
Nikita Mazepin é o atual “patinho feio” da Fórmula 1, atraindo para si muitas atenções, normalmente, não da melhor forma, o que lhe tem valido o epítome de ‘bad boy’. Mas nem sempre as críticas que lhe têm sido imputadas são justas e as comunicações de rádio entre o russo e a sua equipa revelam um piloto que procura encontrar soluções de uma forma construtiva, mesmo quando a sua corrida está já comprometida.
Tanto Mazepin como Mick Schumacher têm no seu ano de estreia uma tarefa hercúlea e quase solitária, sobretudo se levarmos em consideração que, qualquer um deles vinha habituado a lutar pelas primeiras posições nas fórmulas de promoção e, muitas vezes, com a vitória no horizonte.
A Haas, a braços com dificuldades financeiras decorrentes da pandemia da COVID-19, atirou o 2021 para o lixo, assumindo que ia ter um ano de dificuldades, para colocar todos os ovos no cesto de 2022 e, dessa forma, preparar-se da melhor forma para o novo ciclo regulamentar para os chassis.
O resultado foi um carro que, basicamente, é o de 2020, mas com um fundo plano de acordo com o regulamento deste ano, o que criou um monolugar dolorosamente lento e difícil de pilotar, tendo se verificado ao longo da época inúmeros piões quer de Mazepin, quer de Schumacher, devido péssimo comportamento do Haas VF-21.
No fundo, estes dois pilotos estão numa classe à parte, tendo como perspetiva, em circunstâncias normais, lutar com o seu colega de equipa, o que já causou algumas situações mais quentes entre eles – normal, quando se tem apenas um adversário, todo o foco é colocado nele.
No Grande Prémio dos Estados Unidos da América, Mazepin teve uma corrida solitária, vendo a bandeira de xadrez no último lugar a duas voltas de Max Verstappen.
A prova do russo começou com um péssimo arranque, deixou patinar em demasia as rodas traseiras, sendo engolido por Sebastian Vettel, Fernando Alonso e George Russell, o que atirou de décimo sétimo na grelha para vigésimo em de cem metros.
Ainda assim, o piloto da Haas lidou bem com o toque protagonizado por Esteban Ocon e Lance Stroll na primeira curva e chegou a estar a lutar com Vettel por uma posição, que terminou a primeira volta em décimo quinto.
Contudo, quando se preparava para poder atacar o piloto da Aston Martin na recta traseira de Austin, o apoio da cabeça do seu monolugar soltou-se e foi obrigado a ir para as boxes para resolver o problema.
A corrida do jovem de 22 anos estava completamente estragada devido a uma evidente falha humana, dado que alguém na Haas não encaixara devidamente os dois apoios traseiros do componente, mas nem por isso o russo fez jus ao seu rótulo de “bad boy”, não disparando contra a equipa. Não lançou qualquer crítica, demonstrando cuidado com os outros ao pedir informações da parte Ayao Komatsu, o seu engenheiro de pista, uma vez não conseguir ver os espelhos por ter o apoio da cabeça à frente.
A partir de então, o último lugar estava prometido a Mazepin.
Ainda assim, o russo teve uma abordagem construtiva durante a corrida, como se pode verificar nas comunicações de rádio mais relevantes da primeira parte da prova dando informações ao seu engenheiro de pista e discutindo com ele soluções estratégicas para que pudesse assegurar o melhor resultado possível.
Por outro lado, uma das críticas que mais vezes tem sido apontado ao piloto da Haas é a sua incapacidade em dar espaço aos pilotos que o estão a dobrar. No entanto, nas comunicações rádio percebe-se a preocupação do russo com as dobragens, pedindo à sua equipa para lhe dar informações sobre a aproximação de carros mais rápidos.
Em última análise, a responsabilidade das dobragens está do lado do piloto que perde uma volta, mas este precisa de ter informação da parte da equipa, o que coloca algum ónus na Haas nos problemas que Mazepin tem vindo a ter com pilotos mais rápidos.
É também clara as diferenças estratégicas entre os homens da frente e aqueles que normalmente tem de ceder espaço aos líderes.
Na cabeça do pelotão a preocupação é defender ou atacar através do “undercut” ou do “overcut” assim que se abre espaço no pelotão para fazer uma paragem sem cair na traseira de um carro mais atrasado. Na cauda do grupo, a questão é aproveitar os momentos em que um conjunto de carros se aproxima para chamar o piloto às boxes, evitando assim perder demasiado tempo em pista.
Mazepin manteve-se em pista quando chegou até si, Max Verstappen, Lewis Hamilton, Sérgio Pérez e Charles Leclerc, todos eles espaçados em pista, mas quando se aproximaram Daniel Ricciardo, Carlos Sainz e Lando Norris, juntos, a Haas chamou-o às boxes para a sua segunda paragem, a primeira de ordem estratégica.
Foi uma corrida difícil para Mazepin, mas na adversidade o russo mostrou compreensão e uma abordagem positiva que se coaduna pouco com o rótulo que lhe tem sido colocado. Não será um anjinho e tem defeitos como todos, sendo difícil que algum dia esteja numa equipa capaz de lhe poder permitir lutar por grandes resultados, mas também não é o “diabo” que querem fazer querer. Pelo menos, a avaliar pelas comunicações rádio…












