David Coulthard: O eterno segundo ‘reformou-se’ há 10 anos


Completam-se precisamente agora 10 anos que David Coulthard se ‘reformou’. Nunca ganhou um Mundial, nunca foi considerado um dos melhores pilotos do Mundo, e raramente conseguiu bater os seus companheiros de equipa, quando estes se chamavam Hill, Hakkinen ou Raikkonen. Mas nem por isso David Coulthard deixou de ter uma carreira bastante interessante desde que teve de substituir o malogrado Ayrton Senna na Williams, alternando prestações brilhantes com erros de principiante, sendo a falta de regularidade o seu pior defeito, pois velocidade de base nunca faltou ao piloto escocês.

 

 

 

Dele disse Ron Dennis que, «no dia em que ele deixar de querer analisar tudo e se concentrar apenas em andar depressa vai ter resultados muito melhores.» Com uma personalidade complexa, alternando uma enorme bonomia com momentos de irritação quase permanente, o escocês acabou por se considerado parte dos “móveis” do paddock, depois de ter aceite passar para a Red Bull quando Mateschitz comprou a equipa Jaguar, acabando por ser um elemento fundamental no crescimento da sua última escuderia.

 

 

 

Depois de 14 anos e meio ao volante, Coulthard passou, em 2009, a desempenhar um duplo papel na F1: por um lado, manteve-se ligado à Red Bull, como consultor, piloto de testes, participava nas reuniões técnicas e dava também a sua opinião em questões desportivas ou de estratégia; por outro, passou a estar aos microfones da BBC TV, como comentador dos Grandes Prémios e dada sua crescente tendência para um discurso pouco ou nada politicamente correcto, saiu-se bastante bem…

 

 

 

O menino bonito dos britânicos David Marshall Coulthard teve um início de carreira que parecia destinado a grandes feitos. Forte no karting escocês e britânico, praticamente imbatível na Fórmula Ford do seu país, o jovem de Twynholm deu o seu primeiro grande passo quando foi contratado por Jackie Stewart para correr na Formula Opel Lotus com a equipa do seu filho Paul.

 

 

 

Foi o início duma ligação que durou três anos, com promoções para a Fórmula 3 e a Fórmula 3000 e que ajudou Coulthard a perceber que ser piloto é muito mais do que saber andar depressa: «Com o Jackie aprendi muito, porque ele tem sempre uma opinião e está mesmo interessado em que a ouças. Era assim quando eu pilotei para ele e ainda é hoje, quando já estou no final da minha carreira. Ele deu-me uma visão abrangente do automobilismo e aprendi muito com ele e com a sua equipa.»

 

 

 

Sem ganhar títulos nas categorias de promoção, Coulthard ganhou suficientes corridas para ser visto como a grande promessa do automobilismo britânico no final de 1992 e o sempre patriótico Frank Williams chamou-o para substituir Damon Hill como piloto de testes da sua equipa. Um ano depois, a morte de Senna deu a Coulthard a possibilidade de estrear-se em Grandes Prémios, mas o resto da temporada de 1994 não lhe deu nenhuma vitória, mesmo se a sua velocidade, em comparação com a da Damon Hill, lhe deu bastante destaque. Foi o suficiente para a McLaren e a Williams quererem os seus serviços, numa disputa que acabou por ser decidida pelo Tribunal Arbitral do Desporto, que deu prioridade à Williams para 1995 mas reconheceu que a McLaren tinha direito a ter Coulthard na sua equipa a partir do ano seguinte.

 

A temporada seguinte deu o mote para o que seria o resto da carreira do escocês: momentos de brilhantismo, com quatro “pole positions” consecutivas, erros tremendos, com o despiste na entrada das boxes em Adelaide ou os piões nas voltas de lançamento em Monza e Nurburbgring, e uma vitória, em Portugal, no único fim-de-semana em quase 15 anos em que juntou o triunfo à “pole” e à volta mais rápida na corrida.

 

 

 

Segundo piloto dos finlandeses Na McLaren, a partir de 1996, Coulthard conseguiu aguentar o embate com Mika Hakkinen até ambos terem um carro ganhador nas mãos. Mas quando isso aconteceu, em 1998, o finlandês passou a um nível superior e Coulthard só esporadicamente o conseguiu bater: «Penso que o Mika foi o mais veloz de todos os meus companheiros de equipa. Nas curvas mais rápidas ele era impressionante. Mas nunca o vi muito empenhado na parte técnica e nunca convivemos socialmente. De qualquer maneira, foi o companheiro de equipa de quem me senti mais próximo na Fórmula 1.»

 

Com Hakkinen a caminho da reforma, em 2001, Coulthard teve a oportunidade de liderar a McLaren, e foi vicecampeão do Mundo nesse ano, mas quando Raikkonen substituiu o seu compatriota, em 2002, viu-se imediatamente que o jovem finlandês era bem mais rápido que o veterano escocês e nos dois anos seguintes Coulthard foi pouco mais do que segundo piloto do “Iceman”: «Passámos três anos na mesma equipa mas não posso dizer que o conheço. Ele praticamente não fala, não é participativo nas reuniões, mas quando está virado para esse lado é devastadoramente rápido.»

 

 

 

O veterano do pelotão Com Montoya a tomar o seu lugar no final de 2004, Coulthard parecia destinado a retirar-se, mas uma oferta da Red Bull levou à realização de dois testes, findos os quais o escocês aceitou o desafio de transformar uma equipa em crise, comprada à Jaguar, num sério competidor. Líder incontestado da equipa enquanto Klien foi o seu companheiro de equipa, Coulthard pode, finalmente, mostrar a sua verdadeira personalidade, depois de nove anos sob alçada da McLaren e da Mercedes. A mudança de imagem foi radical, acabando-se com a postura impecável que era imposta na equipa de Ron Dennis, para passarmos a ver um Coulthard de barba por fazer, com cabelo desalinhado e com um discurso cada vez mais viperino e politicamente incorrecto.

 

O seu papel no crescimento da Red Bull foi inegável mas com a chegada de Mark Webber em 2007, as crescentes limitações de Coulthard, sobretudo em qualificação, ficaram novamente à vista e o seu final de carreira apareceu de forma natural, em 2008, quando apenas conseguiu pontuar por duas vezes – incluindo um pódio fortuito em Montreal.

 

 

 

A frustração crescente do escocês ficou à vista nos inúmeros acidentes em que se envolveu na sua derradeira temporada, mas isso não lhe retirou o mérito de ter sido dos pilotos mais limpos nos primeiros 13 anos da sua carreira na Fórmula 1 e se não deixou saudades, pois os seus melhores desempenhos depressa foram esquecidos, Coulthard será sempre lembrado como um piloto capaz de tudo, de bater Hakkinen em Spa mas ser esmagado pelo finlandês em Suzuka, de vencer no Mónaco mas falhar em pistas mais fáceis…

 

Acidente de aviação em 200: Uma segunda vida…

A vida de David Coulthard mudou a dois de Maio de 2000. Viajando de Inglaterra para Nice num Learjet privado, com a sua namorada da altura, Heidi Winchelski, o escocês foi informado que um dos motores deixara de funcionar e que seria necessária uma aterragem de emergência no aeroporto de Santolas, em Lyon. Mas a operação correu mal, deu-se um embate violento contra o solo, resultando na separação do cockpit do resto do avião, com os dois pilotos a falecerem de imediato.

Coulthard, a namorada  e o guarda-costas que os acompanhava, sobreviveram, escapando por uma saída de emergência, passando pelo hospital antes de seguirem de carro para o apartamento do escocês no Mónaco. Três dias depois Coulthard estava em Barcelona, para
participar no GP de Espanha, qualificando-se em quarto lugar para terminar a corrida no segundo posto, atrás do seu companheiro de equipa, Mika Hakkinen. Fisicamente pouco marcado, Coulthard não ficou com marcas psicológicas do acidente, mas a sua relação com Heidi Winchelski degradou-se rapidamente.

Para Coulthard, «ninguém pode dizer que não mudou depois duma experiência tão intensa. Dá-se outro valor às coisas, às pessoas, ao que nos agrada ou amamos. E deixa-se de dar valor às coisas que nos incomodam, porque, de facto, não são importantes. Percebi o quanto adorava a F1, a minha família e os meus amigos depois do acidente e podem acreditar que tenho vivido muito mais intensamente nos últimos dezoito anos.»