Rali de Monte Carlo, o ‘filme’ do 1º confronto: ‘pregos’, sustos, nervos e… a Lancia no WRC
O silêncio de inverno de Gap foi quebrado pelo som seco das primeiras notas de escape. A pré‑época acabou; o Mundial de Ralis de 2026 acordou. Na cidade alpina, banhada por um sol frio de seis graus, montou‑se o palco para o regresso do Rallye Monte‑Carlo. Os mecânicos alinharam os carros no parque de assistência, enquanto os comissários apontavam para a folha de percurso: 4,25 quilómetros de shakedown, com 1,70 km de asfalto novo em relação ao ano passado. No papel, apenas um teste. Na cabeça de cada piloto, o primeiro duelo psicológico do ano…

As equipas estudavam as quatro opções de pneus Hankook – slicks Ventus Z215 em compostos macio e super‑macio, e os Winter I*cept SR20 com e sem pregos – como se estivessem perante um enigma meteorológico. A estrada está completamente seca, mas todos sabem que Monte‑Carlo nunca se deixa ler à primeira vista…
Então, entra em cena o campeão. O primeiro a apontar o nariz ao shakedown foi Sébastien Ogier, o novo nove vezes campeão do mundo, no Toyota. Quando se lançou para a especial, os fotógrafos tentam apanhar cada gesto; é o início oficial da defesa do título. No final da tirada, surge a primeira declaração do ano: Ogier diz‑se feliz por estar ali, admite que Monte‑Carlo é sempre um lugar especial e avisa que aquele sol pode ser o último da semana. Fala de um rali “traiçoeiro”, de um carro que “pelo menos parece incrível”, e deixa a sensação de que, por trás do sorriso, já calcula os riscos de um fim de semana imprevisível.

Poucos minutos depois, Elfyn Evans entra em cena e faz o que melhor sabe: ser rápido sem alarido. O galês melhora o tempo do colega em 1,2 segundos e, no final, resume a atmosfera num comentário seco: vem aí um Monte “típico”, ninguém sabe bem o que esperar e tudo parece particularmente desafiante. Era o retrato perfeito da incerteza – estrada seca à frente, mas borrasca anunciada no horizonte.

A Hyundai decidiu jogar um jogo diferente. Thierry Neuville surgiu com pneus de pregos num asfalto sem neve, como se estivesse a ensaiar um futuro que ainda não chegou. O belga completou o shakedown quase dez segundos mais lento do que Evans, mas deixou claro que o cronómetro hoje valeu menos do que as sensações. “Ninguém sabe o que o tempo vai trazer. Vai ser muito exigente. Quis apenas sentir os pneus com pregos.” Pouco depois, Adrien Fourmaux repetiu a aposta da equipa, também ele com pneus ‘cravados’, assinando um tempo ainda mais discreto. Para o francês, este Monte‑Carlo é quase um rali caseiro, uma prova carregada de significado pessoal; garante que quer desfrutar e fazer melhor do que em 2025, mesmo que para isso tenha de sacrificar um tempo de shakedown.

É então que a Toyota muda o tom do guião. Takamoto Katsuta lança‑se para a especial com uma expressão decidida e uma frase que resume o seu estado de espírito: “Nova época, mente fresca.” Quando cruza a linha de meta, o cronómetro pára em 2m31,8s – o melhor registo até então, um tempo que parece, de súbito, redefinir a fasquia. Katsuta fala de um “grande ano” pela frente, de vontade de entregar resultados, e o seu sorriso tranquilo contrasta com o peso que sabe ter acabado de colocar nos ombros.
O ataque japonês é apenas o início da investida da Toyota. De seguida, aparece Sami Pajari, que se instala provisoriamente na terceira posição. O finlandês confessa que é “bom estar de volta”, admite que a pausa nem foi tão longa quanto isso, mas lembra que, apesar das condições agradáveis no shakedown, o rali será seguramente complicado. Minutos depois, o ambiente ganha um tom quase cinematográfico quando o novo reforço da marca, Oliver Solberg, atira o Toyota para segundo lugar da tabela. No final da especial, o sueco fala com brilho nos olhos: diz que é um sonho tornado realidade, que estava nervoso, mas que tudo correu bem. A sua estreia a tempo inteiro em Rally1 tem início como uma sequência de filme: novo capacete, novo estatuto, segundo mais rápido logo à primeira.

Do lado da M‑Sport Ford, Gregoire Munster estreia os carros azuis no asfalto de Gap. Cruza a meta em sexto, é o primeiro representante da equipa a aparecer na tabela e reconhece que há pormenores a afinar, mas não esconde a satisfação de estar ali e “divertir‑se”. Logo a seguir, Josh McErlean completa uma passagem limpa e sobe ao mesmo sexto posto, mostrando que os Ford podem estar mais perto do topo do que se pensava. “Temos pela frente um desafio tremendo. Esta é uma bela estrada de asfalto, mas veremos”, avisa o irlandês, consciente de que o shakedown é apenas o prólogo.
A Hyundai procura respostas num asfalto que não perdoa distrações. Hayden Paddon, outro dos reforços da marca, completa a sua tirada com um susto: falha a travagem para uma zona de ponte, alarga a trajectória e toca ligeiramente, deixando o pára‑choques dianteiro marcado. “Foi apenas um pequeno momento”, minimiza. Precisa de sentir o carro, sabe que o rali será duro e admite que a equipa está “no fundo da piscina”, prestes a nadar em águas agitadas.
No meio deste turbilhão de estreias e ajustes, um estreante absoluto em Rally1 escreve a sua primeira linha no Mundial. Jon Armstrong, nervoso mas focado, guia o seu carro pela especial de 4,25 quilómetros e consegue um oitavo lugar provisório, apenas a meio segundo dos Ford mais experientes. No final, fala da dificuldade de começar logo em Monte‑Carlo, da quantidade de notas novas feitas na reconhecida e da aprendizagem com pneus e carro. Confessa que ainda procura o ritmo, mas admite que o tempo “não parece nada mal”.

E então, quase como se o guião precisasse de um momento de nostalgia para equilibrar tanta novidade, surge o regresso de um nome mítico. As novas Lancia Ypsilon HF Integrale Rally2 entram finalmente em acção, e Yohan Rossel fixa o primeiro tempo competitivo da marca no seu regresso ao Mundial: 2m43,8s. Pouco depois, o carro‑irmão de Nikolay Gryazin regista exatamente o mesmo tempo. As duas Lancia ficam unidas até ao milésimo, como se quisessem sublinhar que a história do emblema italiano volta a escrever‑se em bloco. Mais atrás, Roberto Dapra relata uma pequena saída de estrada, reforçando que mesmo num simples shakedown Monte‑Carlo não perdoa.
À medida que os carros regressam ao parque de assistência, os números ganham forma definitiva. Katsuta mantém‑se no topo com o seu 2m31,8s; Solberg confirma o segundo melhor tempo, a 2,9s; Evans fecha o trio da frente, apenas três décimos mais lento do sueco. Pajari assegura o quarto lugar, Ogier fica em quinto, gerindo o início de um rali que conhece como poucos. Atrás surgem McErlean, Munster, Armstrong e Paddon, todos com margens ainda razoáveis, enquanto Gryazin coloca a Lancia na décima posição geral e assina o melhor tempo entre os WRC2.

Na folha oficial, os tempos aparecem alinhados em colunas. Mas, no asfalto de Gap, o que fica é a sensação de um filme que acabou de mostrar o seu primeiro teaser: a Toyota com quatro carros no top‑5, a Hyundai a sacrificar tempo em nome de dados, a M‑Sport a surpreender pela positiva, a Lancia a renascer com tempos gémeos e um pelotão de pilotos a tentar decifrar um Monte‑Carlo que, por enquanto, se mostra benigno.
Quando o sol começa a descer atrás dos Alpes e as primeiras previsões de neve regressam às conversas de assistência, uma ideia torna‑se clara: se o shakedown já pareceu um trailer carregado de tensão, o verdadeiro clímax ainda está por chegar, e este Mundial de 2026 acaba de ganhar o seu primeiro protagonista – um Katsuta confiante no topo da tabela, com um pelotão inteiro pronto para o tentar destronar assim que o primeiro cronómetro oficial voltar a contar.
FOTOS @World
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[email protected]
21 Janeiro, 2026 at 19:18
Será que o tempo “gémeo” dos Lancia na estreia quer premeditar algo?!
(Boa Sorte Evans)
[email protected]
21 Janeiro, 2026 at 19:32
Aproveitando o titulo deste artigo:
“O filme do 1º confronto:” Com o site do Autosport!
Continua neste Ano Novo a testar a paciência de quem quer navegar o site e/ou comentar…