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‘Estórias’, José P. Borges: “Rio-me quando oiço um piloto reclamar que o Rali de Portugal é muito duro!”


«Curiosamente, é do Rali de Portugal que recordo menos histórias… E as melhores são as que não se podem contar! Bom, mas fiz cinco ralis de Portugal – [1978, 1980, 1981, 1982 e 1983] – e não acabei nenhum – e isso já é qualquer coisa, é uma história! No ano em que fui campeão [Nacional de Ralis, 1979] não participei porque não quis, já que fazer o Rali [de Portugal] custava tanto dinheiro como fazer o campeonato todo…

Na verdade, o [Rali de Portugal] que mais me marcou foi o primeiro que fiz [1978], em que nos aconteceu um pouco de tudo. Fiz essa prova com um Opel 1904 SR de Grupo 1, com o Rui [Bevilácqua]. E foi uma enorme aventura. Desde termos ficado sem gasolina num troço – não me lembro do nome, sei que ligava o Ladário à estrada do Vouga – só que, felizmente, a parte final desse troço era a descer…
…A termos partido os apoios do motor na Senhora da Graça. Ficámos que tempos à espera e acabámos por sermos nós a tentar resolver o problema. E a forma como o resolvemos foi colocar o macaco entre o motor e a proteção do cárter, levantando-o para cima e mantê-lo assim até ao final do troço, uns dez quilómetros depois.

Mais tarde, em Fafe, aconteceu-nos outra coisa espantosa. O início do troço – que não era como é hoje – era numa zona muito estreita, em que havia um muro muito alto, do lado esquerdo e uma ravina, do lado direito. Mal dava à justa para um carro passar! Nós éramos os últimos a partir e muito afastados do penúltimo. E, quando chegou a nossa hora, isso tornou-se impossível, pois as pessoas já estavam a vir para baixo, ocupando toda a estrada. Ficámos uns dez minutos à espera que a multidão passasse, para podermos fazer esses 200 metros e então partir para o troço.
Então, o Rali de Portugal acabava no Autódromo [do Estoril], de onde se largava para a última etapa, a ronda de Sintra, que era toda feita de noite. Quando chegou a nossa vez, o carro decidiu não pegar! Fizemos quase meia volta ao autódromo a empurrar o carro… e ficámos ali, sozinhos no meio da pista! Tivemos que abandonar, porque não conseguimos que ele voltasse a trabalhar!

Nessa altura, é que o rali [de Portugal era duro! Os troços não tinham nada a ver com os de hoje – eram mais apropriados para fazer TT, do que para fazer ralis! Por isso, hoje rio-me quando oiço um piloto reclamar que o Rali de Portugal é muito duro! Não sabe o que é isso, seguramente…»

JOSÉ PEDRO BORGES (26 de dezembro de 1955)
1978 – Rallye de Portugal – Vinho do Porto (Opel 1904 SR) – c./Rui Bevilácqua – Abandono (motor de arranque)
1980 – Rallye de Portugal – Vinho do Porto (Opel Kadett GT/E) – c./Rui Bevilácqua – Abandono
1981 – Rallye de Portugal – Vinho do Porto (Opel Kadett GT/E) – c./Rui Bevilácqua – Abandono
1982 – Rallye de Portugal – Vinho do Porto (Ford Escort RS 1800 Mk II) – c./José Nobre – Abandono (perdeu roda)
1983 – Rallye de Portugal – Vinho do Porto (Ford Escort RS 1800 Mk II) – c./Rui Bevilácqua – Abandono (alternador)