP de Portugal de 1985 e a vitória histórica de Ayrton Senna nunca teriam acontecido”. É verdade, provavelmente não. Mas há tanta coisa que mudou na vida de 1985 para cá, e também no desporto motorizado.
Sem me alongar muito, coloco só um pormenor para fazer as pessoas pensar.
Alguma vez é possível comparar o ‘spray’ dos F1 de 1985 para 2021, e o que o difusor e os pneus ‘atiram’ para trás hoje em dia comparado com o passado? Existe comparação possível do que é correr de F1 em 1985 e 2021?
Se me falarem de Fuji 2007, como exemplo, ainda vá, porque é muito mais aproximado ao que sucede hoje em dia em termos de ‘spray’ e visibilidade, mas como já escrevi noutro lado, a bela luta que se viu entre Robert Kubica e Felipe Massa, provavelmente hoje não sucederia, porque não seria permitido correr naquelas condições.
É óbvio que são imagens espetaculares, aconteceram, desfrute-se delas, mas dá-las como exemplo, só se for para dizer que não devia ter sido realizada aquela corrida. E algumas outras.
Eram outros tempos, havia outra forma de olhar para as coisas. Pois havia. Eu também estive em Sintra 1986 no Rali de Portugal, vibrei com aquilo tudo, até saber do acidente, e a partir daí ganhei uma consciência que não tinha e depois disso passei como espectador por centenas de ralis sem o mínimo problema. Mas não me esqueço do que vivi naquela altura e do que era aquele entusiasmo.
Há muita coisa que era tolerada no passado que hoje em dia não cabe na sociedade. Há alguns exageros, é verdade, mas regra geral, ter demasiado cuidado na decisão se uma corrida é realizada ou não, ou mesmo um treino, não é demais. Lembra-se da frase do ano passado “e se corre bem?” Eu contraponho com a “e se corre mal?”
Veja-se a qualificação de Spa. Lando Norris disse pouco antes de se despistar que era muito fácil fazer aquaplaning e Sebastian Vettel gritou “parem isto antes que seja tarde…” Depois foi o que se viu…
Não tenho a mais pequena dúvida que a corrida de ontem nunca poderia ter acontecido naquelas condições, e quem vai buscar o passado para justificar o presente está totalmente enganado. Não faz sentido nenhum.
Quem ‘gozou’ esse passado, e eu também, que o guarde na memória. Mas eu lembro-me de como estavam as condições no GP do Japão de 2014, e o que sucedeu a Jules Bianchi. Se esse exemplo não serve para muita gente, devia servir.











