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28 dias para o Rali de Portugal: O público

José Luis Abreu by José Luis Abreu
16 Abril, 2024
in Autosport Exclusivo, AutoSport Histórico, pv2, Ralis, Sapo, WRC
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28 dias para o Rali de Portugal: O público

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Nada é tão permanente como a mudança e nos 57 anos de evolução do Rali de Portugal, o mundo mudou muito e a prova portuguesa acompanhou essa mudança. Tudo é muito diferente desde o 1ª Rallye Internacional TAP e é isso mesmo que vamos tentar perceber…

César Torres deu vida ao Rali de Portugal, e foi também sob a sua batuta, e durante trinta anos, que a prova portuguesa atingiu a maioridade, tornando-se desde muito cedo um dos eventos mais importantes do Mundial de Ralis. Pelo meio, foi evoluindo ao sabor dos tempos e quase nada do que aconteceu na 1ª edição se repete mais de 50 anos depois, no Vodafone Rally de Portugal. Talvez só mesmo os carros de ralis, ainda, terem motores de combustão interna (e mesmo isso vai sofrer alterações com a inclusão da parte híbrida em 2022), as quatro rodas dos carros assentarem no chão e terem volante.
Tudo o resto é um mundo de diferenças e é delas que vamos falar um pouco para perceber o que mudou em 50 edições. Provavelmente, o que mudou mais, foi o comportamento do público…

PÚBLICO
Este é um dos temas delicados dos Rali de Portugal. É uma das razões do seu sucesso, mas também foi, vezes demais, um enorme problema. A forma como o público se comporta no Mundial de Ralis continua a espelhar bem o estilo de povo dos catorze países que têm atualmente uma prova no Mundial de Ralis. Há enormes diferenças de comportamento entre o público latino, o nórdico, germânico ou sul-americano. Não é novidade para ninguém que os ralis do Sul da Europa sempre foram bem mais problemáticos que os nórdicos ou alemães, e o que se via em Portugal, especialmente no início dos anos 80 era uma espécie
de histeria coletiva. Os portugueses, ou a sua grande maioria via a passagem dos carros quase como se de uma tourada se tratasse, e a inconsciência era generalizada. Chegou a haver apostas de quem seria capaz de tocar nos carros à sua passagem e o que se viveu em Portugal, nomeadamente em Sintra e no Norte do país quase não tem explicação. Ver imagens onboard de pilotos aos comandos dos Grupo B a fundo entre paredes de espetadores que se afastavam à medida que os carros se aproximavam, ao ponto dos pilotos, quando questionados como era correr nessas condições responderem “temos que imaginar que são árvores” era espantoso. Mas curiosamente as Marcas representadas na competição, nesses anos, apesar de terem receio do que poderia suceder em caso de acidente, também lhes interessava muito que os locais que juntavam mais gente se mantivessem no percurso, pois a emoção que transmitia verem carros a altas velocidades por entre magotes de gente era intensa.
Mas o mundo evoluiu e o impacto deste tipo de situações passou a ser cada vez maior. Na primeira metade dos anos 80, ver um Grupo B atravessar-se muito perto das paredes de espetadores só causava frisson pelo espetáculo, hoje em dia, causaria horror. O Mundo mudou muito e os espectadores dos ralis mudaram com ele. A transição deu-se a pouco e pouco, mas a maior delas foi imposta. Quem esteve na estrada nos primeiros anos dos anos 80, 1983 a 1985, especialmente, e regressou no ano a seguir ao acidente, 1987, sentiu grandes diferenças, pois ver ‘aqueles’ carros não tinha nada a ver. Estes passaram de 500 para 230 cv e o público deixou de sentir o mesmo. Mas as coisas mudaram rapidamente, e até ao início da década de 90, apesar do caos não se ter voltado a instalar, havia zonas do rali de Portugal muito ‘sensíveis’. Aquela curva perto do Aeródromo de Viseu, onde os carros descreviam um longo slide, perante magotes de gente a ladear a estrada. Aqui, o problema era claramente um troço muito perto duma grande cidade.
Mas havia mais, Arganil era sempre problemático na Selada da Eiras, o Salto da Pedra Sentada em Fafe já era bem melhor controlado, mas havia ainda muita zona de risco. E por vezes, contingências, como a que sucedeu na Figueira da Foz em 1997, dia em que se reviveram os medos de uma década antes. Ficou famosa a frase de Luis Moya, navegador de Carlos Sainz: “Nunca vi nada assim na minha vida, coño, animais…”. As paredes humanas tinham regressado ao Mundial de Ralis mais uma vez. Quem lá esteve diz que nunca mais se verá algo semelhante no WRC, pois simplesmente nenhum Delegado de Segurança permitiria que um troço se realizasse naquelas condições.
Havia outros troços em Portugal com graves problemas a esse nível. Seixoso, por exemplo. à saída da passagem de água, a moldura humana balizava a estrada e César Torres chegou a estar lá parado a ponderar o que fazer. Havia diversos troços, que já se sabia, iam criar problemas, mas felizmente, depois de 1987, nunca mais se voltou a passar nada verdadeiramente grave com o público, apesar de alguns atropelamentos de espetadores, e mesmo, imprensa.
Até 2001, o sucesso do Rali de Portugal tornou difícil o controlo do público, mas os últimos ralis antes da paragem ‘forçada’ (2002-2006) nada tiveram a ver com o passado. O conceito de Zona Espetáculo e o facto de Pedro de Almeida (ex-diretor do Rali de Portugal) ser nessa altura o responsável pela segurança, explica muita coisa, pois o planeamento das provas passou a ter cada vez mais foco na segurança. Quando o WRC ‘chegou’ ao Algarve, em 2007, já estava perfeitamente interiorizado o conceito das Zonas Espetáculo, e no Algarve, apesar do acidente de 2007 logo no shakedown, o controlo do público nunca chegou a ser verdadeiramente um problema porque não só os adeptos têm hoje uma mentalidade completamente diferente, como também, valha a verdade, o trabalho feito pelo ACP quase nunca permitiu que alguém pusesse o pé em ramo verde.
E esta passagem para o Norte veio confirmar que o facto de ter passado a haver muito mais público não significou problemas, pois até os adeptos mais conhecedores ajudam a organização e são eles próprios que não permitem alguns comportamentos dos que ainda tentam fugir às diretrizes. É assim desde 2015, já lá vão oito anos. Como serão os próximos capítulos?

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