Foi há 25 anos: Pedro Lamy e o ponto que valeu ouro para a Minardi

Para que se perceba a importância do ponto que Pedro Lamy alcançou no GP da Austrália de F1 de 1995 com a Minardi, na capa do Autosport escreveu-se, “O ponto que vale milhões”. Fez agora 25 anos…

“Foi um ponto muito importante para a Minardi, faz parte da história da F1, foi interessante mas o que guardo com mais carinho são as vitórias”. Foi o que nos disse Pedro Lamy quando lhe dissemos que iríamos recordar a sua passagem pela F1 e o ponto que obteve com a Minardi no Grande Prémio da Austrália de F1, um grande feito na altura, mas que a esta distância – já lá vão vinte cinco anos – Pedro Lamy coloca em perspetiva pois felizmente a sua carreira continua ‘on’.

A verdade é que o GP da Austrália de 1995, que se disputou num circuito de Adelaide que fazia a sua despedida da F1, Lamy tornou-se no primeiro português a pontuar numa corrida do Mundial. O sexto lugar obtido – na altura só pontuavam os seis primeiros – e numa corrida em que somente oito carros terminaram, se fosse hoje, até os Forti e os Pacific pontuariam.
Luis Vasconcelos, jornalista do AutoSport – outra coisa que se repete há muitos mais que 20 anos – escrevia que “Pedro Lamy atacou ao longo das 78 voltas que durou a corrida, efetuando a sua melhor performance de sempre na F1.

Lamy efetuou uma corrida de grande garra, superando Wendlinger e Katayama (este por duas vezes) na parte sinuosa do traçado australiano”.
Não havia muito para decidir na Austrália, o título mundial já estava atribuído a Michael Schumacher, que fazia a sua última corrida com a Benetton, e estava de malas feitas para a Ferrari. Quem não estava muito contente com isso era Jean Alesi, que em privado já tinha dito a jornalistas amigos que o Schumacher não acabava aquela corrida. Vejam lá se advinham porque é que os dois pilotos desistiram em Adelaide? Pois foi, bateram um no outro. E o culpado foi…Alesi.

David Coulthard despedia-se da Williams para rumar à McLaren, e para a Williams ia Jacques Villeneuve. Também o brasileiro Roberto Moreno realizou na Austrália a sua última prova na F1.
Os treinos ficaram marcados pelo pavoroso acidente de MikaHakkinen, que o colocaram em coma e foi salvo ainda na pista pelo Prof. Sid Watkins, que lhe fez logo ali uma traqueotomia. Os médicos disseram depois que o finlandês teve muita sorte. O seu McLaren vinha furado, entrou em pião na curva Brewerie, passou por cima do corretor, levantou voo e o impacto foi violentíssimo. O susto foi grande, mas assim que acordou do coma, dois dias depois, perguntou logo quando podia regressar ao circuito. Regressou às corridas em 1996. O susto foi ainda maior porque a F1 ainda estava muito ferida pelos acontecimentos de 1994.
Pedro Lamy foi apenas 17º nos treinos, ainda assim deixou seis pilotos atrás de si, e a corrida mais parecia de carrinhos de choque, tantos foram os acidentes e abandonos. O típico piso citadino, mais escorregadio, não ajudou nada, nem a sujidade que David Coulthard apanhou à entrada das boxes, que o levou a bater no muro à entrada destas, quando liderava a corrida. Mas não foi só, aconteceu o mesmo a Roberto Moreno, no mesmo local. Bela despedida da F1.

Os Ferrari, que se despediam do seu fabuloso motor V12, ficaram os dois de fora, e Damon Hill acabou como único sobrevivente entre os pilotos da frente, terminando a corrida com duas voltas de avanço para Olivier Panis (Ligier/Mugen-Honda), com o motor a fumegar nas últimas cinco voltas e Gianni Morbidelli (Footwork/Hart), que completaram o pódio, este último, o seu único pódio da carreira. Há mais de vinte anos que não existia uma diferença tão grande entre primeiro e segundo classificado na F1. Nos lugares seguintes ficaram o McLaren de Mark Blundell, o Tyrrell de Mika Salo e o Minardi de Pedro Lamy.

Sétimo lugar para o Forti/Ford Cosworth de Pedro Diniz e o último, ou oitavo, se preferir, o belga Bertrand Gachot, que num Pacific/ Ford Cosworth se despediam da F1.

Quem se ficou a rir, e muito, no final desta corrida foi Giancarlo Minardi, que ao garantir o 10º lugar do Mundial de Construtores poupou quatro milhões de dólares para 1996. No AutoSport o título era um pouco diferente: 1 ponto = 600 mil contos. A felicidade de Minardi. Vinte anos depois, Pedro Lamy ainda continua a somar resultados de relevo.

Luis Vasconcelos era o jornalista do AutoSport
“O Pedro fez o que a Minardi precisava naquela altura”

Luis Vasconcelos era o jornalista de serviço do AutoSport em 1995, e recorda bem o que se passou naquele fim de semana: “Foi um ponto muito importante para a Minardi. A equipa tinha um motor Cosworth fraco, tal como a Pacific e a Forti, mas o chassis do Minardi era bom e isso permitia-lhes por vezes lutarem com carros mais fortes, como os Sauber, Footwork, Tyrell. Ele ambientou-se bastante bem à Minardi, falava italiano, tinha estado na Draco (Formula Opel) Cripton (F3000) que eram equipas italianas. Não lhe correu bem a qualificação mas recordo que ele só tinha estado em Adelaide em 1993 com um Lotus inguiável. Em 1994 não correu devido a estar a recuperar do acidente nos testes em Silverstone. O Pedro Lamy não tinha muitas voltas a Adelaide nem muita experiência de circuitos citadinos muitos menos de F1. Só tinha feito o Mónaco em 1994. Foi uma corrida com muitos abandonos, teve sorte porque acabaram apenas oito carros, e ele fez um pião mas terminou bem perto e a atacar o Mika Salo, pois estava bem mais rápido que ele, mas já não foi a tempo do apanhar. Portanto estava a conseguir lutar com um Tyrrel-Yamaha que era consideravelmente mais potente, e mais rápido, portanto fez um bom trabalho. O Pedro fez o que a Minardi precisava naquelaaltura, marcar pontos”, recordou.

Pedro Lamy recordou GP da Austrália de F1 1995
“Fiz toda a prova ao ataque, o que me divertiu bastante”

Pedro Lamyr recordou ao AutoSport o dia em que assegurou na Austrália o seu único ponto na F1. Tal como se apressou em dizer, já tem uma memória muito vívida desse dia, pois apesar de ter consciência que foi importante na altura, a sua carreira teve e continua a ter muitos momentos para também recordar, muitas vitórias: “São essas que recordo melhor. Sei que foi muito importante, na Minardi era complicado terminar nos seis primeiros e pontuar, e eu consegui-o. Aproveitei bem a oportunidade, Adelaide foi caso único, pois houve muitos incidentes e isso fez com que fosse possível pontuar” começou por dizer Lamy que recorda ainda o carro: “Tinha um bom chassis, bom equilíbrio, era rápido para a potência que tinha e por vezes conseguíamos estar minimamente competitivos, por exemplo no Mónaco e na Hungria. Recordo-me que Adelaide era um circuito interessante, várias curvas de 90 graus, a aderência era pouca, era difícil de pilotar um F1 com muitos ressaltos na pista. Lembro-me que estava rápido e a puxar ao máximo, fiz o pião, mas depois voltei a andar bem recuperei. Foi uma vitória para a equipa, marquei um ponto, foi importante” recordou Lamy. Na altura, disse ao AutoSport “estou feliz porque fiz toda a prova ao ataque, sempre nos limites do carro, o que me divertiu bastante. Penso que foi a minha melhor corrida na F1”. Depois, recordou os momentos após o pião, em que andou como nunca: “Não foi fácil passar o Wendlinger e o Katayama, porque apesar de sair rápido da curva, faltava potência na enorme reta. Acabai por passá-los na parte sinuosa onde o Hill e o Schumacher bateram o ano passado” disse Lamy que nas voltas finais teve que ouvir a equipa pedir-lhe para baixar o andamento e assegurar que chegava ao fim. E chegou mesmo: “Este ponto abre-me o apetite para mais Fórmula 1”. E teve-a, mais um ano, e depois disso, continuou com muito apetite: 24 Horas de LeMans, FIA GT, 24 Horas de Nürburgring, V8 Star, American Le Mans, European Le Mans Series, endurance, muito endurance… e por lá continua, vinte cinco depois.