» Textos: David Santos c/José Luís Abreu

» Fotos: Arquivo AutoSport

 

Fórmula 1: Caos… até antes de começar!


A história do Mundial de Fórmula 1 tem capítulos interessantes, até mesmo antes das corridas se iniciarem, já que em muitos desses momentos, não foram poucas as vezes que surgiram problemas. Acidentes, falhas nos semáforos, até um carro sem as rodas no asfalto. Recordamos agora algumas dessas histórias…

Na Fórmula 1 não há falta de histórias para contar, mesmo antes dos Grandes Prémios se iniciarem. É verdade que a Fórmula 1 é o pináculo do desporto automóvel, onde militam os melhores nos seus ofícios, desde pilotos, a chefes de equipa, passando pelos engenheiros de pista, mecânicos ou toda a restante panóplia de gente que compõe uma equipa de Fórmula 1. Todos eles, sem exceção, são seres humanos, e por isso sujeitos ao erro. Mas se julga que num ambiente super profissional como a F1, erros caricatos não existem, então o que pensará quando lhe dissermos que uma vez Ralf Schumacher foi deixado pelos mecânicos da Williams com o seu carro com as rodas suspensas por ‘macacos’, isto a segundos de se iniciar a volta de aquecimento.
Eque aqueles 10 ou 12 mecânicos e engenheiros que rodeavam o carro antes de este arrancar não perceberam que as rodas estavam ainda no ar? Pode parecer estranho, mas quando pensamos em quase 70 anos de F1, percebemos que a história já vai longa e que por isso haja muito que contar sobre situações difíceis de perceber.
Temos pela frente alguns exemplos para lhe contar relativamente a acontecimentos que tiveram lugar imediatamente antes do arranque da corrida, quer seja ainda na pré-grelha, durante a volta de aquecimento, ou mesmo antes do arranque que alguns já tinham pensado que tinha acontecido. Divirta-se…

GP dos EUA F1 2004: O ‘sprinter’ Juan Pablo Montoya
Consegue imaginar um piloto a um minuto dos monolugares arrancarem da pré-grelha para a volta de aquecimento andar a fazer sprints entre a grelha e a sua boxe. Mas… para a frente e para trás, pois ora lhe diziam uma coisa, ora diziam outra! Sucedeu em 2004, nos Estados Unidos. Disputava-se a nona corrida da época e Juan Pablo Montoya, na altura na Williams-BMW, saía do quinto posto na grelha, atrás dos favoritos Ferrari, com Michael Schumacher e Rubens Barrichello, e atrás dos BAR-Honda, de TakumaSato e JensonButton.
Numa tarde de sol, todos os monolugares estavam alinhados e prontos para sair para a volta de aquecimento, até que se vê Juan Pablo Montoya a sair do seu monolugar e a correr para as boxes.
O que se passava? O colombiano detetou um problema no carro, e correu para agarrar o carro de reserva.
Porém quando chegou às boxes disseram-lhe que já não podia trocar de carro. A volta de aquecimento começou e o Williams de Montoya ficou parado na grelha. Quando o piloto se dirigia novamente para o carro original, alguém o empurra e diz para voltar à boxe. Montoya lá arranca do pitlane pronto para correr.
Só passadas 57 voltas (!)o colombiano foi informado que estava desclassificado… por trocar de carro demasiado tarde.
Numa corrida em que apenas 9 dos 20 pilotos terminaram, este é um episódio que fica para a história.

GP de San Marino F1 1991: O azarado Alain Prost
Em 1991, em San Marino, disputava-se a terceira de 16 corridas do calendário de Fórmula 1. Esperava-se que Alain Prost fosse um dos principais adversários de Ayrton Senna nesse ano, na luta pelo título mundial. O francês, num Ferrari, e o brasileiro, num McLaren, protagonizavam uma das maiores rivalidades da época, e, sem dúvida, uma das mais disputadas, mas o francês da Ferrari viria a ter uma temporada muito apagada e um dos seus pontos mais baixos foi mesmo em San Marino. Numa tarde muito chuvosa a corrida tinha tudo para ser muito disputada, mas, com surpresa, mesmo estupefação, numa das últimas curvas do circuito, durante a volta de formação, Alain Prost – qualificado em terceiro – fez um pião e saiu de pista, deslizando pela relva e falhando o embate com as barreiras por pouco. Na relva molhada, mesmo que não tivesse deixado o motor do Ferrari calar-se, dificilmente dali sairia.
Curiosamente, pouco depois, Gerhard Berger, colega de Ayrton Senna na McLaren, seguiu os passos de Prost, mas conseguiu voltar à corrida, pois não entrou em pião e logrou regressar ao asfalto.
O francês, no entanto, saiu logo do monolugar e seguiu para as boxes, para surpresa de todos.
Ayrton Senna, sem oposição, venceu facilmente a corrida com a McLaren a fazer uma dobradinha. Ayrton Senna acabaria por vencer esse Campeonato Mundial, e acabaria por falecer naquela mesma pista três anos depois.

GP da Malásia F1 2001 e 2003: A maldição de GiancarloFisichella
GiancarloFisichella teve uma passagem muito interessante pela Fórmula 1, onde militou quase uma década. Obteve apenas três vitórias, uma delas na Malásia, país com que tinha uma relação de amor/ódio. Antes de lá vencer, parecia que a pista estava ‘embruxada’ para o simpático italiano.
Mas porquê? Em dois anos diferentes, GiancarloFisichella cometeu o mesmo erro.
No Grande Prémio de 2001, GiancarloFisichella confundiu o seu lugar na grelha, com o do seu colega. Quando as luzes se estavam prestes a acender o italiano decide corrigir a sua posição, sem sucesso diga-se, pois estava no lugar que era suposto ser de JensonButton. Nas boxes da Benetton, havia pânico: “Giancarlo, o que se passa?” A resposta não podia ser mais calma. “Está tudo normal, mas desculpem, cometi um erro”. Simultaneamente vê-se os comissários a correr para ajudar o italiano a recuperar a posição certa do seu Benetton-Renault, o que aconteceu, mas o italiano não terminaria a corrida, devido a problemas com a pressão do combustível.
Dois anos depois, na mesma pista, GiancarloFisichella, agora na Jordan, voltou a cometer exatamente o mesmo erro. Desta vez, conseguiu, sem ajuda, corrigir a sua posição, demonstrando até os seus bons dotes a manobrar o seu monolugar. Coincidência ou não, Fisichella acabaria a sua corrida antes sequer de terminar a primeira volta, devido a problemas elétricos. É caso para dizer que esta não era a pista favorita do piloto italiano. Mas em 2006, em Sepang, vingou-se ao assegurar a derradeira vitória da sua carreira na F1.

GP da Europa F1 1999: Impasse europeu
Em 1999, no Grande Prémio da Europa, em Nürburgring, Alemanha, os semáforos ‘decidiram’ pregar uma grande partida. A eletricidade facilita-nos muito a vida, mas, por vezes, também pode atrapalhar. Esta acabou por ser uma das melhores corridas de 1999, mas o arranque não foi fácil.
O que não faltavam era nervos à flor da pele. Imagine o seguinte cenário: quatro pilotos separados por 12 pontos a três corridas do fim da temporada. MikaHäkkinen (McLaren), Eddie Irvine (Ferrari), Heinz-HaraldFrentzen (Jordan) e David Coulthard (McLaren).
Para o Grande Prémio da Europa, Frentzen partia na frente seguido de Coulthard e Häkkinen. Com os carros alinhados na grelha de partida, numa tarde de muito sol no circuito de Nürburgring, na Alemanha, as luzes acendem e o inesquecível comentadorMurrayWalker faz a sua contagem regressiva:cinco, quatro, três, dois, um… e nada. Frentzen, Häkkinen e Coulthard arrancam frenéticos, mas depressa travam, percebendo que as luzes não se tinham apagado. Gerou-se uma confusão imensa, ninguém sabia muito bem o que fazer, não houve acidentes logo ali porque não calhou e todos estavam hesitantes pois sabiam que as luzes teriam de se apagar.
MurrayWalker só dizia que na F1 temos que esperar tudo, especialmente o inesperado. Tiveram que voltar para os seus lugares com a ajuda das equipas, já que todo o procedimento de partida teve que ser repetido. Pouco depois, tudo funcionou bem e a corrida foi bem emocionante. Apenas um dos favoritos pontuou (Häkkinen) e foi Johnny Herbert (Stewart-Ford) a sair vitorioso. No final do ano foi MikaHäkkinen a “levar o caneco”, com apenas dois pontos de vantagem.

GP Bélgica F1 2001: Williams what the f***?
Em 2001, na Bélgica, a Williams dominava o fim de semana em Spa-Francorchamps. Os dois pilotos da equipa de Grove – Juan Pablo Montoya e Ralf Schumacher – qualificaram-se em primeiro e segundo, respetivamente, e pareciam bem lançados para mais uma vitória.
A corrida começou normalmente, mas passadas quatro voltas, Luciano Burti(Prost-Acer) teve um acidente que obrigou à paragem da corrida. Toda a gente teve que voltar às boxes para ser dada nova partida. Obviamente, todas as equipas aproveitaram para mexer um pouco mais nos carros, mas na Williams parece que se embrenharam demasiado no trabalho, já que quando chegou o sinal para todos os elementos das equipas se afastarem e deixarem os carros arrancar para nova volta de aquecimento, o Williams de Ralf Schumacher tinha sido deixado com as rodas no ar, já que os mecânicos se esqueceram de o recolocar no chão.
Tendo em conta que o procedimento não pode ser interrompido sempre que há algum problema com um dos carros, Ralf Schumacher teve que esperar que toda a restante grelha arrancasse, antes que os seus mecânicos o voltassem a pôr no chão. Ainda assim, o piloto alemão recuperou muitas posições até ao sétimo posto, não pontuando por pouco, e ainda viu o seu irmão vencer a corrida depois do colega Juan Pablo Montoya ter desistido devido a problemas no motor. Dia agridoce para Ralf? Talvez…


GP da China F1 2005: Para onde estavas a olhar Christijan?
Em 2005, Michael Schumacher já não estava sozinho como o rei das pistas. Um irreverente Fernando Alonso tinha-se juntado à festa, e mesmo relegado o Ferrari de Schumacher para posições a que não estava muito habituado, nem por isso o alemão tinha perdido a sua forte dose de favoritismo e ainda menos o respeito na grelha.
Foi por isso com algum desespero que os adeptos olharam para o acidente que Michael Schumacher e Christijan Albers protagonizaram na China, 30 minutos antes da corrida começar, naqueles momentos em que os pilotos dão voltas passando pelo pitlane até que finalmente parem no seu lugar da grelha.
Numa altura em que Michael Schumacher aquecia os pneus, com fortes travagens, ChristijanAlbers surgiu por trás, muito desatento e a alta velocidade, embatendo violentamente com o seu Minardi na traseira e lateral esquerda do Ferrari de Schumacher, passando-lhe por cima e deixando um rasto de destruição pelo caminho.
Como era habitual na altura, ambos os pilotos correram para as suas boxes com as equipas a prepararem os carros de reserva e os dois começaram a corrida, mas, coincidência ou não, nenhum deles a acabou.
O vencedor foi Fernando Alonso, que nesse mesmo ano viria a tornar-se campeão mundial pela primeira vez, algo que repetiu no ano seguinte. Quanto a Michael Schumacher, 2005 marcou o final do seu reinado de sete títulos mundiais.

GP de Itália F1 1995: David Coulthard sai de pista…antes da corrida começar
David Coulthard é um dos nomes com muito sucesso na Fórmula 1, no entanto, o piloto britânico nunca venceu um Campeonato Mundial, embora não tenha andado longe várias vezes. Porquê? Provavelmente, algum azar, mas especialmente pelo facto de apesar de ter guiado para três das melhores equipas de sempre da história da F1, McLaren, Williams e RedBull, não foi além de 13 vitórias. Portanto, faltou-lhe capacidade para mais.
O piloto britânico conquistou a poleposition no Grande Prémio de Itália de F1 de 1995, ao volante do seu Williams, na frente de Michael Schumacher e de Gerhard Berger. Na volta de aquecimento, o escocês perdeu o controlo do carro e saiu de pista batendo nas barreiras de pneus e vendo-se obrigado a pegar no carro de reserva e tentar levá-lo até ao final da corrida. Ora aqui está um exemplo que explica o porquê de apesar de ter guiado para as três equipas referidas, não ter conseguido fazer melhor.
Nesse fim de semana, David Coulthard não conseguiu terminar a corrida, aliás, completou apenas 13 voltas, e desistiu devido a problemas numa das rodas. No entanto, no meio do azar, Coulthard também teve alguma sorte, pois nem Michael Schumacher, Damon Hill, ou Jean Alesi (1º, 2º e 3º na geral) conseguiram terminar a corrida. Quem aproveitou foi Johnny Herbert, colega de Schumacher na Benetton, que venceu a acidentada corrida.
No final o campeão foi Michael Schumacher, naquele que foi o seu segundo título, enquanto David Coulthard colecionou (mais um) 3º lugar. A melhor classificação do britânico seria mesmo um 2º lugar, em 2001, atrás de, adivinhem só…Michael Schumacher.

GP da Austrália F1 1999: Maus sinais… de fumo!
O início de corrida do GP da Austrália em 1999 não foi nada fácil para os comissários, que tiveram que correr para apagar vários fogos… no sentido literal.
Carros alinhados para o ‘tiro de partida’ da época de 1999 da Fórmula 1. MikaHäkkinen tinha vencido em 1998 e era o grande favorito, bem como Michael Schumacher e David Coulthard, que completaram o pódio.
Segundos antes da corrida começar, o Stewart-Ford de Johnny Herbert começou a fumegar fortemente na grelha de partida, com muito fumo a sair do capot motor. O piloto nem arrancou. Rubens Barrichello, colega de Johnny Herbert, noutro Stewart-Ford, teve exatamente o mesmo problema e correu para as boxes para o carro de reserva.
Entretanto, a volta de aquecimento arrancou, mas MikaHäkkinen, Michael Schumacher e ToranosukeTakagi não conseguiram sair da sua posição da grelha, sendo que os últimos dois obrigaram à entrada dos comissários para empurrar os monolugares.
Curiosamente, Michael Schumacher, Rubens Barrichello e ToranosukeTakagi conseguiriam acabar a corrida, sendo que MikaHäkkinen se ficou pela 21ª volta, após ter problemas com a acelerador do carro. O finlandês, no entanto, viria a tornar-se campeão do mundo pelo segundo ano consecutivo.

GP do Canadá F1 1989: Ainda não começou rapazes!
No Grande Prémio do Canadá, em 1989, uma súbita mudança nas condições meteorológicas levou Nigel Mansell (Ferrari) e Alessandro Nannini (Benetton) a deixarem os seus lugares na grelha de partida, mesmo no fim da volta de aquecimento, e a rumarem às boxes para colocar pneus para piso seco. Dessa forma, mesmo sabendo que iriam parar ao fim da grelha, tirariam daí vantagem quando os restantes pilotos fizessem o mesmo.
Só que algo correu muito mal, já que após saírem das boxes, ambos pensaram que a corrida já tinha começado, o que não acontecera, e continuaram em busca dos carros que, pensavam eles, rodavam bem à sua frente. Não podiam estar mais enganados, pois estes estavam parados na grelha.
Os homens dos dois McLaren, alinhando na frente da grelha, observavam incrédulos a ‘fuga para a vitória’ dos dois pilotos da Ferrari e Benetton, e quando as luzes sinalizaram o início da corrida, foram à sua vida. Claro está, Mansell e Nannini foram desclassificados. Quanto à corrida, foi particularmente difícil, pois apenas oito pilotos terminaram, sendo que ThierryBoutsen (Williams) foi o vencedor.

GP dos EUA F1 2005: O dia de Portugal, da Michelin… e dos 6 carros em pista
Em 2005, ocorreu um estranho fenómeno na Fórmula 1: apenas seis carros começaram a corrida. Como? Primeiramente, explicar que, em 2005, nem todas as equipas tinham o mesmo fornecedor de pneus. Sete equipas tinham pneus Michelin e três tinham pneus Bridgestone. E só os carros equipados com pneus da marca japonesa lograram disputar a corrida, os dois Ferrari, Jordan e Minardi.
Outro fator importante para explicar o sucedido é o traçado. Sendo a corrida feita em Indianápolis, num circuito com um ‘banking’ muito significativo na pista preparada para a F1, uma das curvas era demasiado inclinada e rápida para os carros de Fórmula 1 equipados com pneus Michelin, que não suportavam as cargas. Ralf Schumacher descobriu isso da pior forma, pois um dos pneus cedeu e o resultado foi um acidente forte na parede com o seu Toyota.
Após várias tentativas de resolução (como por exemplo, a criação de uma chicane que obrigava os monolugares a abrandar), as equipas planearam um motim contra a FIA que não aceitava qualquer proposta de resolução. No entanto, nada disso foi para a frente e o plano das equipas fornecidas pela Michelin foi fazer a volta de aquecimento e voltar para as boxes. Cumpriam a sua obrigação e ‘desistiram’ imediatamente antes do arranque da corrida.
Resultado, uma pobreza de seis carros na grelha, os Ferrari lá à frente, bem mais atrás os Jordan e Minardi.
Mas esta corrida está bem marcada na história do automobilismo em Portugal.
Michael Schumacher venceu na frente de Rubens Barrichello, numa dobradinha Ferrari, com o português Tiago Monteiro (Jordan) a fechar o pódio, naquele que é o único pódio de um piloto português na disciplina rainha do desporto automóvel, a Fórmula 1. Escreveu-se direito por linhas (muito) tortas, mas esse pódio ninguém tira a Tiago Monteiro. No final do ano, foi mesmo Fernando Alonso, piloto da Renault, que venceu o primeiro de dois campeonatos mundiais que tem no seu palmarés.