F1 1988: o ano do passeio a dois


Agora que está a começar uma temporada de F1 que se arrisca a ser um ‘passeio’ para a Mercedes vamos fazer um passeio ao passado, para assistir de poltrona a outro passeio de outra marca. Vamos até ao ano de 1988, em que a McLaren venceu 15 das 16 provas do calendário.

Nesse ano, a equipa inglesa tinha construído aquele que anda hoje é considerado como um dos mais bem sucedidos de todos os chassis jamais feitos na F1: o MP4-4. Desenhado pelo norte-americano Steve Nichols, em colaboração com Gordon Murray, foi baseado no Brabham BT55, que tinha sido feito pelo próprio Murray dois anos antes, quando ele ainda trabalhava na equipa de Bernie Ecclestone.
O MP4-4 estava equipado com o motor 1.5 L V6 da Honda, que tinha uma potência de cerca de 651 cv – curiosamente, menos cerca de 270 cv que o equivalente motor TAG Porsche da temporada anterior, que estava no MP4-3, que se revelou um fiasco. Pelo contrário, o conjunto chassis-motor de 1988 acabou por se rum binómio aterrador para os adversários: fez 16 GP e ganhou 15, feito nunca conseguido, por qualquer outro, em semelhantes circunstâncias. O MP4-4 era tão bom que, mais tarde, Ayrton Senna confessou ter sido “o melhor carro que alguma vez tripulei na minha carreira.”
Muito baixo e com um centro de gravidade quase ao nível do chão, a sua frente gerava pouco apoio aerodinâmico (menos de 30% do total), mas isso era complementado por uma secção traseira muito eficaz, que tinha uma asa maior e que produzia maior apoio, sem causar excessivo arrasto dinâmico. Nas curvas rápidas, apesar da necessidade de menos “asa”, as trajetórias eram limpas e muito puras e nas retas a eficácia era quase total, graças à menor quantidade de ar que o carro tinha que atravessar para se movimentar.
Desta forma, com dois pilotos de exceção e um chassis praticamente imbatível em todas as pistas, a McLaren tinha entre mãos um “cocktail” explosivo, que geriu da melhor forma desde as boxes. Será que isso vai também suceder com a Mercedes este ano? Curiosamente, o primeiro ano da nova vida dos motores turbo – exatamente o oposto, pois foi em 1988 que os turbos foram banidos da F1.
Para que conste: o MP4-4 era tão bom, que a McLaren fez uma variante o MP4-4B, que usou no final da temporada de 1988 para efetuar testes ao novo motor 3.5 V10 “atmosférico” desenhado pela Honda para 1989!

Duelos imortais
O ano de 1988, para lá do domínio absoluto da McLaren foi o ano do primeiro dos três títulos de Campeão do Mundo de F1 conquistados por Ayrton Senna. Mas, acima de tudo, foi o primeiro ano de uma briga memorável, que raiou tantas vezes quase o estado físico – e em que ambos, para lá de trocas azedas de acerbas palavras, foram protagonistas de alguns dos mais memoráveis duelos vistos na F1. E, também, de alguns dos momentos mais arrepiantes.
O primeiro deles sucedeu logo no GP de Portugal, no Estoril, a penúltima prova realizada na Europa, nesse ano, e que teve três largadas. Na última, Prost, que tinha a pole, partiu pior que Senna e de imediato encostou-se para a faixa mais limpa da pista, onde já estava o brasileiro. Que, para evitar o contato quase colocou as duas rodas na relva, em plena aceleração. Tudo correu bem mas, na volta seguinte, os dois McLaren passaram lado a lado na linha de meta e, enquanto se aproximavam da travagem para a primeira curva, Senna não hesitou em encostar Prost contra o muro das boxes. A mais de 270 km/h, os dois McLaren quase tocaram as rodas por várias vezes e Prost quase acertou nos painéis que os mecânicos exibiam no muro das boxes. A partir daqui, a relação entre ambos, que era ainda cordial, esfriou e nunca mais foi a mesma, evoluindo ano a ano até ao quase ódio, mesclado de um enorme e mútuo respeito.
Mas, antes disso, já Senna tinha humilhado Prost em, pelo menos duas ocasiões: nos GP da Grã-Bretanha e da Alemanha, ambos disputados sob chuva, situação que Senna sabia ser do mais completo desagrado do seu adversário, que nunca se sentiu bem a correr à chuva e que, na verdade, não hesitava em confessar. Em Silverstone, Prost abandonou, alegando problemas com a suspensão do MP4-14 mas, fazendo das tripas coração, lá conseguiu ser um brioso 2º classificado em Hockenheim. As duas corridas foram, é claro, ganhas por Senna, que verdadeiramente “brincou” com todos os outros pilotos no asfalto molhado, em especial e para seu enorme e confessado prazer, com ‘o francês’, como ele chamava, a partir de certa altura, o seu colega de equipa.

GP de Itália: a prova de todas as surpresas
O GP de Itália foi uma prova muito especial para a McLaren. Na verdade foi a única em que um dos seus pilotos (Ayrton Senna ou Alain Prost) não ganhou. E, pior que isso, foi a única em que nem Senna nem Prost chegaram ao fim. Mas, se o francês abandonou por causa de um raro (nesse ano…) problema de motor, já Senna foi involuntário protagonista de uma das… cenas mais caricatas que sucederam na F1.
Autor de mais uma pole position, Senna tomou a dianteira logo na partida e controlou com perfeito à-vontade os acontecimentos. A duas voltas do fim, seguia calmamente a caminho de novo triunfo, seguido à distância pelos dois Ferrari de Gerhard Berger e Michele Alboreto, quando encontrou pela frente um piloto retardatário, que tinha que dobrar. A manobra deveria ser fácil e sem problemas apesar de ser um novato quem estava ao volante do Williams, Jean-Louis Schlesser. Afinal, as coisas não aconteceram conforme o brasileiro esperava: percebendo a aproximação de Senna, no final da reta da meta, Schlesser deixou espaço para ele passar pelo interior da curva da chicane do Rettifilo mas, no processo, bloqueou os travões…. e acertou em cheio no McLaren, que fez um pião e ficou plantado na areia da escapatória, com um furioso e estupefato Senna lá dentro. Schlesser continuou e terminou a prova em 11º, logo atrás de Senna. Este incidente permitiu uma emocionante dobradinha da Ferrari em casa, duas semanas depois da morte de Enzo Ferrari. E impediu que a McLaren ganhasse todos os 16 GP dessa temporada.

Os erros pagam-se caros!
O GP do Mónaco de 1988 ficou na História da F1 por ter sido uma das raras ocasiões em que Ayrton Senna errou clamorosamente. Autor da “pole” (a terceira consecutiva), Senna não deixou grande margem para mais alguém alcançar o comando da corrida, que foi dominando a seu bel-prazer. A sua vantagem era tanta que, a certa altura, foi avisado pela equipa para reduzir o andamento, pois o seu principal adversário, Alain Prost, estava já a quase uma volta de distância. Senna não aceitou isso de imediato, pois aquilo que queira era humilhar o francês, “dando-lhe” uma volta no Principado. Mas, após várias insistências, lá levantou o pé do acelerador, entrando em velocidade de cruzeiro, até porque faltavam pouco mais de dez voltas para o final da corrida – a segunda vitória seguida nas ruas monegascas parecia garantida.
Porém, descontraiu-se em demasia e, na 67ª volta, deu-se o inesperado: na abordagem à curva do Portier [Porteiro], o McLaren de Senna bateu nos “rails” e lá ficou. A pancada não foi muito forte, mas quebrou a suspensão dianteira do MP4-4. Nas imagens, que ainda hoje recordo bem, viu-se o piloto sair do carro, olhá-lo brevemente e desaparecer por trás dos mesmos “rails”. E, na verdade, desapareceu mesmo: como o seu apartamento era a menos de 200 metros do local, dirigiu-se calmamente para lá, viu o resto da corrida na TV e deitou-se para dormir uma soneca, porque, conforme disse mais tarde, “estava muito cansado.”
Nas boxes da McLaren, da estupefação passou-se à inquietação, pois do piloto não havia rasto – ninguém sabia onde estava e não respondia aos apelos da equipa. Só mais tarde se soube o que tinha acontecido com Ayrton Senna…
Que, depois deste erro monumental, se “vingou” em grande estilo, ganhando todas as edições em que participou, até 1993. No total, triunfou por seis vezes no GP do Mónaco, batendo Graham Hill e obtendo um recorde que tão depressa não será alcançado na F1.

Os números e os recordes
O ano de 1988, com o domínio quase absoluto da McLaren, serviu para estabelecer novos recordes e uns números quase impensáveis para as estatísticas. Assim, para lá de ganharem todas as provas do ano menos uma, os dois pilotos da equipa (Ayrton Senna e Alain Prost) e a própria McLaren, entraram para o Olimpo dos viciados em coisas impossíveis.

  • 15 vitórias em 16 possíveis (a McLaren bateu o recorde anterior, de 12 corridas, que era já seu e tinha sido estabelecido em 1984)
  • 992 voltas na frente (Senna e Prost lideraram em todas as voltas de corrida, com exceção das 25 de Gerhard Berger (GP Itália) e da que Ivan Capelli liderou no GP do Japão. O anterior recorde era já da McLaren e também de 1984)
    177 (199 conquistados) pontos, divididos entre Ayrton Senna (Campeão, com 90 pontos úteis em 94 conquistados) e Alain Prost (vice-Campeão, com 87 pontos úteis em 105 conquistados). Os outros 15 pilotos que pontuaram totalizaram 201 pontos – e todos eles úteis, pois não mandaram fora, por via dos regulamentos, qualquer ponto.
  • 199 pontos na tabela dos Construtores (três vezes mais que a 2ª classificada, a Ferrari – 65 pontos – e apenas menos dez que a soma de todas as outras equipas)
  • Os dois McLaren fizeram dez “dobradinhas” (1º e 2º) e saíram da 1ª linha da grelha de partida em 12 GP
  • A McLaren apenas no GP de Itália não teve pelo menos um dos seus pilotos no pódio. Esse foi também o único em que ambos os MP4-4 desistiram.
  • 13 pole positions assinadas por Ayrton Senna que bateu o anterior recorde que era de nove “poles” e tinha sido feito por Ronnie Peterson (1973), Niki Lauda (1974 e 1975) e Nelson Piquet (1984). A McLaren fez a “pole” em 15 dos 16 GP. A exceção foi o GP da Grã-Bretanha (Gerhard Berger)