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Simplesmente Colin (McRae): 15 anos de saudade | AutoSport
 

Simplesmente Colin (McRae): 15 anos de saudade


McRae, just Colin é um livro imperdível para os adeptos do virtuoso piloto inglês, desaparecido há 15 anos num acidente de helicóptero. Muito mais do que recordar os feitos do mais espetacular piloto de ralis de sempre, o livro recorda histórias absolutamente fabulosas, que mostram bem quem era Colin McRae. Recordamos algumas…

O nome de Barrie Lochhead não deve ser conhecido por muitos adeptos, mas o inglês foi um dos primeiros navegadores do malogrado Colin McRae. Em 1987, o escocês convidou Lochhead para disputar um rali local, num Vauxhall Nova. Atente-se nas palavras deste: “Vê-lo guiar parecia estar a assistir a um concerto de um pianista. Era incrível. A especial de Drummond Hill tinha zonas assustadoras e eu dizia-lhe, calma, calma. E ele mandava-me calar. A última vez que insisti ouvi: Cala-te, car….”

Alan McGuiness era mecânico da Prodrive em 1991, altura em que Colin McRae andava de Subaru Legacy RS da Rothmans no campeonato inglês: “”Depressa aprendi que quando ouvia que o Colin tinha tido uma pequena saída, tudo pecava por defeito. Se o Derek (ndr, Ringer, navegador) dizia que tivemos um furo, normalmente queria dizer que tinham perdido uma roda. Na verdade, sempre colámos o dístico do selo do carro, não no para brisas, mas sim no roll bar, porque as chances de chegar ao fim com um para brisas diferentes eram muito grandes na altura…”

O histórico Rali da Finlândia 1992 contado por Nigel Riddle, da Prodrive: “Colin teve um enorme acidente nos testes antes da prova ao ponto de termos de serrar a frente do carro de reconhecimentos para a colocar no carro de prova. No rali teve mais dois grandes acidentes. Fizemos as contas, durante a semana que passou na Finlândia, entre testes e prova, capotou 13 vezes. E o mais irónico era que quanto mais forte batia, mais empenhado ficava. Terminou em oitavo”

História contada por Alan McGuiness, da Prodrive. Dia 2 de março de 1993, na noite antes da partida do Rali de Portugal Colin McRae questiona o seu novo colega de equipa, Markku Alen se este conhecia algum bom sítio para afinar as luzes. Alen respondeu: “Arganil!” Que fica a 300 Km de Lisboa. Típico Markku, típico Colin!

Rali da Catalunha de 1995. Nigel Riddle foi o corajoso elemento da Prodrive que ficou famoso por ter sido quem se tentou colocar na frente do Subaru Impreza 555 do escocês para que este abrandasse a sua marcha e deixasse Carlos Sainz vencer, como tinha sido combinado previamente: “Eu sabia que ele nunca iria entender o que lhe pediam e quando ele vinha a fundo direito a mim eu sabia que ele me via mas ele continuou a fundo porque tinha algo a dizer. Os meus colegas já tinham saído da frente do carro e eu continuava lá de braços no ar, até que me tive de desviar sem que ele abrandasse. O que se passou depois foi história. E no dia seguinte no aeroporto, no controlo de passaportes, o homem conheceu-me da TV. Chamou os seus amigos todos para lhes contar que eu era o herói que ajudou o Carlos no dia anterior. Fui famoso por meio dia em Espanha.

Rali Safari 1999, história contada por Fred Gallagher. No Rali da Suécia eu e o Thomas Radstrom demos na cabeça ao Colin e ele ficou danado. Antes do Safari, fomos beber uns copos e num táxi ele ia atrás de mim, por brincadeira apertou-me com força, tanta que me partiu três costelas. No dia seguinte liga-me o médico da equipa a dizer que o Thomas Radstrom tinha partido uma perna após cair por umas escadas. Sabem porquê? Foi o Colin que lhe fez um ‘tackle’ à futebol americano. Inventámos uma treta ao Malcolm Wilson e só dez anos depois lhe contei a história toda…

Rali da Córsega 2000, evento onde Colin McRae teve um terrível acidente, ficando muito tempo preso dentro do seu Ford Focus WRC, até que as equipas de salvamento o conseguir retirar e levar para o Hospital. Pouco depois, Margaret McRae, mãe de Colin, estava com o filho no Hospital: “quando ele acordou, a primeira coisa que perguntou foi se tinha ganho o rali? Disse-lhe que tinha tido um acidente, mas que estava bem. Ele virou a cara, voltou a olhar para mim e perguntou: Ganhei o rali?”

No Rali da Austrália 2005, o último que Colin McRae realizou para a Skoda esteve perto de ficar na história, já que perto fim da prova o escocês estava em terceiro, muito perto do segundo classificado Harri Rovanpera. Só que no derradeiro parque de assistência os engenheiros da Skoda detetaram um sobreaquecimento na peça e por precaução decidiram mudá-la. Quem conta o que se passou depois é Nicky Grist, navegador de Colin McRae: “Podiam tê-lo feito na assistência maior, mas decidiram mal e com apenas 20 minutos as coisas correram mal. Os mecânicos da Skoda não estavam habituado aquela pressão, primeiro deixaram cair a peça, depois não entrava, e por fim lá conseguiram, mas já fora do tempo limite para a assistência. De fora a assistir estavam mecânicos da Peugeot, Subaru, Ford e Mitsubishi, que aplaudiram quando tudo terminou. Os nossos mecânicos estavam lavados em lágrimas, pois era tarde demais. Tive muita pena deles pois a Skoda esteve perto de alcançar o seu melhor resultado de sempre no WRC e tudo foi por água abaixo naqueles 20 minutos. Até eu chorei.

X-Games, Agosto de 2007
Até ao dia 5 de agosto de 2007, a maioria dos norte-americanos pensava que Colin McRae era um personagem de um jogo de computador. No dia em que as TVs americanas disseminaram o que sucedeu nos X-Games, finalmente os americanos ficaram a ser que Colin McRae era um piloto de carne e osso, e mais do que isso, dos bons. Convidado por uma marca de roupa a estar presente num evento essencialmente para dar espectáculo, Colin McRae defrontou-se com Travis Pastrana e Ken Block numa espécie de mini-rali desenhado em especiais à volta do estádio, e claro está, também lá dentro e foi aí, na final do evento, que os americanos acordaram para os ralis a sério, quando viram Colin McRae capotar em pleno estádio após um salto, e ficar a um segundo de vencer o evento. Quem o recorda é Nicky Grist: “A organização cedera notas às equipas, pois não havia treinos, mas quando demos por nós o Travis Pastrana já tinha 12 segundos de avanço no evento. O Colin não gostou nada daquilo e então deu tudo por tudo e no último troço, que acabava dentro do estádio havia um grande salto. Na ânsia de vencer, o Colin ainda ia no ar, já as rodas estavam viradas no sentido da curva. Resultado, capotámos. Ficámos em cima das rodas, ele meteu primeira e mesmo com a roda fora da jante, perdemos por meio segundo. Todo o estádio enlouqueceu aos gritos. Foi o ponto em que a América percebeu que Colin McRae não era uma caricatura da Playstation, mas um piloto real. O feito foi notícia a nível nacional!”

Dakar 2005, Colin McRae e Tina Thorner têm um violento acidente que os leva ao abandono na prova. Tendo em conta o tipo de acidente, tanto o piloto como a navegadora ficaram sem ver durante uns momentos, o que acontece por vezes. Sentado na areia, pouco depois do acidente, McRae ligou para a sua esposa Alison e fez-lhe um pedido: “Fazes-me um favor? Podes marcar-me uma ressonância magnética ao cérebro?” um dia depois, Mrs. McRae percebeu, quando viu o couro cabeludo de Colin completamente negro da pancada.

“Quando pilotos como Sébastien Loeb e Markko Martin chegaram aos ralis depressa perceberam que para serem rápidos, tinha de pilotar duma forma precisa, limpa, e não de lado como tantas vezes viram os pilotos fazer no passado. Anteriormente, todos os pilotos guiavam os seus carros em longas derrapagens, mas a nova geração percebeu que os estilos de condução de Tommi Makinen e Colin McRae não eram bons para o os novos WRC. Andar de lado significava perder demasiado tempo. Basta olhar para o karting, onde quem pilota com o kart a andar de lado anda sempre em último. Por isso, os pilotos de ralis começaram a adotar um estilo de condução mais limpo, quer em asfalto e mesmo na terra. Mas para Colin McRae e a geração mais antiga de pilotos, era muito difícil fazê-lo. Por vezes, quando testávamos, encorajávamos o Colin a experimentar das duas formas, como ele gostava e sempre certinho, de modo a que ele visse pelos tempo como seria mais rápido, mas para ele, simplesmente, não era correto mudar o seu estilo de condução. Depois de Colin McRae ter morrido, uma inteira geração de pilotos que pilotavam carros de ralis de lado, morreu com ele.” Christian Loriaux.