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Quando o Dakar era uma beleza africana

José Luis Abreu by José Luis Abreu
3 Janeiro, 2024
in AutoSport Histórico, DAKAR, pv2, TT
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Quando o Dakar era uma beleza africana

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Paisagens idílicas, um pôr-do-sol maravilhoso e a sensação de pequenez perante a imensidão do deserto são algumas das emoções do Dakar africano. Pedro Vilas Boas e Pedro Cortez recordam com o AutoSport a primeira vez que foram ao Dakar na companhia de José Megre

Foram de UMM, e não de Portaro, embora Hipólito Pires, a exemplo dos irmãos Baptista da Silva, também lhes tivessem emprestado uma viatura para testes. Pedro Cortês acabou por escolher o primeiro pela sua “simplicidade mecânica”, com menos ‘coisinhas’ por onde partir, enquanto “o Portaro tinha uma suspensão mais trabalhada”. E a verdade é que não se saiu nada mal. “Tivemos zero problemas. Foi um ano sossegado e tranquilo. De vez em quando umas coisas com a caixa de velocidades que passava para a caixa de transferência, mas nada de especial. Era colocar gasóleo, dar uma vista técnica nos travões e verificar se havia folgas no eixo da frente”, contou-nos a propósito da edição de 1982, aquela em que o grupo composto por si e por José Megre, Manuel Romão, Joaquim Miranda, Diogo Amado e Pedro Vilas Boas se aventurou pela primeira vez no rali Dakar, abrindo caminho para uma nova vaga de exploradores portugueses.

BICHOS RAROS
O cortejo foi dividido em três carros: José Megre e Manuel Romão no primeiro UMM, Pedro Cortês e Joaquim Miranda no segundo, a servir de ‘mini-assistência’, e Diogo Amado e PedroVilas-Boas na terceira viatura, carregada de peças e quase sempre a última a chegar ao final das etapas. Logo aqui havia uma surpresa, com Vilas-Boas a assumir-se como uma aquisição de última hora para o lugar de Manuel Mello Breyner. Zangado com os irmãos Baptista da Silva, o atual presidente da FPAK acabaria por revelar a sua indisponibilidade para participar na prova poucos dias antes da partida para Paris.

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A viagem até à capital francesa foi feita ao volante, embora os UMM ainda não estivessem prontos, recorda Pedro Vilas Boas: “Foram sendo trabalhado daqui até lá, essencialmente do ponto de vista elétrico, e ainda tivemos que mudar uma caixa de velocidades em Espanha, no meio de uma serra qualquer.” Chegaram a Paris de noite e foram logo para o parque fechado: “Lembro-me de olhar assim para o lado e só via bólides, não é; carros de corrida a sério… E os nossos pareciam assim uma coisa do século passado. O UMM era um carro muito básico e os nossos particularmente tinham esse aspeto. Aliás, no dia seguinte foram motivo de grande admiração – as pessoas achavam graça. Fotografavam-nos”, acrescenta. Já a Pedro Cortês vêm à cabeça outras memórias: “Era tudo gente francesa, de maneira que há franceses e depois há os outros que habitam o mesmo planeta. Para eles aquilo era uma coisa que nem valia a pena olhar, nem considerar. Para o clã dos participantes já estava tudo decidido. A informação só caía nuns quantos que tinham nomes sonantes e depois havia uns tipos que faziam parte da procissão, que não eram de maneira nenhuma protagonistas. De maneira que ninguém ligou patavina aquilo – os UMM eram mais uns carros.”

Tudo mudou a partir do prólogo: “Aí já começaram a cair umas perguntas, porque não esperavam. Nessa altura, para os franceses os portugueses ou eram porteiros, ou eram a empregada de limpeza, ou eram funcionários – e não patrões – de um ou outro restaurante. Eram bichos raros. Diziam que eram boa gente e tal, e que tiveram uma empregada portuguesa, muito simpática. Vinham sempre com essa conversa do empregado, do subalterno, e não sei quê; e isso entrava em todas as conversas”, lembra. O que os franceses não esperavam – e a própria comitiva portuguesa – é que um casal amigo de Thierry Sabine, composto por um “comandante da Air France”, Patrick de seu nome, e uma “portuguesa de Torres Vedras” que faziam sempre férias no Dakar para ajudar ao desenrolar da prova se tornassem também seus amigos: “O Patrick era um dos homens que dava quase sempre as partidas e fazia muitas chegadas. Era um homem do cronómetro, do rigor, e a mulher dele era uma portuguesa de Torres Vedras. Foi uma companhia e uma fonte de informação de tudo o que se ia passando que não esperávamos e que depois se manteve pelos anos fora”, revela Pedro Cortês.

NÃO SE APRESSEM
Apesar da natureza competitiva da prova, o Dakar era também um exemplo de pioneirismo e aventura que atraía os fanáticos pelo cronómetro, sem dúvida, mas também aqueles que simplesmente queriam conhecer um novo continente, colocar-se à prova e superar alguns medos. O grupo de portugueses que participou na edição de 1982 estava mais próximo desde último leque de concorrentes, mas todos eles viveram experiências distintas, até pela forma como as duplas estavam feitas. “Nós passeámos por ali fora”, lembra Pedro Cortês. “Já não foi a mesma coisa para o carro de assistência do Vilas-Boas e do Diogo Amado. O Diogo era um funcionário da UMM com um ótimo feitio. Super simpático, super disponível, e conhecia muito bem os detalhes das peças. Sabia o nome da peça caso fosse preciso mandar vir qualquer coisa; digamos que representava ali a fábrica naquele momento. Mas não era piloto; era um bom todo-o-terrenista, mas não era a mesma coisa do que um piloto. E o Vilas Boas, muito menos – um aventureiro, um homem conhecedor de terreno e um fantástico batedor, ótimo a ler cartas, e um ótimo navegador. Mas também não era propriamente navegador de ralis. Isso ele não sabia, nem experiência tinha. Mas isso também só levava o Zé Megre. Portanto, o terceiro carro era um depósito de peças. E por isso dizíamos: ‘Calma, não se apressem. Não estejam preocupados em fazer tempos nem nada dessas coisas. Vão aparecendo todos os dias.’ Para eles foi uma aventura muito grande. Falando com o Vilas Boas, o Diogo Amado, ou comigo ou com o Zé Megre, as coisas são completamente diferentes. Nós íamos ali para passear e para nos divertirmos. Foi um assim um turismo tão rápido quanto possível. O Megre, por exemplo, parava diversas vezes, agarrava na câmara de filmar e filmava mesmo. Eles realmente iam a exceder-se de todas as maneiras e feitio. Sofreram bastante, não há dúvida nenhuma.”
PedroVilas Boas confirma que a grande preocupação do UMM 218 era prestar assistência aos restantes. “O nosso carro, embora corresse, era tido como o carro de apoio. E portanto tínhamos que chegar ao fim com as pecinhas para depois se arranjarem os outros.” Quando finalmente chegavam ao bivouac era tempo de comer e descansar para o dia seguinte, enquanto Zé Megre e Pedro Cortês tinham tempo para ver as vistas, conversar: “Nós chegávamos e era montar a tenda, correr para jantar e depois dormir porque na manhã seguinte lá partíamos de madrugada. Portanto não havia aqui um aspeto lúdico (risos). Aquilo era duro. Duro a sério. As equipas de ponta, que chegavam mais cedo e tinham o acampamento preparado pelo seu pessoal dispunham de outra disponibilidade de tempo. Nós não.” O co-piloto de Diogo Amado (e piloto nos dois últimos dias quando um acidente obrigou-o a passar para o volante enquanto Amado suportava as dores de uma perna partida) acrescenta: “Repare que nós tínhamos de fazer tudo. A equipa do primeiro ano eram seis pessoas. O Megre levava o Manuel como navegador, ele era o navegador oficial desta participação. Depois o Cortês levava o mecânico, que era o Miranda, e eu ia no terceiro carro, que era para ter sido pilotado pelo Manuel Mello Breyner. O Diogo Amado seria, enfim, um paquete (risos), e com a ausência do Manuel foi promovido a piloto e eu fui para o lugar dele. Portanto nos chegávamos ao fim das etapas e tínhamos de fazer a mecânica de todos os carros.”

A atraí-los a participar nesta aventura especial e inesquecível estava um homem com as mesmas características, José Megre: “Há uma coisa muito importante – é que isto era proposto pelo Zé Megre”, explica Pedro Cortês. “O Zé Megre era um tipo muito seguro, muito rigoroso em tudo o que era preparação e informação. Ele era exaustivo. Não brincava com coisas sérias de maneira nenhuma. Falou com meio mundo antes da nossa participação. Às tantas já era amigo do Sabine. Fomos à apresentação em Paris e essa gente da organização já sabia quem nós éramos. O Thierry Sabine tratou-nos com toda a amabilidade, com toda a deferência, porque aí já lá tinham, digamos, o nosso currículo como pilotos. E fui porque era ele a propor-me uma coisa destas, porque se fosse outro… Era uma maravilha confraternizar com ele, privar com ele uma data de dias. Um colegão de primeira – exatamente o contrário do que ele era por trás da secretária na sua atividade no Entreposto, como diretor técnico.” Já Pedro Vilas Boas destaca “a sua imensa curiosidade” por tudo: “Era uma pessoa que de facto onde se metia levava as coisas completamente a fundo. E depois tinha uma capacidade de trabalho também muito grande. Era uma figura singular, não há dúvida nenhuma.”

Sobre o Dakar e as maravilhas do deserto, apenas elogios: “Senti-me pequeno. Aquele acabar de dia, quando conseguíamos chegar de dia… (risos) Aquelas paisagens de deserto. Fiquei completamente rendido e posso dizer que a minha vida mudou radicalmente a partir daí. Completamente. Em todos os aspetos”, conta Pedro Cortês. Pedro Vilas Boas, por outro lado, destaca “o deserto das dunas”, inacreditáveis, e o Ténéré, “porque é um mar.”

O efeito da primeira participação portuguesa no Dakar, em 1982, foi uma vida marca para sempre pelo todo-o-terreno, a aventura, a sede por paisagens idílicas e a certeza de juntos fazerem parte de um grupo de pioneiros que inspirou as gerações portuguesas para o fenómeno do fora-de-estrada

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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