Em primeiro lugar, o cheiro maresia do Tejo, nos Jerónimos, no dia seguinte, a terra húmida misturava-se com o fumo dos escapes e das fogueiras de quem passou a noite à espera da caravana.
Em Belém, junto à rampa de partida, os meus olhos varriam a multidão, um mar de rostos ansiosos que se estendia até onde a vista alcançava. Portugal recebia o Dakar pela primeira vez, em cinco dias de verdadeira loucura, entre verificações, partida e duas especiais em Portugal. O Lisboa-Dakar depressa se despedia de Portugal, numa caravana de sonhos e máquinas a preparar-se para o habitual desconhecido africano. No topo da minha folha de notas, a caneta dançava: “Adeus e até à próxima!”. Eles voltariam em 2007…

O palco português: uma despedida magnética
O ar vibrante, carregado de adrenalina e expectativa, era quase palpável. Os portugueses adoram corridas! Especialmente na estrada, mais mais do que nos circuitos. E desta vez era o Dakar! Depois de uma semana a fervilhar, Portugal tinha-se transformado num anfiteatro colossal para este espetáculo motorizado. Lembro-me de pensar, enquanto tentava perceber se o sol da manhã rompia as nuvens persistentes, para escolher melhor a roupa do dia: “melhor era mesmo impossível…”, as palavras que ouvira antes de Etienne Lavigne, referindo-se aos dias passados pela caravana em Portugal.
Não era apenas o entusiasmo, era a precisão, a fluidez de tudo. Os responsáveis da ASO não pouparam nos elogios, e eu, ali no meio, sentia um orgulho genuíno a encher o peito.
Portugal, esta nação “à beira-mar plantada”, tinha provado ser capaz do melhor.
O sábado tinha sido de êxtase. Os holofotes viraram-se para Carlos Sousa, que cortou a meta com um segundo lugar nos automóveis, um ‘rugido’ de alegria a subir da multidão. No dia seguinte, a euforia continuou. Ruben Faria, entre o pelotão das duas rodas, conquistava uma vitória que fez o coração de muitos portugueses vibrar. “Se não fosse aquela penalização em Portimão…”, pensei, enquanto via o seu rosto, uma mistura de satisfação e uma ponta de frustração. Seria “ouro sobre azul”, sim, mas a promessa de África aguardava e, com ela, novas oportunidades.
O grito da multidão: um país ao rubro
A verdadeira loucura começou no sábado, bem cedo, de manhã, 31 de dezembro de 2005. Posicionei-me perto da partida, ainda andava de máquina fotográfica na mão, agora chega o smartphone. Quando Jorge Sampaio, então Presidente da República, baixou pela primeira vez a bandeira, um coro de milhares de vozes irrompeu, numa onda sonora que mostrava bem o entusiasmo luso pelo Dakar. Arrepiava! Olhei à volta: muitos milhares de mil pessoas na partida, e mais tarde muitas mais espalhadas pelas zonas de espetáculo, desafiando o frio, ignorando a chuva miudinha. “Mas que gente, isto é quase inacreditável!”, a quantidade de pessoas que estava na estrada à espera de ver passar a caravana. Congestionaram todos os caminhos, estradas e até a autoestrada do Sul, indiferentes aos alertas da Brigada de Trânsito. Um colega disse que estacionou algures, no Alentejo profundo e teve de andar sete quilómetros até à zona em que o Setor Seletivo cruzava o asfalto e outros tantos para regressar ao carro, fora os que percorreu embrenhando-se nas pista: “Passei o fim de ano a dormir com o cansaço!”
Na quinta e sexta-feira, muitos já tinham “invadido” a zona envolvente ao Centro Cultural de Belém e ao Mosteiro dos Jerónimos, os olhos arregalados para a imensa caravana. Mas no fim de semana, a romaria prosseguiu, embalada pelos bons resultados dos nossos pilotos, agora pelo Baixo Alentejo e depois pelos concelhos de Silves, Loulé e Alcoutim. Vi famílias inteiras, crianças com bandeiras esvoaçantes, idosos com cachecóis ao pescoço. Queriam ver, pela última vez, aquele “numeroso exército multinacional” de máquinas e pilotos, antes da largada para o continente africano. No balanço daqueles cinco dias memoráveis, a certeza era uma só: Portugal tinha proporcionado ao Dakar uma das suas melhores partidas de sempre. Superou Paris, Clermont Ferrand, Arras, Granada ou Barcelona. E o sussurro que corria entre os jornalistas, “para o ano vai ser ainda melhor!”, parecia uma profecia.
O calvário de Elisabete Jacinto: a lama e a luta
Nem tudo foi glória. Lembro-me de ver Elisabete Jacinto, a piloto portuguesa dos camiões, na zona de assistência. A sua postura, habitualmente tão determinada, carregava um peso visível. Os seus ombros estavam ligeiramente curvados, e o capacete que trazia na mão parecia mais pesado do que o habitual. “Início aziago”, pensei. Um “atascanso” monumental na parte final da primeira etapa tinha-lhe roubado o brilho.
“Quando estava a chegar ao local, o camião que ia à minha frente ficou preso na lama e eu fui obrigada a parar, ficando também presa na lama”, explicou-me, de voz embargada pela frustração. Os seus olhos, cansados mas ainda com um brilho de luta, fixaram-se num ponto indefinido. “Demorei cerca de uma hora para conseguir sair, mas excedi o tempo máximo permitido e foi-me atribuído um tempo de 2h30.” O nó na garganta dela era quase palpável, e eu senti o meu próprio estômago a apertar. Não fosse este azar, teria feito 1h17m, entre os 30 primeiros. Além do tempo atribuído, uma penalização de mais cinco horas. “Cinco horas…”, ela murmurou, e o desânimo era quase uma entidade física a pairar sobre nós.
As vozes do deserto: expectativa e realidade
Pelo acampamento, as conversas eram um misto de alívio por ter superado Portugal e uma inquietação pelo que viria. Carlos Sainz, com a sua habitual intensidade, resumiu o sentimento de muitos: “Classificativas de pilotagem pura. Não que não tenha gostado de Portugal, mas vamos para a realidade do Dakar, ou seja, África. Só aí poderemos ver o resultado do nosso trabalho face à concorrência.” A sua voz era carregada de uma antecipação palpável.
Luc Alphand, com um sorriso irónico, confessava: “Portugal não me tem dado sorte! Dois dias e dois furos, mas não estou preocupado porque o Dakar é África e deserto.” Enquanto ele falava, os seus olhos brilhavam com a promessa de dunas e desafios. Jean-Louis Schlesser, mais pragmático, observava: “Apercebemo-nos que o perfil das especiais era mais para carros do Mundial de Ralis do que de Todo-o-Terreno e por isso andámos com calma, para fugir a problemas. No deserto é que vamos ver onde se situa o BMW X3.”
Carlos Sousa, o nosso “tónico público”, transpirava à chegada a Alcoutim. “Não posso dizer que as coisas nos tenham corrido muito bem, mas também não está mal”, disse ele, enxugando o suor da testa. “No primeiro dia perdemos algum tempo numa saída de estrada e ontem foi a má visibilidade que nos causou transtorno.” Mas os seus olhos brilhavam ao falar do público: “O público foi fantástico no seu apoio ao longo dos 198 quilómetros cronometrados.” Ele tinha alcançado o seu objetivo: chegar a África sem perder muito tempo para os mais rápidos.
O vínculo de Markku Alen e a disciplina da passagem de ano
De todos os nomes que cruzaram Lisboa, o de Markku Alen ressoava com uma ligação especial a Portugal. Vi-o a sorrir, o olhar nostálgico. “É a minha terceira casa”, disse, as suas palavras eram um eco das cinco vitórias no Rali de Portugal. A sua participação no Dakar, integrado na equipa oficial da Iveco, era um regresso a um território que lhe era familiar. “É muito bom regressar a Portugal e só espero ser tão rápido como da última vez que estive no Algarve com a Lancia.”
Para os pilotos portugueses, a passagem de ano tinha sido atípica, mas “em casa”. Carlos Sousa, Bernardo Vilar, Paulo Marques e Elisabete Jacinto, todos eles, haviam trocado as dunas por jantares em família, embora com um olho no relógio. “Não podemos gastar muita energia porque vamos precisar dela”, sublinhou Vilar, a contenção era a palavra de ordem. A disciplina era crucial, mesmo nas festividades.
A orquestração perfeita: segurança e elogios
Nos bastidores, a máquina organizacional funcionou com uma precisão notável. Etiénne Lavigne, o diretor da prova, não escondia o seu entusiasmo. “Portugal é um cocktail excecional”, afirmou, entre dois cafés – o Dakar precisa de energia – o seu rosto iluminado por um sorriso de satisfação. “De facto, sair de Lisboa é algo fantástico, único mesmo, até devido à história de Portugal com os Descobrimentos.” Para ele, a aposta em Portugal estava “ganha”.
Pensei também nos 1300 elementos das forças de segurança, um dispositivo montado ao pormenor para responder a uma “ameaça significativa”. O ‘famoso’ público português do desporto motorizado, seja ralis, ou Rali Raids. PSP, GNR, Corpo de Intervenção, Judiciária, toda a tropa fandanga, passe o exagero e fique a ideia, todos em alerta máximo. Era um testemunho da seriedade com que Portugal tinha abraçado este desafio. Lavigne não se esqueceu de felicitar João Lagos e José Megre, os “garantes” da vinda do Dakar, reconhecendo o seu trabalho essencial na escolha do local e no desenho das especiais.
Enquanto as últimas máquinas desapareciam no horizonte, rumo ao ferry que as levaria a Marrocos, senti um misto de alívio e uma ponta de melancolia. Portugal tinha-se despedido em grande, deixando uma marca indelével na história do Dakar. A promessa de “ainda melhor” no ano seguinte pairava no ar, um convite irrecusável para o regresso. A aventura africana começava agora, mas a memória dos cinco dias lusos ficaria gravada, um testemunho da paixão e capacidade de um país.
O pior só viria dois anos depois…
Seria uma história totalmente diferente…