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Kimi Raikkonen: O Campeão improvável de 2007


No Mundial de Fórmula 1 de 2007 a corrida que tudo decidiu, o GP do Brasil, teve três candidatos, e só na volta de desaceleração, depois da bandeirada de xadrez permitiu a Kimi Raikkonen saber que era ele o Campeão. Recordamos a decisão do Mundial de 2007.

A vitória de Kimi Raikkonen no Campeonato do Mundo de Fórmula 1 veio repor a mais elementar justiça na carreira do piloto finlandês. Batido na última corrida por Michael Schumacher em 2003, num ano em que a McLaren perdeu tempo e dinheiro com o projeto do nado-morto que foi o MP4/18, Kimi Raikkonen voltou a ser batido nos últimos metros do Mundial de 2005, desta vez por Fernando Alonso, numa temporada onde a falta de fiabilidade do seu McLaren-Mercedes lhe retirou a possibilidade de chegar ao título.

Da terceira vez em que se viu envolvido na luta pelo título mundial, e num ano onde nem sequer teve o melhor monolugar nas suas mãos, Kimi Raikkonen acabou por se sagrar Campeão do Mundo, entrando por direito próprio nesta lista dos melhores pilotos da história, ele que sempre demonstrou um talento e uma determinação muito acima da média.

Michael Schumacher, que não é de se impressionar facilmente, ficou tão espantado com o desempenho daquele jovem saído da Fórmula Renault para um teste com a Sauber no Mugello, que não perdeu tempo e aconselhou logo Peter Sauber a oferecer-lhe um contrato a longo prazo. Foi o que o suíço fez mas Raikkonen só esteve um ano ao seu serviço, rumando de imediato à McLaren, o que permitiu à Sauber receber a maior compensação da história da Fórmula 1: 25 milhões de dólares.

Uma medida do valor de Raikkonen após apenas uma temporada na Fórmula 1, mas os seus cinco anos ao serviço de Ron Dennis foram mais frustrantes do que exaltantes, tantas as oportunidades perdidas ao longo daquelas temporadas. Não deixa de ser irónico que foi no ano em que Raikkonen abandonou a McLaren que a equipa de Woking recuperou a fiabilidade dos seus carros, mas o resultado final acaba por fazer vingar a opção do nórdico, que há muito admirava a organização e fiabilidade da Ferrari, ao ponto de ter assinado com a equipa de Maranello 22 meses antes do início do Mundial deste ano, quando até pensava que seria Michael Schumacher o seu companheiro de equipa.

Na Ferrari o finlandês foi surpreendido pelo apoio à volta de Felipe Massa, protegido de Jean Todt, mas nunca respondeu às muitas críticas e acusações que lhe foram feitas internamente – das mais legitimas às mais absurdas – com palavras. Foi na pista, com vitórias categóricas e um andamento sempre em crescendo que o finlandês falou, nunca se envolvendo em polémicas nem com Todt, nem com os seus adversários diretos, mesmo quando os acontecimentos em pista justificariam algumas palavras mais azedas. Ontem Kimi Raikkonen juntou-se a Keke Rosberg e Mika Hakkinen na galeria dos Campeões do Mundo finlandeses, corrigindo o que era uma injustiça do destino e mostrando-se um digno sucessor de Michael Schumacher na Ferrari.

O dia perfeito de Kimi Raikkonen
Piloto azarado, eu? Kimi Raikkonen acabou com a sua reputação de piloto sem sorte no Grande Prémio do Brasil, num dia em que fez tudo certo e acabou por beneficiar do infortúnio de Lewis Hamilton para conseguir um título em que quase ninguém acreditava.
A Superioridade da Ferrari na pista de Interlagos ficou claramente à vista de todos desde as primeiras voltas da corrida de ontem. Com Massa na frente e Raikkonen a superar Hamilton na primeira curva, a equipa italiana estava a fazer o máximo que lhe era possível para dar o título ao piloto finlandês. Mas isso só não chegava e acabou por ser necessária a ajuda da sorte para que Raikkonen conquistasse o seu primeiro título mundial, com apenas um ponto de vantagem sobre Hamilton e Alonso, no final mais cerrado da história do Mundial de F1. Primeiro foi um erro de Hamilton, logo na primeira volta, que melhorou as perspetivas de Raikkonen, mas o momento decisivo da corrida e do Mundial acabou por acontecer na oitava volta, quando um problema electrónico fez com que o comando da caixa de velocidades do McLaren do inglês deixasse de funcionar, atrasando-o de forma definitiva na classificação.

Daí para a frente, com Alonso claramente incapaz de acompanhar os Ferrari, já se sabia que Massa teria de deixar Raikkonen passar para dar o título ao finlandês, mas o novo Campeão do Mundo não precisou da ajuda do seu companheiro de equipa. Parando três voltas mais tarde no derradeiro reabastecimento, Raikkonen fez o suficiente para regressar à pista na frente da corrida, ganhando com mérito tanto a corrida como o Campeonato. Massa mereceu a ovação com que foi brindado pelos seus compatriotas, mas tanto ontem como no balanço do ano acabou por mostrar que não está, ainda, ao nível do seu companheiro de equipa. «A minha vida não vai mudar!» Nada dado a grandes manifestações públicas, Kimi Raikkonen acabou por falar bastante mais do que lhe é habitual no final da corrida: «Este é um dia extraordinário para mim, como podem imaginar. Fiz tudo o que podia fazer para chegar ao título, mas também sabia que as coisas não dependiam só de mim. Fiz um bom arranque, passei o Lewis na travagem para a primeira curva e, depois, vi num ecrã gigante que ele tinha saído de pista no final da reta grande. A partir daí as minhas possibilidades aumentaram um pouco, mas foi quando ele teve o seu problema, um pouco mais tarde, que as coisas se compuseram. Poupei os pneus, pois até podia ter sido um segundo por volta mais rápido, mas havia que esperar até ao final da corrida para ver em que lugar o Lewis terminava, pois ele poderia sempre recuperar.

Por isso na volta de regresso às boxes fui agradecendo à equipa, mas só quando me confirmaram que ele tinha ficado em sétimo lugar é que festejei o título. Sei que vou estar no centro da atenção mediática, já estou à espera que escrevam mais disparates acerca da minha vida privada, mas não me importo. Vivo da maneira que quero, não vou mudar a minha maneira de ser e de atuar e agora vamos é festejar este título.»

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Derrota cruel para Hamilton
Lewis Hamilton perdeu um campeonato que parecia estar no seu bolso depois da vitória em Fuji há três semanas. Um erro na primeira volta, quando tentou recuperar a posição perdida para Alonso na segunda curva, começou por lhe complicar a vida, mas foi um problema com o comando eletrónico da caixa a meio da oitava volta que acabou por ser fatal. O inglês caiu para a 18ª posição, depois de ter perdido quase 30 segundos enquanto fazia, por duas vezes, o “reset” da programação eletrónica do McLaren, e daí para a frente ficou com uma tarefa hercúlea entre mãos. Com a equipa a optar por mudar a sua estratégia para três paragens, na tentativa de o colocar fora de sequência com os pilotos com quem pretendia lutar na fase final da corrida, rodando com pista livre sem ter de se envolver em grandes lutas, Hamilton viu-se a uma volta dos primeiros e apesar de ter rodado normalmente mais rápido que Alonso, só recuperou até à sétima posição, dois lugares atrás do que necessitava para chegar ao título no seu ano de estreia. A sua desolação no final da corrida era evidente, mas no seu estilo habitual o jovem inglês tentou encontrar aspetos positivos para salientar num momento de enorme deceção: «É claro que não estou satisfeito, porque cheguei aqui determinado a ganhar o campeonato, mas não vamos fazer um drama disto. Tive um ano de estreia fantástico, ganhei quatro corridas e fiquei a um ponto do campeão. Estas coisas acontecem. Venha 2008, que mal posso esperar!» Já Fernando Alonso esteve sempre longe dos Ferrari para poder aspirar ao título. O espanhol necessitava de terminar imediatamente atrás de Raikkonen caso este concluísse a prova num dos dois primeiros lugares, mas foi perdendo segundos sobre segundos desde muito cedo, deixando bem claro que não tinha andamento para os F2007. A enorme degradação dos seus pneus traseiros acabou por lhe limitar as aspirações, mas Alonso também deu a ideia de se conformar muito cedo com a sua sorte, limitando-se a esperar que algo acontecesse a Raikkonen. No final, o espanhol tentou mostrar-se animado, evitando mais polémicas com a McLaren, mas acabou por admitir que a forma de trabalhar da equipa lhe custou o título: «Tenho a certeza que a McLaren deu sempre material igual aos dois pilotos, mas não tenho a certeza que essa seja a forma mais correta de trabalhar. Se tivessem apostado num piloto tenho a certeza que o resultado final do Mundial seria outro. Mas esta foi uma temporada de grande sucesso para nós, pois ganhei quatro corridas quando no ano passado a McLaren não tinha conseguido, sequer, uma vitória. Tivemos um carro excelente, conseguimos vitórias muito importantes, mas perdemos o título.» Quanto ao seu futuro com a McLaren, Alonso esquivou-se a comentários, dizendo apenas que, «este resultado não vai mudar nada em relação ao que vou fazer em 2008»

Grande corrida de Rosberg
Nico Rosberg foi a outra grande vedeta da corrida, com uma prova sempre ao ataque que lhe valeu o melhor resultado da sua carreira, com o quarto lugar final. O filho de Keke Rosberg mostrou o espírito combativo que caracterizava o seu pai, com duas ultrapassagens de grande risco e coragem para merecer em pleno o seu quarto posto final. Beneficiando duma estratégia menos agressiva que a dos seus rivais mais diretos, o jovem piloto alemão manteve-se na luta pelos lugares pontuáveis nas primeiras voltas e, à medida que os seus adversários foram parando mais cedo foi subindo na classificação. Rapidamente se viu que a sua luta seria contra os dois BMW, pois Kubica tinha passado para uma estratégia com três paragens, mas havia que manter Trulli em respeito. Sem cometer o mais pequeno erro Rosberg acabou mesmo por apanhar Heidfeld a dez voltas do final, tendo já Kubica atrás de si, proporcionando os melhores momentos da corrida nessa fase final da prova. A ultrapassagem ao seu compatriota foi demasiado arrojada e acabou por custar aos dois a ultrapassagem por Kubica, mas o piloto da Williams não baixou os braços, atacou imenso e acabou por bater o seu rival e amigo com mais uma grande ultrapassagem a três voltas do final da corrida. Erro de principiante Destaque também para o estreante Kazuki Nakajima, que cometeu um erro de principiante no seu primeiro reabastecimento, quando falhou a travagem e acabou por atropelar dois dos seus mecânicos. De resto o japonês esteve impecável, lutou contra pilotos muito mais experientes sem cometer erros na pista e terminou entre os dez primeiros.

Pos N° Piloto Carro/Motor Volta Tempo/Dif.
1 6 Kimi RAIKKONEN Ferrari Ferrari 71 1h 28m 15.270s ( 207.973 km/h )
2 5 Felipe MASSA Ferrari Ferrari 71 1h 28m 16.763s ( +01.493s )
3 1 Fernando ALONSO McLaren Mercedes 71 1h 29m 12.289s ( +57.019s )
4 16 Nico ROSBERG Williams Toyota 71 1h 29m 18.118s ( +1m 02.848s )
5 10 Robert KUBICA BMW Sauber BMW 71 1h 29m 26.227s ( +1m 10.957s )
6 9 Nick HEIDFELD BMW Sauber BMW 71 1h 29m 26.587s ( +1m 11.317s )
7 2 Lewis HAMILTON McLaren Mercedes 70
8 12 Jarno TRULLI Toyota Toyota 70
9 14 David COULTHARD Red Bull Renault 70
10 17 Kazuki NAKAJIMA Williams Toyota 70
11 11 Ralf SCHUMACHER Toyota Toyota 70
12 22 Takuma SATO Super Aguri Honda 69
13 18 Vitantonio LIUZZI Toro Rosso Ferrari 69
14 23 Anthony DAVIDSON Super Aguri Honda 68
NT 20 Adrian SUTIL Spyker Ferrari 43 Travões
NT 8 Rubens BARRICHELLO Honda Honda 40 Motor
NT 4 Heikki KOVALAINEN Renault Renault 35 Acidente
NT 19 Sebastian VETTEL Toro Rosso Ferrari 34 Hidráulica
NT 7 Jenson BUTTON Honda Honda 20 Motor
NT 15 Mark WEBBER Red Bull Renault 14 Transmissão
NY 21 Sakon YAMAMOTO Spyker Ferrari 2 Acidente
NT 3 Giancarlo FISICHELLA Renault Renault 2 Acidente

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