Victor Calisto/’Estórias do Rali de Portugal: “É um tubo tão roto que o depósito não está cá!”


Há tanto tempo que…Tanto tempo que já me é difícil recordar tudo e todos os pormenores das milhentas peripécias que, podem imaginar, aconteceram, no decorrer de três dezenas de participações no melhor Rali do Mundo. A primeira participação em 1982 pouco tem para contar. É difícil prever a complexidade de participar num Rali do Mundial, no meio das maiores estrelas do automobilismo mundial. Não há forma de determinar, na nossa imaginação mais fértil, a dureza dum Rali de Portugal com 36 classificativas e quase 2500 Km durante cinco dias.

O nosso Mazda 626 estava ansioso para conhecer os seus primos… de grau muito afastado que com um ar superior, olhavam para ele, como se até nem quisessem acreditar que ele também podia correr. E naquele tempo, sem bancos especiais, com cintos do dia-a-dia, um roll-bar feito lá na oficina mais ou menos ao nosso jeito e dois macacões daqueles que se compram na Feira da Ladra, era mais ou menos tudo o que era necessário para participar.

O Manel lá arranjou o carro do Lima, que era o maior que conseguíamos dispor, pôs lá para dentro uns quilos de ferramentas, um macaco, cujo rabo não cabia na mala e tinha de ficar metade de fora, um jerrican para gasolina e um pneu suplente, que só tínhamos dois – o outro ia no carro de prova. À última da hora, lá conseguimos arranjar uns trocos e comprámos dois faróis Cibié, que montámos na frente do carro…. E que vaidoso que ele ficou! Até parecia um carro de corrida!
E lá fomos andando, mais ou menos devagar, descobrindo a pouco e pouco a dureza extrema de uma prova do Campeonato do Mundo. No final da Lousã, com um nevoeiro de cortar à faca, no controlo horário de chegada já estávamos no tempo de entrada na Candosa! E com a ligação toda por fazer! Fantástico!Que correria, entre os carros das assistências, que loucamente se cruzavam nas estreitas estradas tentando chegar a tempo de prestar os cuidados necessários no final de cada classificativa! Mas lá conseguimos chegar, sem exceder o tempo limite de penalização.
Continuámos, andando de penalização em penalização, tentando cumprir a dura etapa até á Póvoa do Varzim, que começara às 9.00 da manhã em Sintra e, sem interrupção, só acabaria por volta das 2.00 do outro dia. Era sempre a aviar!
Mas, a meio da noite, em plena especial da Freita, e logo na parte a subir, de repente a nossa “bomba” calou-se. Não quis andar mais. Então, entre aflições diagnósticas sobre a alimentação de combustível e elétrica, viemos a descobrir que o problema era mesmo gasolina. “Vê lá Jorge… O que se passa? Não chega a gasolina ao motor? Será a bomba de gasolina?” “Não, a bomba não, que ela está a trabalhar e chega corrente às velas.” “Espreita aí para baixo… Pode ser um tubo roto. ”Um tubo roto?”- exclamou o Jorge, já deitado debaixo do carro. “É um tubo tão roto que o depósito não está cá!” Pois é: o depósito resolveu abandonar a aventura e estava cerca de 200m mais abaixo e com uma forma completamente nova! Estava tudo acabado. Ainda tentámos trazer o depósito para cima, pois ainda tinha alguma gasolina…mas nada feito! Eram duas da manhã e estavam 3 graus negativos. Estávamos de fatos de macaco de pano, dentro de um carro que tinha mais buracos que um queijo francês. E sem dinheiro.
Passou o carro da organização e explicámos que não conseguíamos sair dali e que era preciso avisar a nossa assistência, que estava no final da especial. Mas o carro da organização não encontrou assistência nenhuma e não avisou ninguém. E só passados 2,5 horas, quando já tínhamos estalactites no nariz e começávamos a desesperar, passou um jipe dos bombeiros, que nos rebocou na subida e nos amparou na descida, com um tronco entre os dois carros, pois não tínhamos travões.
E lá chegámos ao fim da classificativa, não sem antes termos saído de estrada, porque o Jorge, que ia nessa ocasião ao volante, adormeceu vencido pelo cansaço, e o jipe curvou para a esquerda e nós fomos em frente para o buraco! Bem, mas no fim, com frio, fome e estoirados, lá nos deixaram no centro de Arouca, perto dos bombeiros, onde dormimos umas poucas horas dentro do carro. E a assistência, nem vê-la!
Com os primeiros raios de sol, resolvemos vir a pé até ao final da especial (ao pé do Pão de Ló) e tentarmos fazer alguma coisa. Mas não tínhamos nem dinheiro para comer, nem para telefonar e a nossa rapaziada… nada! Ninguém aparecia!
Voltámos para o carro e qual não é o nosso espanto que, enquanto nos ausentámos, alguém muito nosso amigo, quis aliviar algum peso do carro e roubou os nossos dois Cibiés! Andámos novamente até ao final da especial, mas nada nem ninguém queria saber de nós.
E foi então que uma alma caridosa, assistindo à nossa aflição, nos perguntou se queríamos comer. Já eram, por estas horas, seis da tarde! Foi, meus amigos, a melhor sopa e pão com chouriço e comi na minha vida! E ainda pudemos telefonar, descobrindo que a nossa assistência, como não tínhamos chegado ao final da especial e também não estávamos na Póvoa do Varzim, depois de dormidos e comidos, rumaram a casa e calmamente esperavam que nós aparecêssemos! Como castigo, tiveram de voltar a Arouca para nos ir buscar. Com amigos assim, quem precisa de inimigos?
Enquanto não chegaram, lá fomos nós comendo umas fatias de chouriço e uns nacos de pão, em frente a um maravilhoso lume, que nos aqueceu finalmente a nossa congelada disposição. E, por momentos, demos connosco apensar se ainda faltaria muito tempo para o próximo Rali de Portugal…