A raiz do sucesso: revisitando os primeiros passos de Félix da Costa no desporto motorizado
Numa altura em que António Félix da Costa acaba de triunfar pela 13ª vez num dos campeonatos mundiais mais competitivos do desporto motorizado, a Fórmula E, recuperamos uma entrevista com precisamente 20 anos, publicada no jornal AutoSport, que traçava um retrato muito nítido de um jovem ‘kartista’ português no auge da sua afirmação internacional. Nessa altura, sublinhávamos que o piloto de Cascais, com apenas 14 anos, liderava o mais competitivo campeonato mundial de karting após uma vitória categórica no WSK e também no Open de Portugal, assumindo o estatuto de grande esperança da modalidade em Portugal.
Hoje, ao revisitar essas linhas, lembramos como o “Formiga” surgia descrito como um miúdo de pequena estatura, mas com uma maturidade em pista rara para a idade. Citamos Nuno Couceiro, então responsável da Couceiro Júnior Team, que via em Félix da Costa um olhar iluminado por estar a fazer exatamente aquilo de que gostava, e garantia que o melhor ainda estava para vir. Também registámos o testemunho de Filipe Albuquerque, já ligado à Red Bull nos fórmulas, que sublinhava a “cabeça” do jovem colega de equipa e a capacidade de gerir corridas sob pressão.
O artigo de 2006 enfatizava ainda o arranque fulgurante dessa época: triunfos no WSK, no Open de Portugal e na abertura do Open Italiano, depois de um ano anterior passado fora de portas, marcado por bons sinais travados pelo azar. Era o próprio Félix da Costa a explicar que, no terceiro ano de Júnior, sentia a obrigação de andar na frente e que tinha “arrumado a cabeça” no defeso, tornando-se mais organizado e racional em pista, apesar dos 20 quilos de lastro que o obrigavam a carregar no kart. Relíamos também a forma como conciliava testes e corridas em Itália, França e Portugal com a escola, insistindo em dar o máximo nos estudos.
Passadas duas décadas, o olhar do jornalista que assinou aquele texto, Licínio Aniceto, ajuda-nos a perceber, em retrospetiva, como muitos dos traços então identificados – a maturidade precoce, a resiliência perante o azar, a ambição clara de ser profissional – acabariam por marcar a carreira que conhecemos hoje.
É por isso um excelente pretexto para recordar esse momento: porque, ao voltarmos a essas linhas de 2006, entendemos melhor o caminho que Félix da Costa percorreu desde os karts até ao topo do desporto motorizado, onde agora está.
Texto de 2006:
No competitivo mundo do karting, António Félix da Costa tem sido um dos pilotos em evidência neste início de temporada. A mais jovem esperança do karting português lidera o mais competitivo campeonato do mundo da modalidade, depois de antes ter rubricado uma inapelável vitória no Open de Portugal.
Com apenas 14 anos de idade, o “Formiga”, como é carinhosamente apelidado no meio, parece talhado para altos voos, demonstrando uma maturidade e capacidade de raciocínio só ao alcance de poucos. «É um miúdo que, vê-se pelo brilho dos olhos, está fazer aquilo que gosta. Se ainda não teve melhores resultados foi devido à sua pequena estatura. Esta época está a ter muita maturidade e tranquilidade e isso revela-se nos resultados. O melhor dele ainda está para vir». Quem o afirma é Nuno Couceiro, responsável máximo da Couceiro Júnior Team (CGT), equipa que está com o jovem piloto de Cascais desde que este deu os primeiros passos na modalidade.
Quem também reconhece qualidades ímpares a Félix da Costa é Filipe Albuquerque. O piloto que agora defende as cores da Red Bull nos fórmulas, sabe bem do que fala, pois não só esteve na alta roda do karting, como durante várias épocas foi seu colega de equipa: «É um piloto com muita cabeça para a idade que tem. Quando tinha a idade dele, não tinha a mesma capacidade de gestão de uma corrida. Se continuar a evoluir pode vir a fazer a diferença. A partir de agora vai passar a ter que aguentar a pressão de ser sempre um dos favoritos. Penso que vai correr tudo bem, pois está ao pé de quem sabe», concluiu Albuquerque.
Depois do ano passado, numa temporada toda ela passada além fronteiras, os bons registos terem sempre sido travados pelo infortúnio, António Félix da Costa entrou em 2006 a todo o gás. Começou por vencer a primeira corrida, do WSK, o Open de Portugal e a primeira prova do Open Italiano. Um volte face, que não surpreendeu o piloto, e ao qual o próprio reconhece que tem razão de ser: «Este é o meu terceiro ano de Júnior. Por isso, com toda esta experiência acumulada, tinha a obrigação de andar na frente. Se não fosse agora, não era nunca. O ano passado, quando alguém batia, eu estava sempre envolvido na confusão. Tinha diversos azares, mas parece que estes calharam-me sempre a mim. Durante o defeso, foi como se tivesse arrumado a minha cabeça. Agora sou mais organizado e racional e isso reflecte-se em pista. Em 2005, nos treinos cronometrados, passava o tempo todo à espera de um cone de ar. Agora acho que não preciso disso para fazer um bom registo e o facto é que os tenho feito mesmo», refere António Félix da Costa. Com a sua pequena estatura, o piloto da CRG é obrigado a levar no kart 20 quilos de lastro, o que faz do português o piloto que em Itália leva mais “chumbo” para uma prova. Uma situação que levanta alguns problemas em corrida, como o próprio o explica e de uma forma bastante curiosa: «Tenha algumas vantagens, mas as desvantagens são muito maiores. Em condução à chuva, por exemplo, é como se o peso se arrastasse. É mais ou menos como os barcos. Um barco grande e pesado leva quilómetros a parar, um pequeno e leve apenas alguns metros…»
Entre sessões de testes, corridas em Itália, França e Portugal, os compromissos escolares acabam por ser sacrificados, mas nunca por nunca descurados. «Tal como acontece quando estou nas corridas, dedico-me ao máximo na escola. Como falto muitas vezes, o meu esforço até acaba por ser maior que o de muitos outros alunos, pois há professores que são mais compreensivos e outros não. Mas como todos os pilotos, o que eu gosto mesmo é de estar nas corridas. Quando estás numa pista de quarta a domingo, sempre em “stress”, longe de casa e dos amigos, e ainda assim estás sempre a pensar em corridas e consegues ser rápido, ficas sem dúvidas que é isso que queres fazer para o resto da tua vida. Quero ser piloto profissional, por isso pretendo chegar o mais longe que puder».
Como bom “profissional” que é António Félix da Costa não deixa de fazer um apelo ao jornalista: «O desporto automóvel é cada vez mais caro e sem dinheiro é muito difícil estar no nível onde estou. Por isso, gostava que escrevesse o nome das empresas que me têm apoiado e que são o Barclays, Richard Ellis, Tranquilidade, Prestige, Avis e TAP. Não me posso esquecer também da Couceiro Júnior Team e do Danilo Rossi, pelo apoio técnico e moral que me têm dado. E por último o meu pai, que é a pessoa que mais torce por mim e que mais sofre com as minhas corridas».
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