Entrevista a Jean‑Marc Fortin: “A Overdrive nasceu da vontade de fazer melhor”
Entrevista com Jean‑Marc Fortin, fundador e CEO da Overdrive Racing, sobre o seu percurso, a ligação à Toyota e o futuro do todo‑o‑terreno, bem como a nova Toyota GR Hilux.
Como se sabe, a Overdrive Racing entra agora numa nova era de rally-raid, com o desenvolvimento da nova GR Hilux para a equipa Toyota Gazoo Racing W2RC. A liderar o projeto está uma equipa de design e engenharia recém-formada, chefiada por Christian Loriaux, que se juntou ao projeto em dezembro de 2024, e Glyn Hall, que entrou a bordo em junho de 2025.
Juntos, eles trazem décadas de experiência de elite para um dos desafios mais exigentes do automobilismo. Para Jean‑Marc Fortin: “É fantástico aceitar o desafio de desenvolver um GR Hilux totalmente novo para competir no Campeonato Mundial de Rally Raid da FIA, que inclui o rally mais emblemático de todos, o Dakar. Este tem sido um sonho meu, reunir um grupo tão incrível de pessoas para projetar um carro do zero.”
Dos ralis ao Dakar: o caminho de um visionário
AS: Como começou a sua jornada no desporto motorizado e de que forma a experiência como navegador influenciou a sua gestão na Overdrive Racing?
Jean‑Marc Fortin: “Comecei em 1988, no meu primeiro rali, e tornei‑me profissional em 1990. Corri como piloto em ralis até 2005 e participei em sete ou oito Ralis de Portugal no Mundial. Em 2005 decidi fazer o meu primeiro Dakar como navegador, função que desempenhei até 2012 — sete participações no total.
Em 2009, decidi criar a Overdrive Racing. A génese foi simples: os carros que encontrávamos em todo o mundo eram tão maus que resolvi fazer eu próprio um carro melhor. Foi assim que tudo começou…”
Memórias do Rali de Portugal e tempos de aventura
AS: Quais são as suas principais memórias do Rali de Portugal desses tempos?
Jean‑Marc Fortin: “Tenho várias, mas uma das melhores foi quando terminei em quarto com De Mévius. Lembro‑me da noite repleta de fogueiras, público em massa — era uma loucura. Os espectadores estavam muito próximos, por vezes até tentavam tocar nos carros a alta velocidade.”
Outra lembrança forte é Arganil, que naquela altura não tinha mapas. Cada navegador fazia os seus próprios desenhos em folhas A3 para criar um mapa manual. Era um processo artesanal, mas fantástico. Só mais tarde, com o tempo, surgiram os mapas da Michelin.”
A criação da Overdrive e os primeiros desafios
AS: O que o inspirou a fundar a Overdrive e quais foram as maiores dificuldades nos primeiros anos?
Jean‑Marc Fortin: “A Overdrive nasceu porque as equipas existentes não estavam a conseguir entregar qualidade. Eu vinha do WRC, era piloto profissional da Peugeot Sport com o 307 WRC, ao lado do Grönholm, e estava habituado a estruturas com mais de cem pessoas. Quis trazer esse espírito profissional para o todo‑o‑terreno.
Fundamos um programa de clientes, de aluguer e assistência técnica, e começámos a crescer. O ponto de viragem foi quando fomos pela primeira vez à América do Sul, em 2009. Terminamos em quarto e quinto, atrás dos inatingíveis Volkswagen Touareg, e foi nesse momento que percebemos que estávamos no caminho certo.”
Espírito de equipa e valores fundamentais
AS: Que valores considera essenciais para manter uma equipa competitiva e motivada?
Jean‑Marc Fortin: “O espírito familiar é fundamental. Temos pessoas na equipa há mais de dez anos, incluindo técnicos portugueses. Criamos um ambiente de camaradagem e respeito mútuo. Vencer é importante, mas tão essencial quanto isso é manter uma boa atmosfera dentro da equipa.”
A parceria Toyota Gazoo Racing
AS: Quão importante é a parceria com a Toyota Gazoo Racing?
Jean‑Marc Fortin: “É crucial. Trabalhar com um construtor traz estabilidade e inovação. Nos últimos dois anos passámos de estrutura cliente a equipa oficial de apoio à Toyota, com novos projetos tecnológicos em desenvolvimento. A mais recente vitória de Yazeed Al‑Rajhi, um piloto privado, ou o título Mundial no W2RC demonstra o equilíbrio que atingimos — somos competitivos tanto na vertente de fábrica como na dos clientes.
Desafios logísticos e dimensão humana
AS: Quantas pessoas integram a estrutura da Overdrive nos grandes eventos?
Jean‑Marc Fortin: “No Dakar deste ano éramos 120, uma verdadeira aldeia em movimento. Temos cerca de cem colaboradores anuais entre mecânicos, engenheiros, motoristas e logística. A complexidade é alta porque participamos não só no Dakar e no Campeonato do Mundo, mas também em provas nacionais e Bajas.”

Gestão entre pilotos oficiais e clientes
AS: Como equilibra recursos entre equipas de fábrica e privadas?
Jean‑Marc Fortin: “No passado, a diferença era mínima. O Yazeed tinha o mesmo carro da Toyota oficial. Agora, a nova geração de carros para Dakar é financiada e desenvolvida pela Toyota — apenas quatro unidades de fábrica. O modelo vai sendo atualizado a cada seis meses, criando um avanço tecnológico constante.”
A aposta em novos talentos
AS: Que qualidades procura nos pilotos que representam a Overdrive?
Jean‑Marc Fortin: “Tenho olho para o talento. Trouxemos Lucas Moraes, quando quase ninguém acreditava nele, e terminou no pódio. O mesmo aconteceu com Guillaume de Mévius, segundo classificado no Dakar há dois anos. Agora estamos a trabalhar com o jovem Seth Quintero, de 23 anos, que mostrou uma velocidade impressionante em Portugal. Confio muito no meu instinto — como costumo dizer, “tenho um bom faro para o talento”.
Um histórico de vitórias e ambição contínua
AS: Quais são as expectativas para as próximas épocas?
Jean‑Marc Fortin: “Já não temos nada a provar. Só queremos dar algum descanso à concorrência! Este ano vencemos no Dakar, na África do Sul e em Portugal. Contámos os títulos com o Nasser há dias e nem conseguimos terminar a lista… Somos uma equipa vencedora, e nunca acordamos para ficar em segundo lugar.”
Futuro tecnológico e novas energias
AS: Que mudanças prevê no futuro do rali‑raid?
Jean‑Marc Fortin: “A grande revolução virá da tecnologia e dos combustíveis alternativos — hidrogénio, híbridos e soluções de emissão zero. Já testámos o Mission 1000 com hidrogénio, e o Dakar é o laboratório ideal para isso. Os fabricantes adoram testar nas condições mais extremas.”
Sonhos por cumprir
AS: Ainda tem ambições por concretizar?
Jean‑Marc Fortin: “Vencemos o Dakar quatro vezes nos últimos seis anos e também o campeonato de construtores. Pessoalmente, talvez gostasse de explorar uma nova área de gestão, mas a verdade é que nasci com uma boa estrela. Quero continuar nesta disciplina e descobrir novos pilotos de topo.”
O WRC e a nostalgia pelos tempos dourados
AS: Ainda sente falta do WRC dos seus tempos de piloto?
Jean‑Marc Fortin: “Sinto falta da adrenalina dos carros WRC, sem dúvida. Trabalhei com Peugeot, Ford e Subaru, e aqueles carros eram especiais. Hoje o WRC perdeu impacto: a Toyota faz um excelente trabalho, mas outros construtores, como a Hyundai, estão incertos.
O público diminuiu e a emoção também. É cíclico — agora, no cross‑country, ainda temos nomes como Carlos Sainz, Loeb e Nasser, mas quando estes se reformarem haverá um vazio. Tudo são ciclos no desporto.”
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