Já não se ouve falar dela há alguns anos, mas Rosário Sottomayor, antiga piloto portuguesa, que andou nas pistas e nos ralis, continua bem presente na mente da generalidade dos adeptos em Portugal.
Com uma vasta e multidisciplinar carreira no automobilismo, marcada pela paixão, resiliência e inúmeras conquistas, deixou uma marca que mais de três décadas depois continuamos a sentir que não pode ser esquecida.
FOTOS Arquivo AutoSport
A sua paixão por rodas e velocidade começou muito cedo, com brincadeiras com carrinhos de rolamentos aos dois anos e a condução de automóveis sozinha aos sete.
Após assistir a uma prova de Fórmula 2 no Estoril, decidiu tornar-se piloto. Em 1982, tornou-se comissária de pista na ACDME para se aproximar do desporto. Frequentou o curso de pilotagem da Brands Hatch Racing School, destacando-se como a 5ª melhor entre 800 alunos, o que lhe permitiu obter a licença de piloto sem cumprir os requisitos habituais.
Estreou-se em 1986 nas “3 Horas de Resistência do Estoril” e, no mesmo ano, na Fórmula Ford. Atingiu o ponto alto da sua carreira na Fórmula Ford ao conquistar o título absoluto de Campeã Nacional de Fórmula Ford 1600 em 1993.
Enfrentou problemas mecânicos e falta de apoios, chegando a fazer a manutenção do seu próprio motor para continuar a competir.
Apesar da paixão pela Fórmula Ford, Rosário Sottomayor competiu em diversas categorias, incluindo o Campeonato Nacional de Velocidade, FEUP, AXA Golden Cup, Campeonato Nacional de Rali, provas de resistência de clássicos e competições femininas como a AXA Ladies Cup e o “Ladies Rally Trophy”.
Um grave acidente no “Formula Ford Festival” resultou na destruição do carro e lesões sérias, obrigando-a a um período de recuperação, durante o qual competiu por lazer em karting.
Vice-Campeã Nacional de Velocidade (2002): Conquistou o segundo lugar no Campeonato Nacional de Velocidade, uma época agridoce marcada por imprevistos e problemas fora da pista que a impediram de lutar pelo título. Enfrentou longos períodos de ausência das pistas (como 2002-2007) devido à falta de patrocínios e a desilusões com a organização desportiva.
Voltou em 2007 no Desafio Único FEUP com um Fiat Uno 45S, onde obteve o 1º lugar no Troféu Feminino com a parceira Ana Sampaio.
Participou no Troféu Ford Transit, em Sport Protótipos (Radical SR3), e em ralis (Ladies Rally Trophy em 2015), onde se adaptou a uma nova dinâmica de condução e navegação.
Em 2017, iniciou uma nova fase na Fórmula Ford / Single Seater Series, culminando com o título de Campeã na classe PT (Tuga) em 2020 ao volante de um carro totalmente desenvolvido por um amigo.
Teve uma vitória Histórica na Rampa do Caramulo (2019): Conquistou o 1º lugar geral na Rampa do Caramulo, tornando-se a primeira mulher a vencer a prova à geral com o ‘Apis’.
Rosário Sottomayor teve uma sua carreira que é um exemplo de dedicação e amor inabalável pelo desporto motorizado.
Rosário Sottomayor (22/03/1963, Cascais): a ‘menina da Linha’
Pequena, franzina, Rosário Sottomayor estava em 2014, quando com ela fizemos este trabalho, quase igual ao que era, quando a conhecemos mais de 25 anos antes. Há duas décadas, tinha-se sagrado Campeã Nacional de Fórmula Ford, tornando-se na única mulher a consegui-lo, em toda a Europa. Nesse ano, terminou a sua carreira, após um pavoroso acidente em Brands Hatch. Regressou mais tarde, corre ainda hoje aqui e ali, cada vez menos, mas “já não é o mesmo”. Do céu ao inferno, eis um pouco da sua história de vida.
Rosário Sottomayor nasceu, cresceu e vive “na Linha”. Nunca andou de “kart”. “Os meus ‘karts’ foram os carrinhos de rolamentos, em que comecei a andar tinha dois anos.” Ironicamente, estas corridas, as de “kart” têm sido o alimento da sua paixão, nos últimos anos onde brilhou em algumas vitórias, especialmente em provas de grande duração. Hoje, “a coluna [recordação de Brands Hatch] e um ombro calcificado” impedem-na quase totalmente de ir dando asas à sua paixão, à paixão que a moveu toda a vida e de que teve de abdicar “após tantos sacrifícios” e lkogo no ano que deveria ter sido da consagração e do lançamento para mais altos voos.
Mesmo assim, garante nada há que a impedisse de comemorar os 20 anos do título, com o regresso aos monolugares, em 2014, numa corrida da Single Seaters Series: “Tenho que fazer isto! Depois, logo se verá o que acontece!”
A menina que era comissária
“Ninguém na minha família estava ligado aos automóveis. Mal comece a andar de carrinho de rolamentos, disse logo que era quilo que queria ser quando fosse grande: piloto de carros! Apesar disso, fui sempre muito apoiada e seguida de perto pelo meu irmão e pela minha mãe.”
Aliás, é por isso que começou por onde estava a emoção, “como comissária no Autódromo do Estoril.” Tinha 18 anos e carta de condução ainda fresquinha: “Tirei a carta, mas nunca mais conduzi, a não ser o UMM preso por arames que havia no autódromo.”
Até que, um belo dia, foi lá a Brands Hatch Racing School, dar um curso e apresentar a Fórmula Ford: “Inscrevi-me logo!” Ela e mais cerca de 799 candidatos: “Foi surreal! Não guiava desde que tinha tirado a carta. E, para piorar as coisas, chovia torrencialmente.
Depois de uma parte teórica, veio a prática. Os monitores eram estrangeiros e, entre eles, havia o Damon Hill. Mas não me calhou a mim, mas sim um rapazinho muito calado, que não me lembro quem era. As primeiras voltas à pista eram feitas com um Ford Escort XR3i. Sentei-me, apertei o cinto e pensei: ‘E agora? Não consigo chegar aos pedais!’
Disse isso mesmo ao monitor e ele, espantado, aconselhou-me a chegar o banco à frente. ‘Mas como se faz isso?’ perguntei-lhe. O coitado quase teve um ataque de coração!” Contas fitas, foi quinta no curso, “em 800 pessoas.
A minha cabeça era um mata-borrão! Absorvia tudo o que me diziam!” No “fórmula”, foi outro problema: “Bem que encheram o banco com esponjas, mas mesmo assim não havia forma de eu chegar aos pedais. Felizmente, correu tudo bem, exceto um pião que fiz na última volta. Se tivesse sido na primeira, adeus! Era o regresso imediato às boxes.” E tinha-se perdido uma futura campeã.
Sangue suor e lágrimas
A partir daí, desse ano de 1985, a vida de Rosário Sottomayor nunca mais foi a mesma. Ainda nesse ao, fez o curso de pilotagem de Fórmula Ford no Estoril, “oferecido pelo João Paulo Theotónio Pereira.” A sua estreia absoluta na competição foi em 1986, nas 3 Horas do Estoril, com um Alfa Romeo GTV6: “Fiz o melhor tempo da equipa” – recorda. A sua primeira prova de Fórmula Ford, “para experimentar”, foi nesse mesmo ano, “com o carro do curso, afinado pelo PêQêPê, pois para o curso não eram precisas nenhumas afinações.” Terminou em 11º lugar, “deixando para trás outros nove pilotos.”
A partir daí, só parou em 1993. E, pelo caminho, colecionou experiências, muitas desilusões, muitas esperanças cortadas cerce. Mas também muitas alegrias, muitos pódios, muitos triunfos, um título inédito e único. Uma vida de sangue, suor e lágrimas.
Ao contrário de muitos outros pilotos, tem as taças e troféus que ganhou “todas expostas. Sinto um grande carinho por todas elas. Cada uma é um pedaço da minha vida que ali está.”
Apesar das dificuldades, apesar de toda a discriminação que sentiu (“O meu carro era sempre ‘sorteado’, mas nunca me apanharam em nada! O meu motor era sempre o único a ser aberto. Eu andava lá na frente, no meio deles, era melhor que eles e ninguém admitia isso!”) nunca pensou desistir. Nem quando a dor a isso aconselhava: “Em 1988, fui para uma prova no Estoril com uma costela partida.
Doía-me, mas o Raio-X não acusou nada, pois era na curvatura, muito difícil de ver. Ao meter a marcha-atrás no meu W Brasilia, com o esforço a coisa piorou. Mesmo assim, fiz os treinos, onde essa tal costela abriu e furou-me o pulmão, mas nunca senti nenhuma dor. O problema foi quando parei: levaram ‘horas’ para me tirar do carro! Mesmo assim, fui para a prova, à base de comprimidos e fiz a corrida. Com a adrenalina, não houve dor que eu conseguisse sentir. Nada!”
Dor de alma
A dor pior que sentiu, essa foi da alma: quando teve que deixar as pistas, a seguir ao seu acidente em Brands Hatch: “Tantos sacrifícios para isto!” – pensei eu na altura.” Mas voltou : “Em 1999. Pela primeira vez em seis anos, guiei um ‘fórmula’, no Estoril.” No caso, um Fórmula BMW: “Foi só uma prova e o carro não andava, pois tinha o catalisador entupido.”
Nesse ano, venceu a AXA Ladies Cup, competição só para senhoras, que se realizou em Vila do conde, com “os Fiesta do [João] Anjos”. Não era a primeira vez que fazia “turismos”: ainda no tempo da Fórmula Ford, fez em duas temporadas algumas corridas do Troféu Citroën AX GTi.
No ano seguinte, repetiu o triunfo na AXA Ladies Cup, com os Rover 25. O ano de 2002 representou o seu primeiro ano de corridas a tempo inteiro desde o acidente: fez o CNV, na Classe 1600, com um Citroën Saxo foi 2ª classificada “à geral” no campeonato. Mais cinco anos de paragem, entrecortada por algumas corridas de “karting”, as 24 Horas de Évora de 2005 e, em 2007 arrisca fazer o Desafio Único da FEUP, num FIAT Uno 45s.
Com Ana Sampaio, terminou em 5º e foi a melhor Equipa Feminina, façanha que repetiu em 2008, baixando no entanto, um lugar na geral. Em 2010 e 2011, voltou a fazer o “troféu da FEUP”, mas agora com a Joana Magalhães. No primeiro ano foi 10ª e de novo a melhor Equipa Feminina, mas no seguinte“as coisas não correram muito bem”.
Há uma década era engenheira mecânica, e responsável “pelas auditorias BER para todas as áreas de negócios e pós-venda” na Mercedes-Benz Portugal, bem como pela imagem de marca [“Corporate Identity”] e pela base de dados internacional da Daimler. “Uma coisa que me dá muito gozo, mas muitíssimo mais trabalho. Chego a fazer 1.100 quilómetros de carro num dia… com reuniões pelo meio!”
E pelo meio, ficou também “um convite para fazer o campeonato francês de F3, em 1988” e experiências “únicas” numa Ford Transit do Troféu respetivo, em Braga; num Caterham (“o primeiro carro com volante à direita que guiei”); e num Radical SR3, já este ano. Recordações sentidas de uma vida bem preenchida.
O dia em que tudo (quase) terminou
Em 1993, Rosário Sottomayor tinha 30 anos e, a duas provas do final do campeonato português, estava na frente da pontuação reservada aos FF 1600 – que tinha então uma classificação própria, tal como os FF 1800, onde o líder era Gonçalo Gomes. A convite da Mobil, que patrocinava o campeonato português, viajaram até Brands Hatch, para tomar parte no Fórmula Ford Festival, então uma espécie de “Campeonato do Mundo” daquela competição. Para a piloto portuguesa, as coisas começaram e terminaram na primeira sessão de treinos particulares, que tiveram lugar logo na quarta-feira anterior à prova (o FFF era uma festa e durava uma semana quase inteira de corridas e manifestações desportivas, englobando mais de duas centenas de pilotos de todo o Mundo, que iam sendo eliminados sucessivamente até se chegar à Final, no domingo).
“Não me lembro de nada, a não ser de entrar na sala do pequeno-almoço no hotel que, pelos vistos, nem sequer tomei, por estar muita gente. Quem me contou estas coisas foi o meu irmão. Entrei em pista, fiz a minha primeira volta devagar, para perceber como as coisas eram e, de seguida, entrei no meu ritmo. Nessa altura, das boxes via-se a pista toda e, segundo me disse, depois o meu irmão, um piloto colou-se à minha caixa de velocidades logo no gancho grande, lá em cima [Druids] e seguiu-me assim toda a volta. Era uma coisa normal, não havia nenhum problema nisso. Na reta da meta, tentou sair do meu cone de ar, mas calculou mal e acertou-me com mais força na caixa de velocidades, atirando-me, para fora da pista.
O problema é que isso aconteceu já depois do muro das boxes, onde era a saída das boxes. Não tive qualquer hipótese. Bati de frente no muro. Se fosse mais atrás, tinha batido de lado, com uma roda e talvez desse para continuar, com algumas mazelas no carro, mas sem problemas para mim. Ali, não: o choque foi brutal. Quando chegaram ao pé de mim, não tinha sinais vitais. Socorreram-me durante muito tempo dentro do carro, antes de me tirarem para o chão, onde continuaram a tentar reanimar-me. Depois, isso continuou também na ambulância e no caminho para o hospital. Fiquei em coma profundo e nos anos seguintes tive que fazer várias operações e tratamentos a problemas que me ficaram para sempre. Durante dois anos não fiz provas. Como eu costumo dizer, tive que pagar um preço muito alto por ter ganho um campeonato: deixar de correr, que era a razão da minha vida.”
Porém, a resiliência é uma das caraterísticas da sua personalidade. Faltavam ainda duas provas (uma jornada dupla) em Portugal para se sagrar Campeã Nacional de Fórmula Ford 1600 e, apesar de estar no comando, matematicamente o brasileiroNelson Bastos podia passar-lhe à frente. Assim, decidiu fazer “as últimas duas provas, em Braga, com um carro emprestado pela Swift.” O 4º e o 2º lugares em que terminou garantiu-lhe o primeiro (e único) título feminino de Fórmula Ford, na Europa.
“A minha melhor corrida”
“Em 1990, fiquei sem patrocinador, que era o JH Fernandes Lopes, um despachante oficial. Na mesma altura, zanguei-me com o meu irmão, que era quem sempre me apoiou e acompanhou e fiquei sem a ajuda dele. Para piorar as coisas, o motor do meu carro tinha gripado. E as coisas ficaram tanto mais feias, quanto era o meu irmão quem me afinava o carro e fazia de mecânico.
Mas eu sou muito casmurra – quando me dizem que não, é quando eu faço, para provar o contrário. Então, decidi fazer tudo sozinha: tinha que estar pronta para a temporada e nada me iria impedir de o conseguir. Desmontei o motor, peça por peça, com a ajuda da minha mãe e o credo na boca. Cataloguei cuidadosamente todas as peças, por ordem em que a tirava, para que depois nada saísse errado. Abri o motor, reparei-o e voltei a montá-lo.
Pintei o carro no jardim – foi a primeira vez que peguei numa pistola de pintar. Afinei-o, o que foi a coisa mais complicada de fazer, pois tive que por no “cockpit” exatamente o meu peso, para conseguir as afinaçõescertas. Sangrei os travões com a ajuda do meu namorado de então, um ‘nabo’ em mecânica e que torceu os tubos dos travões até os partir. Fiz os autocolantes à mão e colei-os. Foi a noite inteirinha nisto eo carro só fiou pronto duas horas antes da primeira prova, no Estoril.
Depois de o pôr no atrelado, foi só o tempo de tomar um banho e rumar à pista. Nos treinos, fiz o 3º terceiro tempo, o meu melhor de sempre. Mas, na largada, porque uma mola da caixa se partiu, meti a marcha-atrás, em vez da 1ª. Como eu sempre arranquei muito bem, imagine-se o espanto dos outros (e o meu!) quando arranco de marcha-atrás!
O Vaquinhas, que estava mesmo atrás de mim, disse-me depois que foi tudo tão rápido que pensou que era ele quem tinhaarrancado de marcha-atrás! Felizmente ninguém me tocou e eu não acertei em ninguém mas, quando finalmente consegui meter a 1ª, já eles estavam atravarno finalda reta! De raiva, passei toda a gente, até o [Carlos] Azevedo, na Parabólica, sem respeito nenhum por ele!
Ainda hoje ele não me “perdoou” o atrevimento! Terminei colada ao Paulo Longo, que venceu e sempre acreditei que, com mais uma volta, a vitória era minha. Fiz também a volta mais rápida da prova. É preciso que se diga que o meu carro era de 1987 e estávamos em 1990! Esta foi a corrida da minha vida! A que mais gozo me deu fazer, sem dúvida!”
Por Hélio Rodrigues, In Memoriam