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CRÓNICA: Vi fazer-se história com os meus próprios olhos

David Pacheco by David Pacheco
28 Outubro, 2020
in F1, FÓRMULA 1
A A
CRÓNICA: Vi fazer-se história com os meus próprios olhos

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Todos nós fazemos algo pela primeira vez que nos deixa quase sem palavras. E são as ‘primeiras vezes’ que correm bem que nos deixam com mais água na boca para as repetir. A minha primeira vez a ver Fórmula 1 ao vivo foi uma dessas experiências. Sim, eu estive lá, no regresso da F1 a Portugal, 24 anos depois. É algo que ainda não está bem presente na minha cabeça, no momento em que escrevo esta crónica, sentado na minha secretária, com o bilhete aqui ao meu lado e o chapéu, que trouxe de recordação, na cabeça.


Há 24 anos, no dia 22 de setembro de 1996 (data do penúltimo GP em Portugal, no Estoril), estava eu ainda na barriga da minha progenitora e só iria sair três meses depois. Mas, a espera, dos meus pais por mim, e a minha pela F1 em Portugal valeu a pena. O cenário para o regresso dos carros mais rápidos do mundo a território nacional? Um dos melhores que o nosso país tem para oferecer. A apelidada “montanha russa”, o Autódromo Internacional do Algarve.
Para além deste prato principal, o aperitivo. Fazer parte de um momento histórico, em que o triunfo de Lewis Hamilton iria estabelecer um novo recorde de vitórias, ultrapassando Michael Schumacher.

Recuemos três meses, até ao dia em que foi anunciado o GP de Portugal. Já tinha sido posto como hipótese e os rumores eram cada vez maiores e no momento que chegou o anúncio eu já sabia que tinha de arranjar forma de ir. Esta pandemia roubou-nos muita coisa, mas a possibilidade de um GP com público é algo quase inédito em 2020. E sendo no meu país, juntou-se o útil ao agradável. Com mais dois amigos lá fiquei a clicar no F5 repetidamente, entre as 15h e as 22h. Comprados os bilhetes, reparei na taxa de entrega destes. Caro leitor… estamos em pleno século XXI, porque não bilhetes eletrónicos? Os bilhetes de avião ou até de concertos podem ser eletrónicos, porque não estes também? Hoje em dia o nosso telemóvel é ‘quase’ a nossa vida, portanto não seria nada difícil ter um bilhete eletrónico. Acho que deveria ter sido uma hipótese para quem não é um colecionador e até dava para poupar papel e dinheiro.

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Comprado o bilhete, faltava chegar o envelope a casa. A chegada, tal como todo este fim de semana, foi uma das muitas aventuras deste GP para mim. Depois de seis horas de espera para os comprar, ainda poderia ter ficado sem eles, pois na pressa esqueci-me de introduzir a morada corretamente, faltando o andar do meu prédio. Não fosse eu ter uma janela onde consegui avistar o carteiro ao longe, e ter corrido pelas escadas como se não houvesse amanhã, e tinha de andar por Portimão à espera deles. Depois foi uma questão de marcar estadia e ‘boleias’, juntar os ‘trapinhos’ e fazer-me à estrada, para a primeira visita ao Sul do país. Uns pequenos imprevistos nas ‘boleias’, ou seja, deixo aqui um agradecimento ao João Correia Leite pelo salvamento e pela viagem confortável até ao Algarve, para ver os treinos livres de sexta-feira.

Antes de ir à experiência da F1, dizer umas palavras sobre as corridas de suporte. Gostei imenso da Sports Prototype Cup. Carros iguais, onde pudemos ver várias batalhas emocionantes em pista! Quanto à GT Cup, deixou-me a pensar se uma prova do Open de Velocidade de Portugal não poderia ter sido feita em vez da GT Cup…Na minha opinião, acho que poderia trazer mais visibilidade à Velocidade nacional.

Voltando à F1, e para quem veio dos Açores e nunca tinha passado abaixo de Évora, a minha primeira vez na região mais a sul de Portugal foi de sonho. Ver a F1 ao vivo é algo que nos fica na memória. As cores dos monolugares são mais garridas, o cheiro a borracha queimada, o som ‘rouco’ dos V6 turbo híbridos, que parecem o artista Zeca Medeiros, a emoção de ver uma ultrapassagem à nossa frente. A experiência em pista foi sublime e posso dizer que risquei algo da minha ‘bucket list’. Vi de perto pilotos, como por exemplo na fila de espera para entrar no Autódromo: mesmo ao meu lado passou um Alfa Romeo Stelvio Quadrifoglio com Kimi Räikkönen ao volante, sempre descontraído, com uma mão no volante e outra na cabeça, o banco provavelmente na posição mais baixa. Para mim, o ‘King of Cool’ do século XXI. Também vi Nico Hülkenberg. Ele que na sexta-feira esteve junto à curva 11, a trabalhar para a TV. Momentos que certamente ficarão na minha memória, pois estes dois humanos, e mais alguns, são os únicos a pilotarem carros de F1, algo que não é possível ao comum dos mortais.
Mas, uma das melhores emoções do fim de semana foi certamente ouvir a Portuguesa no Autódromo Internacional do Algarve. Quando vi a seleção de futebol sénior pela primeira vez ao vivo, no Estádio da Luz, cantar o hino encheu-me de emoção e não vou mentir, uma lágrima também caiu. Aconteceu o mesmo este fim de semana. A interpretação da Cuca Roseta foi excelente e é outro momento que tenho guardado, para contar a gerações futuras.
Na corrida, posso dizer que quando Carlos Sainz passou na liderança, a bancada onde estava foi ao rubro.
No final, a festa ainda foi maior. Penso que todos os presentes perceberam que se fez, mais uma vez, história em Portugal. Lewis Hamilton é o piloto mais vitorioso de todos os tempos na F1, e eu, juntamente com outros portugueses, estávamos lá para ver história, com os nossos próprios olhos. Destacar também a excelente corrida de Pierre Gasly, e a luta para ver quem ficaria os lugares pontuáveis entre Daniel Ricciardo, Sebastian Vettel e Kimi Räikkönen. Uma luta a três que, a cada vez que passavam na minha frente, eu andava a fazer contas e a contar pelos dedos se alguém tinha ganho tempo ou não. Ou de tentar perceber se estavam a ter linhas diferentes para a mesma curva, de modo a ganhar ou perder tempo. Quando se vê a mesma curva, com várias passagens de pilotos diferentes, ficamos concentrados em perceber os pormenores.

Se a emoção em pista foi uma coisa, fora dela a coisa foi um pouco diferente. Toda a moeda tem duas partes. No GP de Portugal as coisas não começaram nada bem. Sem poder levar comida ou bebida, as pessoas era obrigadas a consumir dentro do circuito. E até faz sentido. Mas na situação atual em que nos encontramos, alimentar mais de 300 pessoas com apenas uma ‘barraca’ não é nada bom. E ter de esperar duas horas, numa fila onde o distanciamento social, por mais que eu tentasse, não era cumprido, é outra conversa. Para o segundo dia, mais duas ‘barracas’ foram acrescentadas, mas não fez muita diferença. A diferença foi que muitas das pessoas decidiram trazer o farnel. Também circularam muitas fotos pela internet.

Da minha parte, no local onde me situava, ainda consegui ter alguma distância, com uma fila de intervalo acima e abaixo de mim, e duas cadeiras de intervalo para as pessoas ao lado. Quanto a máscaras, novamente, todos à minha volta estiveram com ela posta o dia inteiro. A única coisa a apontar é a situação de ter de sair, para ir à casa de banho ou até à comida, e chegar ao meu lugar (marcado, como foi para todos) e ter alguém lá sentado. Quando vamos ao teatro e os lugares estão marcados não nos sentamos num lugar diferente… Pelo menos eu não o faço…

Finalizado o Grande Prémio restava rumar a casa. Mas, a saída, pelo menos da zona do parque vermelho não foi nada fácil e apenas 2 horas de espera é que conseguiu colocar-me na autoestrada, a caminho de Lisboa. As soluções para escoar o trânsito nem sempre foram as melhores, com caminhos estreitos e de terra batida a não facilitarem as coisas. Mas, chego a casa de coração cheio, com uma das melhores “primeiras vezes” da minha vida!

David Pacheco

David Pacheco

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