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John Surtees: O único Campeão Mundial em 2 e 4 rodas | AutoSport

John Surtees: O único Campeão Mundial em 2 e 4 rodas

Por a 11 Fevereiro 2024 18:25

John Norman Surtees é o único piloto no Mundo a ter conquistado títulos de Campeão do Mundo tanto em duas, como em quatro rodas. No total, Surtees ostenta oito coroas de campeão, sete delas no motociclismo – todas elas resultado de uma bravura excecional e de enormes qualidades de pilotagem nos limites. Celebraria hoje os seus 90 anos.

Surtees foi o mais velho dos três filhos de Jack, dono de uma oficina no sul de Londres e que tinha sido um reputado piloto local… mas nas três rodas, vencendo por três vezes o título nacional de “side cars”, com chassis Vincent. Num desses anos, acompanhou o pai, no banco do lado, numa das corridas que ele ganhou mas, quando foi descoberta a sua tenra idade do ocupante, a dupla foi desqualificada!

Vencer nas duas…

Mas, recuando um pouco, não resultou estranho que tivesse a sua primeira moto aos 11 anos e que, com 15, fizesse já algum dano nas corridas de “grass track”, pistas ovais tradicionais na Inglaterra e cujo isso era feito em… relva! Aos 16, deixou mesmo a escola básica, para se dedicar por inteiro às corridas, começando por um emprego de aprendiz na fábrica da Vincent. Um ano mais tarde, correu pela primeira vez a solo… e ganhou! A primeira vez que as luzes da ribalta o focaram foi em 1951: nesse ano, humilhou a estrela da Norton, Geoff Duke, em Thruxton. Isso deixou espantado o lendário chefe de mecânicos da marca, Joe Craig – que, em 1955, lhe ofereceu a primeira oportunidade como piloto oficial da Norton; até ao final esse ano, voltou a bater Duke, então o Campeão do Mundo em título, em Silverstone e Brands Hatch e, com esta marca, venceu 68 das 76 corridas em que participou. Em 1956, assinou com a MV Agusta, quando percebeu que a Norton enfrentava graves problemas financeiros e, até 1960, ganhou sete títulos de Campeão do Mundo. O primeiro, logo nesse ano de estreia e à primeira tentativa, nas 500cc. Depois, entre 1958 e 1960, quando a Gilera e a Moto Guzzi abandonaram a competição, dominou totalmente a cena das 350cc e 500cc. Com a MV Agusta, ganhou 22 dos 30 GP de 500cc em que participou. Surtees foi o primeiro piloto a vencer o Senior TT, na mortífera Ilha de Man, três anos seguidos. Então, com 26 anos, decidiu que era tempo de duplicar de rodas e passar a outro desafio: os automóveis.

… E nas quatro rodas

A paixão pelas quatro rodas nasceu de forma suave e quase, digamos, “normal”: em 1959, famoso, aceitou o desafio de arrojados caçadores de talentos para fazer alguns testes em monolugares. O talento que mostrara, com enorme sucesso, nas motos, manteve-se intacto nos automóveis. De tal forma que, na primeira corrida que efetuou, num Cooper de F3 inscrito por um tal Ken Tyrrell, em Goodwood, deu que fazer ao vencedor, terminando mesmo colado aos escapes do seu… Lotus. Pois, isso mesmo: o vencedor chamava-se Jim Clark e, de imediato, Colin Chaman lhe deitou a mão, propondo-lhe participar em quatro corridas do Campeonato do Mundo de F1 de 1960.

Nesse ano, ainda correu – e venceu dois títulos, nas 350cc e 500cc – no Mundial de Motociclismo. Mas, depois de ter ficado em 2º lugar no GP da Grã-Bretanha de F1 e quase vencer o de Portugal, Surtees decidiu colocar um ponto final na sua carreira nas duas rodas e entregar-se de corpo e alma à F1. John Surtees, na “silly season” desse ano, viu-se a braços com várias propostas de conceituadas equipas de F1, entre elas a Lotus, com Chapman verdadeiramente rendido ao seu talento e à sua coragem. Contudo, Surtees não aceitou e, nos dois anos seguintes, correu, com um Cooper T53/Climax e Lola Mk4/Climax V8, da equipa privada Yeoman Racing Team, sem grande sucesso, em termos de resultados. Já o mesmo não pode ser dito quanto a tenacidade e brilhantismo e, pro isso, não é de estanhar que tenha sido convidado pela principal equipa italiana de automóveis, a Ferrari, para participar no Mundial de F1 a partir de 1963. Ironicamente, tal como nas duas, com a MV Agusta, também nas quatro John Surtees estava destinado a ser uma estrela na difícil Itália, sempre tão exigente com os pilotos em defesa das suas cores, no desporto motorizado, tivesse ele quantas rodas tivesse!

Na Ferrari, o “comendatore” expressou a sua admiração pela paixão e pelo espírito combativo demonstrado pelo antigo ás da MV Agusta oferecendo-lhe o lugar de primeiro piloto, logo em 1963. E, logo nesse primeiro ano, Surtees agradeceu a deferência, vencendo o seu primeiro Grande Prémio de F1, na Alemanha e terminando em 4º lugar o campeonato. Em 1964, conquistou aquele que iria ser o seu único título nos automóveis – e o último na sua carreira.

Que, a partir daqui, devido a algumas circunstâncias funestas, mas principalmente ao seu espírito crítico e à sua veia argumentativa e fina ironia, sem receio de confrontar diretamente, olhos nos olhos, quem o confrontava em pista de forma menos cortês. Um caráter tão politicamente incorreto e tão contestatário – enfrentou sem receios e logo em 1963, o mítico Eugenio Dragoni, diretor da Ferrari e isso nunca lhe foi perdoado! – não podia, de forma nenhuma ter sucesso infinito na F1.

Além disso, em 1965, ano em que Ferrari demonstrou ser menos competitiva, John Surtees decidiu fazer algumas provas na Can-Am, com o seu próprio Lola T70, pela simples razão de que eram bem mais lucrativas que a F1. A 25 de Setembro, quando treinava em Mosport, quebrou-se a suspensão do Lola e Surtees despistou-se, quase morrendo e ficando em perigo de vida durante vários dias. Mas recuperou e, no início de 1966, regressou à Can-Am e venceu as três primeiras corridas do ano.

Mas, na Ferrari, as coisas iam de mal a pior e a gota de água que fez o copo transbordar aconteceu nas 24 Horas de Le Mans de 1966, para a qual a Ferrari não integrou Surtees em nenhuma das suas equipas. Depois da prova, o britânico confrontou Dragoni, que lhe disse que a decisão tinha sido tomada por não confiar nas suas capacidades depois das sequelas deixadas pelo acidente de Mosport! Furioso pela injustiça desta desculpa esfarrapada, Surtees deixou de imediato a equipa, uma decisão que veio a custar à ferrai os dois títulos mundiais na F1: foi 2º no de Construtores, atrás da Brabham, e Surtees, que acabou a correr num Cooper-Maserati oficial, mesmo vencendo o último GP, no México, terminou também em 2º, a 14 pontos de Jack Brabham.

Em 1967, John Surtees aceitou o convite da Honda e fez a “pole position” na estreia da nova equipa, a Corrida dos Campeões, uma prova extra-campeonato que se realizava em Brands Hatch, mas o motor V12 não aguentou. A vingança sucedeu em Monza, com Surtees a garantir a sua sexta e derradeira vitória na F1 – e a segunda da marca nipónica. Nesse ano, terminou o Mundial em 4º lugar. Surtees manteve-se na Honda mais um ano, subindo duas vezes ao pódio (2º em França e 3º nos Estados Unidos) e, em 1970, após um ano frustrante com um BRM privado, decidiu fundar sua própria equipa, a Surtees Racing Organization. Fez quatro corridas com um McLaren M7C e, a partir da Grã-Bretanhe a até ao final do ano, com um Surtees TS7, terminando em 5º no Canadá. Em 1971, fez a temporada toda, com um Surtees TS9, pontuando na Holanda e na Grã-Bretanha, pendurando o fato e o capacete em Monza, no ano seguinte – a única prova de F1 que fez nessa temporada.

Depois disso, dedicou-se a tentar tornar competitiva a sua equipa, fazendo correr vários pilotos em modalidades como a F5000, a F2 e a F1. O seu principal sucesso foi o título no Europeu de F2 conquistado por Mike Hailwood, também ele um antigo campeão mundial nas duas rodas, em 1972. Na F1, a Surtees fez 119 GP, conquistando 53 pontos. O melhor resultado foi o 2º lugar no GP de Itália de 1972, com Hailwood e, em 1978, sem dinheiro, a equipa fechou as portas. Entre 1970 e 1978, foram 31 os pilotos que, em pelo menos uma prova de F1, correram ao volante de um Surtees. O pior momento da equipa foi a morte de Helmut Koinigg, no GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen, no ano de 1974. John Surtees participou, esporadicamente, em corridas com motos clássicas, antes de se passar a ajudar o seu filho Henry a singrar no automobilismo. O sonho terminou da pior forma, quando Henry morreu, aos 18 anos, numa prova de F2, em Brands Hatch, a 19 de Julho de 2009.

PALMARÉS

Início na competição: 1952 (GP Ulster, 500cc

Primeiro GP F1: GP Mónaco 1960

Último GP F1: GP Itália 1972

GP F1 disputados: 113 (111 partidas)

Títulos: 1 (1964)

Vitórias: 6

Primeira vitória: GP Alemanha 1963

Última vitória: G Itália 1967

“Pole positions”: 8

Melhores voltas: 11

Pódios: 24

Pontos: 180

Marcas: Lotus (1960), Cooper (1961, 1966), Lola (1962), Ferrari (1963, 1964, 1965, 1966), Honda (1967, 1968), BRM (1969), McLaren (1970), Surtees (1970, 1971, 1972).

Outros resultados: Iniciou-se nas duas rodas, em 1952, correndo em motos até 1960. 49 GP, 38 vitórias, 34 melhores voltas, 350 pontos. Campeão do Mundo de 350cc: 1958, 1959, 1960. Campeão do Mundo de 500cc: 1956, 1958, 1959, 1960. 1º Glover Trophy (1961); 1º International 2000 Guineas/Mallory Park (1962); 1º GP Mediterraneo/Enna-Pergusa (1963); 1º Rand GP (1963); 1º GP Siracusa (1964); 1º GP Siracusa (1966); 1º International Gold Cup/Oulton Park (1970); 1º International Gold Cup/Oulton Park (1971); 3º 24 Horas de Le Mans, 1964 (com Lorenzo Bandini, Ferrari 330P).

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1 Comentário
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driver-on-track
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6 anos atrás

este sim um senhor !!!

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