Rali de Portugal de 1978: o 1º da história do AutoSport, e logo o da ‘batalha’ entre Alén e Mikkola


Em 1978, o Rali de Portugal atingiu o auge, um momento que o jornal AutoSport, recém-nascido, testemunhou e imortalizou, naquele que foi o seu primeiro Rali de Portugal, marcando o início de uma longa e apaixonante jornada.

Quase meio século depois, o Rali de Portugal de 1978 continua a ser recordado como um dos maiores momentos da história da prova — e, à época, foi visto como o melhor de sempre do ponto de vista desportivo. Disputado sob o nome Rali de Portugal/Vinho do Porto, esse ano ofereceu uma luta de nervos entre Markku Alén e Hannu Mikkola, decidida apenas no derradeiro troço, depois de onze mudanças de líder e de um duelo que fez da incerteza a marca maior de uma edição tão dura quanto emocionante.

O resultado final mostra Alén como vencedor, com 4m28s de vantagem sobre Mikkola, mas a classificação não traduz, por si só, o que realmente aconteceu. Durante grande parte da prova, a diferença entre ambos foi ténue, a luta foi levada ao segundo exacto e só um percalço de Mikkola — uma ligeira saída de estrada acompanhada de um furo, no derradeiro troço, aquele que tudo decidia, numa espécie, quem ganhar o troço, ganha a prova — ajudou a desbloquear um desfecho que, ainda hoje, permanece entre os mais marcantes do rali português.

Um rali de incerteza permanente

A edição de 1978 destacou-se menos pelo número de candidatos ao triunfo do que pela incerteza constante em torno do vencedor. O rali mudou onze vezes de líder, num andamento raro mesmo para os padrões da época, e foi Markku Alén quem mais vezes ocupou o primeiro lugar, acabando por triunfar de forma considerada justa, embora inesperada, alcançando assim a sua terceira vitória na prova portuguesa.

Vista à distância, esta foi uma prova “imprópria para cardíacos”, como então se escreveu, porque o suspense não se esgotou numa perseguição progressivamente resolvida. Pelo contrário: prolongou-se até ao último troço de Sintra, mantendo o desfecho em aberto mesmo quando a classificação final acabaria por sugerir uma vantagem confortável de Alén.

Fiat e Ford elevaram o nível técnico

Um dos traços mais relevantes desse Rali de Portugal foi o notável aperfeiçoamento técnico alcançado por Fiat e Ford. Antes da partida, a Ford surgia com algum favoritismo nas classificativas de terra, pela superioridade mostrada até então pelos Escort nesse tipo de piso, enquanto os Fiat 131 Abarth vinham reforçados pelas vitórias em Sanremo e na Córsega e pelo estatuto de referência em asfalto.

A expectativa geral apontava para a necessidade de a Ford chegar à última etapa com cerca de um minuto de vantagem sobre o melhor Fiat, para poder enfrentar a noite de Sintra com alguma tranquilidade. A teoria baseava-se na ideia de que os Fiat seriam mais rápidos no alcatrão, numa diferença estimada em 0,8 segundos por quilómetro de classificativa.

Mas o rali mostrou outra coisa: tanto a Fiat como a Ford tinham evoluído ao ponto de reduzir drasticamente as diferenças entre terra e asfalto. A marca italiana beneficiou, segundo César Fiorio e Daniel Audetto, do contributo de Sandro Munari e de novos amortecedores Bilstein de maior curso, que tornaram o carro mais dócil nos pisos maus. Já a Ford apresentou um Escort cada vez mais eficaz em asfalto, fruto das experiências acumuladas em provas britânicas e na Volta à Córsega, embora persistisse ainda uma ligeira desvantagem nos troços mais sinuosos, onde o eixo rígido continuava um pouco abaixo da suspensão independente às quatro rodas do Fiat 131 Abarth.

O duelo que definiu o rali

Se o capítulo técnico foi relevante, o desportivo tornou esta edição inesquecível. Alén e Mikkola protagonizaram um confronto directo que continua a servir de referência quando se fala nos grandes duelos da história do rali. O grande ponto de interrogação nunca foi e nunca será resolvido: se Mikkola teria vencido sem o seu percalço, ou se o tempo absolutamente fabuloso de 7m01s de Alén na última passagem seria, de qualquer modo, suficiente para garantir a vitória.

Essa dúvida ajuda, precisamente, a cimentar a grandeza do rali. O desfecho ficou decidido por fatores de ritmo, resistência e erro, mas também por uma tensão permanente que acompanhou os dois pilotos até ao fim. Mais do que a margem final, foi essa sensação de combate sem rede que fez de 1978 um dos ralis mais memoráveis alguma vez disputados em Portugal.

Grupo 2, Grupo 1 e os portugueses em destaque

Para lá da geral, também o Grupo 2 e o Grupo 1 tiveram história própria. No Grupo 2, as expectativas em torno de Toyota e Peugeot não saíram defraudadas, com os Celica a confirmarem excelente comportamento na sua segunda saída oficial e os Peugeot 104 ZS a deixarem boa impressão na primeira grande apresentação internacional após Sanremo. A Opel começou por dominar, mas várias incidências mecânicas abriram caminho para Andersson, que se apoderou do primeiro lugar do grupo e foi aumentando a vantagem.

No Grupo 1, o duelo entre o Citroën oficial de Jean-Paul Luc e o Escort privado de Carlos Torres foi um dos focos de interesse da prova. Carlos Torres teve azar na Cabreira e no Marão, perdendo tempo com dois furos, mas na fase nocturna da terceira etapa tudo parecia inclinar-se a seu favor graças ao perfeito conhecimento de Arganil. A desistência prematura de Luc acabou por retirar expressão à luta, confirmando um vencedor que já se adivinhava.

A dupla Carlos Torres/Pedro de Almeida terminou em oitavo da geral e foi a melhor equipa portuguesa, além de vencer o Grupo 1. Entre os nomes em evidência entre os nacionais, ficaram ainda André Martinho e António Morais, Carlos Fontainhas e Rogério Seromenho, os irmãos Carlos e José Peres, Ferreira da Cunha e Carlos Resende, e Albino Tristão e Pedro Castelo. Houve ainda um apontamento singular para José Pedro Borges e Rui Bevilacqua, que, depois de ultrapassarem enormes dificuldades, chegaram ao fim da terceira etapa, mas acabaram por abandonar da forma mais incrível ao não conseguirem colocar o carro a trabalhar à partida para a noite de Sintra.

A noite de Sintra e o lado menos nobre

Nem tudo, porém, correu à altura da qualidade desportiva do rali. Ao chegar-se a Sintra, com muitas classificações já definidas, instalou-se alguma monotonia em certas passagens, e houve quem no público se comportasse de forma lamentável, colocando terra, latas vazias, folhas e até um tronco de árvore na estrada. Esse objecto esteve mesmo na origem de um despiste com alguma gravidade de Christian Dorche, que danificou bastante o seu Opel Kadett GTE.

Foi uma nota dissonante numa última noite brilhante do ponto de vista competitivo. Ainda assim, nem esse episódio apaga o essencial: o Rali de Portugal de 1978 foi, no balanço global, uma prova sensacional, construída com suspense, dureza, inovação técnica e uma luta direta entre dois gigantes. Quase 50 anos depois, continua a merecer o lugar que conquistou então: o de melhor Rali de Portugal realizado até àquela data e, ainda hoje, um dos melhores de sempre.

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