Dakar, Sainz, Sousa e uma história que muitos acreditam ser verdadeira: um navegador abandonado no deserto


Carlos Sainz recordou um dos episódios mais estranhos da sua carreira no Dakar quando no final da sétima etapa do Lisboa-Dakar se viu rodeado de jornalistas a perguntar-lhe onde tinha deixado o navegador. Sem saber minimamente o que se passava, percebeu pouco depois: “Terminei uma etapa e um grupo de jornalistas veio a correr na minha direção. Estavam todos a perguntar-me sobre um problema com o meu copiloto. Aparentemente, havia uma história na imprensa que dizia que eu tinha tido um desentendimento com o meu copiloto e que o tinha deixado no deserto. Como é óbvio, a história não era verdadeira! Os jornalistas tinham-me confundido com outro concorrente, Carlos Sousa.

A verdade é que fomos todos apanhados por uma tempestade de areia muito forte e tiveram de cancelar a etapa.

O Sousa e o seu copiloto Andy Schulz (que foi o meu copiloto no meu primeiro Dakar) saíram para libertar o carro da areia, depois o Sousa voltou para o carro e conduziu durante 200 metros até se aperceber que o Andy ainda estava lá fora. Devido à enorme tempestade de areia, não se conseguiram encontrar novamente durante muito, muito tempo. Só quando voltei ao acampamento é que fiquei a saber a história toda”.

Já lá vão 18 anos, mas a história ainda hoje é recordada por muita gente… como sendo verdadeira. Mas não é, e como é lógico, na altura o AutoSport explicou exatamente o que aconteceu.

A demolidora sétima etapa do Lisboa-Dakar 2007 ficou inevitavelmente marcada pela inusitada (e falsa) informação veiculada pelo site oficial da prova, dando conta que Carlos Sousa, irritado com um atascanço, teria abandonado Andreas Schulz, o seu navegador, em pleno deserto. A notícia, sem dúvida bizarra, caiu que nem uma ‘bomba’ em Portugal, permanecendo “online” durante horas, tanto mais que foram depois feitas mais duas atualizações, sempre a partir do gabinete de imprensa da A.S.O., logo apimentadas por alguns comentários mais… jocosos, e cada vez mais distantes dos factos.

Com efeito, a realidade sempre foi outra. É certo que Sousa atascou. E que ficou irritado com o sucedido, mas pelo tempo perdido e por se ter desencontrado com o seu navegador. Nada mais do que isso. “Só quando comecei a receber mensagens no meu telemóvel é que tive noção da enorme confusão que se tinha gerado em torno deste episódio. Ninguém abandona um navegador no deserto”, disse, em tom sério. “A organização esteve mal, muito mal mesmo, não tendo falado com nenhum de nós, quer para saber o que aconteceu, quer para nos pedirem desculpa. Não é que isso me tire o sono…

Mas também ninguém gosta de ser gozado por outras equipas ao jantar. Agora quero é abstrair-me disso para não comprometer o resto da prova”.

Mais sereno, Schulz recordou o sucedido: “Ficámos atascados numa duna, talvez porque a pressão dos pneus não era a mais correta. Com a ajuda das placas, conseguimos sair. Disse então ao Carlos para arrancar e procurar areia mais dura, enquanto eu ia buscar as placas. Depois, desapareceu no meio da tempestade areia. Andámos muito tempo à procura um do outro e eu, infelizmente, segui um trilho errado de pneus. Não houve qualquer discussão entre nós.

Nervosos? É claro que estivemos… Afinal, tínhamos perdido um lugar no pódio” recordou o experiente navegador do piloto luso, injustamente dado como ‘abandonado no deserto’.

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