Rali da Grã-Bretanha: História, Drama e Glória no WRC


O Rali da Grã-Bretanha, prova que teve diversas designações ao longo dos anos, é um dos eventos mais prestigiados do desporto motorizado britânico e um marco no Campeonato do Mundo de Ralis (WRC) desde a sua criação em 1973. Com uma história rica que remonta a 1932, este rali tem sido palco de momentos dramáticos e triunfos memoráveis, moldando lendas e cativando fãs em todo o mundo.

As míticas estradas florestais da Grã-Bretanha, quase sempre ‘decoradas’ com rios de lama devido à inclemente chuva nas ilhas britânicas, foram palco de espetáculos memoráveis de derrapagem artística, algo que pode regressar em 2027 ao WRC com o Rali da Escócia. Pode, porque não sabemos como será a meteorologia, porque o regresso está confirmado…

Das origens à integração no WRC

Desde a sua génese como o Royal Automobile Club (RAC) Rally, o evento evoluiu significativamente. Inicialmente, a competição focava-se na regularidade e na navegação, com os participantes a percorrerem cerca de 1600 quilómetros a partir de diferentes cidades britânicas, terminando num ponto comum. Em 1960, a introdução de troços de terra batida em florestas marcou uma viragem crucial, conferindo ao rali o seu caráter distintivo e aumentando a sua popularidade.

Em 1973, o RAC Rally tornou-se parte integrante do WRC, consolidando a sua posição no calendário internacional. A década de 1970 assistiu ao domínio dos Ford Escort RS1600 e RS1800, pilotados por talentos nórdicos como Timo Mäkkinen, que conquistaram oito vitórias consecutivas entre 1972 e 1979.

O despertar de uma Nação: de Roger Clark a Colin McRae

A história do rali no quadro mundial começou com o domínio de figuras emblemáticas. Após uma vitória em 1972, o britânico Roger Clark voltou a triunfar em 1976, entusiasmando uma plateia que dividia as atenções com a Fórmula 1 de James Hunt. Contudo, o Reino Unido enfrentaria um jejum de quase duas décadas até à ascensão de uma nova lenda.

A chegada de Colin McRae, no final dos anos 80, alterou o paradigma. O escocês, conhecido pela velocidade estonteante e acidentes espetaculares, conquistou a sua primeira vitória caseira em 1994. No ano seguinte, após uma recuperação épica contra o seu colega de equipa na Subaru, Carlos Sainz, McRae tornou-se o primeiro britânico a sagrar-se campeão do mundo de ralis. Ao lado do co-piloto Derek Ringer, formou a primeira dupla totalmente britânica a alcançar o topo do pódio mundial.

Finais de “Suspense”: O fogo de Sainz e o triunfo de Burns

O final da década de 90 e o início do novo milénio reservaram momentos de tensão máxima nas florestas britânicas:

O Drama de 1998

Num dos finais mais cruéis da história, o título parecia destinado a Carlos Sainz. Contudo, o motor do seu Toyota entregou a ‘alma ao Criador’ a escassos metros da linha de chegada da última classificativa, entregando o campeonato a Tommi Mäkinen.

A Era de Ouro (2001)

Um “shoot-out” a três entre McRae, Mäkinen e Richard Burns decidiu-se a favor deste último. Burns e o seu navegador Robert Reid tornaram-se a segunda tripulação britânica a vencer o título mundial, cimentando o estatuto de heróis nacionais.

Legado e futuro: Phil Mills, Elfyn Evans e o novo horizonte

O sucesso britânico continuou a manifestar-se através de navegadores experientes como Phil Mills, que celebrou o título de 2003 ao lado de Petter Solberg.

Em 2017, Elfyn Evans quebrou mais um ciclo de espera ao vencer no País de Gales com o co-piloto Daniel Barritt. Este triunfo colocou Evans como a principal esperança atual para repetir o feito de McRae e Burns. Em nada nos admiramos que possa, finalmente, suceder este ano, em 2026.

“If in Doubt, Flat Out”: a filosofia de vida

Colin McRae não era apenas rápido. Era espetacular. Enquanto outros pilotos calculavam, McRae atacava. Onde outros levantavam o pé, ele carregava ainda mais. A sua filosofia era simples e brutal: “if in doubt, flat out” — na dúvida, a fundo. Foi assim sempre que competiu nos troços dos ralis…

Conduzir um Subaru Impreza 555 azul e amarelo pelas florestas britânicas, finlandesas ou neozelandesas não era, para McRae, uma questão de gestão de risco. Era pura expressão. Cada curva era uma oportunidade para deslizar mais, cada salto uma chance de voar mais alto, cada troço um palco onde ele dava tudo, absolutamente tudo, até ao limite — e frequentemente para lá dele. E ninguém lhe levava a mal por isso, porque a marca que deixava enquanto as quatro rodas não estavam viradas para cima, era único…

Mas esta abordagem não vinha sem custos. McRae capotou inúmeras vezes. Destruiu carros. Abandonou ralis quando estava muito perto de os vencer. Eventualmente perdeu títulos que com algum calculismo, deveria ter ganho. No entanto, nunca pôs de lado a sua forma de encarar os ralis e isso ainda hoje – quase duas décadas depois do seu desaparecimento – lhe vale o reconhecimento dos adeptos, como alguém único na modalidade.

Apesar de ter conquistado apenas um título mundial, Colin McRae nunca deixou de ser o rosto dos ralis. A sua condução agressiva, lateral e sempre no limite tornou-o num ícone global.

Condições desafiantes e showdowns épicos

Realizado tipicamente em novembro, o Rali da Grã-Bretanha é conhecido pelas suas condições meteorológicas adversas, com chuva quase garantida e estradas lamacentas que se tornaram uma característica definidora do evento. As temperaturas raramente excedem os dois dígitos nesta altura do ano, tornando a escolha de pneus e a estratégia de condução cruciais.

Ao longo dos anos, o rali tem sido palco de inúmeros confrontos pelo título, com pilotos nórdicos a dominarem a competição. Nomes como Erik Carlsson, Hannu Mikkola, Petter Solberg e Sébastien Ogier conquistaram múltiplas vitórias, solidificando o seu lugar na história do rali.

Regresso programado

Após o cancelamento da edição de 2020 devido à pandemia de COVID-19 e à retirada do apoio do governo galês, o futuro do Rali da Grã-Bretanha passa agora pela Escócia. Os esforços para reavivar o evento continuaram e a prova ruma agora à Escócia, por onde andou muito do percurso do antigo Rali RAC e se tudo correr normalmente, a prova regressa ao WRC em 2027, reavivando a sua rica história e tradição.

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