Estava sentado à secretária, com o Dakar a passar em fundo no monitor, quando aquela velha pergunta voltou a cair no Whats App: “É verdade que um camião já ultrapassou um carro em velocidade máxima no Dakar?”. Outra vez esta história? Ao mesmo tempo, lembrei-me logo daquele vídeo de 1988 que toda a gente que gosta de desportos motorizados já viu…
Na década de 1980, o Dakar era o retrato perfeito do exagero: quanto maior o motor, melhor. No meio dessa febre aparece um empresário holandês tão apaixonado por corridas como nós, Jan de Rooy.
Dono da maior empresa de transportes do país, fazia o que qualquer ‘petrolhead’ com dinheiro faz: torrava-o num sítio onde é quase impossível ganhar, mas tão fácil perder.
De Rooy nasceu em Eindhoven, na Holanda, em 1943. Começou a sua carreira no ralicross, em 1982 disputou o seu primeiro Paris-Dakar, a bordo de um camião DAF, em 1984, estreou a tração total no seu camião, deixando claro que aquele era o caminho para os camiões. Em 1986, chegou a África com o primeiro TurboTwin. Não só tinha dois motores à sua disposição, como também os turbocompressores aumentavam significativamente o seu desempenho. Foi desclassificado pela direção da prova pouco antes do final, mas no ano seguinte, de Rooy esteve imparável e acabou por conquistar a vitória na categoria de camiões, em 1987.
Depois de a DAF ter vencido, os holandeses queriam ir ainda mais longe e preparavam-se para talvez obter a vitória geral no Rali Paris-Dakar. Para 1988, foram construídos dois novos TurboTwin, o X1 e o X2. Ambos os eixos tinham o seu próprio motor com uns bons 600 cv, o que significava que Jan de Rooy e o seu colega de equipa Theo van de Rijt tinham cada um 1200 cv de potência disponível e que os camiões podiam atingir uma velocidade máxima de mais de 200 km/h. É aqui que se desenrola a ‘tal’ história…
O plano insano: ganhar o Dakar… com um camião
Contagiado pela moda dos motores enormes, De Rooy decidiu algo que hoje parece delírio: “vencer o Dakar à geral com um camião”. Não era só dominar a classe de camiões, era ir ‘lá acima’ bater carros e protótipos. Eu olho para isso e penso: como é que alguém achou que isto era razoável? Mas o regulamento da época deixava brincar à vontade.
O monstro final: dois motores, seis turbos e 220 km/h
Em 1988 chegou o DAF Twin Turbo X1, o verdadeiro protagonista desta história. Dois motores de 600 cavalos, seis turbos, um binário absurdo que fazia aquele animal arrancar dos 0 aos 100 km/h em 8,5 segundos. Sim, é isso mesmo que está a ler. Por razões de segurança, vinha limitado a 220 km/h. E se há limitador, é porque sem ele ia ainda mais longe, não é?
Foi com esta máquina que Jan de Rooy protagonizou a cena que corre a internet até hoje: em pleno deserto, pé cravado, o camião a ultrapassar o Peugeot 405 de Ari Vatanen – o tal “raposa do deserto”, que percebia de off-road como poucos. Eu imagino o Vatanen a olhar pelo retrovisor e a pensar: “Isto não pode estar a acontecer…”. Esse foi o grande momento de glória.
Do auge à tragédia em seis capotamentos
Dias depois, veio o choque. O outro camião da equipa, pilotado por Theo van de Rijt, sofreu um acidente brutal, acima dos 200 km/h. O camião capotou seis vezes. O navegador, Kees van Loevezijn, foi projetado para fora e morreu. A equipa retirou imediatamente os camiões da prova. O sonho de De Rooy – que, por um segundo, até parecia começar a materializar-se – acabou ali, na areia, misturado com dor e silêncio. A organização reagiu depressa: proibiu camiões T4 com tanta potência, fechando a porta a uma era de excessos que levou o delírio mecânico ao limite.
Chega de palavras, o vídeo diz tudo…
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