Rali RAC 1998: O dia em que Sainz perdeu um Mundial a 300m do fim…


Foto principal: McKlein Photography

Por um Punhado de Metros! Foi precisamente há 20 anos que Carlos Sainz e Luis Moya perderam o título de Campeões de Mundo de Ralis por escassos 300 metros, no momento em que o motor do seu Toyota Corolla WRC entregou a alma ao Criador.

 

 

 

 

Como era habitual, o Rali RAC encerrava o Campeonato Mundial de Ralis, e não raras vezes era palco de todas as decisões. 1998 não foi excepção, com os títulos de Pilotos e Construtores claramente em abertos. Sainz ou Mäkinen? Toyota ou Mitsubishi?? Os troços florestais de Gales e do oeste de Inglaterra iriam dar a resposta. Resposta essa que foi terrivelmente cruel, como tantas vezes o automobilismo o é.

 

 

 

 

Até ao Rali da Austrália tudo indicava que a luta pelo WRC de 1998 seria uma luta a três, com o bicampeão Tommi Mäkinen, Carlos Sainz e Colin McRae com boas hipóteses de conseguir a coroa. Infelizmente, depois de uma grande recuperação que lhe deu a liderança, um tubo quebrado atrasava definitivamente o escocês nos antípodas, arruinando as hipóteses deste e da Subaru de lutarem pelos títulos em Inglaterra. Restavam apenas Mäkinen, que contava dois pontos de avanço sobre Sainz, enquanto nos Construtores a Toyota tinha 4 de avanço sobre a Mitsubishi. Tudo pronto para um grande final.

 

 

 

 

A Mitsubishi apresentava-se com Mäkinen e Burns, enquanto a Subaru optava por dar uma oportunidade a Alister McRae, o mais novo da dinastia escocesa, ao invés do habitual Piero Liatti, cujas prestações na terra não tinham impressionado. Além disso, os homens da marca nipónica traziam também um terceiro carro, que testava uma caixa totalmente eletrónica para o veterano Ari Vatanen que, depois de ter feito duas provas pela Ford a substituir Thiry, escolhia o RAC para a sua despedida formal da competição, já que em 1999 iniciaria o seu desafio político no Parlamento Europeu. A Toyota também trazia três carros, com Sainz e Auriol acompanhados do promissor Marcus Grönholm, que vinha de uma época dividida entre a HF Grifone e presenças semioficiais com a fábrica; a Ford trazia a dupla habitual, composta por Juha Kankkunen e Bruno Thiry e, por fim a Seat continuava a rodagem do novo Cordoba WRC estreado nos 1000 Lagos, com Harri Rovanperä acompanhado pelo piloto da casa Gwyndaf Evans. De salientar também o excelente nível dos pilotos privados que se apresentavam à partida do RAC ao volante de WRC’s, destacando-se Armin Schwarz (após um ano praticamente sabático), Grégoire de Mévius, Krzysztof Holowczyc e Sebastian Lindholm. No que respeita ao Grupo N, o título estava decidido a favor de Gustavo Trelles, que optava por se ausentar, entregando o favoritismo ao eterno vice Manfred Stohl, Gilles Panizzi, Toshihiro Arai, Derek Higgins e toda uma série de pilotos. Mais animado era o duelo na Fórmula 2, com a presença de três equipas de fábrica – a Seat, com Toni Gardemeister e Salvador Cañellas Jr.; a Hyundai, com Kenneth Eriksson e Wayne Bell; e a Renault inglesa, com Tapio Laukkanen e Martin Rowe – e alguns outsiders também oficiais, mas sem contar para a Taça, como o Skoda de Pavel Sibera, o Vauxhall de Jarmo Kytölehto e o Nissan de Mark Higgins.

 

 

 

 

Azar de Mäkinen
O rali baseava-se em Cheltenham, e a primeira etapa decorria no centro/oeste de Inglaterra, percorrendo várias especiais curtas em circuitos e parques, característica tão típica do RAC desses tempos. Podiam ser especiais curtas e pouco desafiantes a nível técnico, mas eram o suficiente para fazer estragos e até causar a perda do rali, principalmente com a chuva com que, mais uma vez, esta edição foi brindada. De imediato, uma coisa ficou patente – os “manos” McRae estavam determinados em impressionar e venceram em conjunto a primeira especial, assistindo-se em seguida a um domínio categórico de Colin que, na despedida da Subaru, estava verdadeiramente determinado a vencer o seu rali caseiro.


Mas, como disse, o primeiro dia não dá a vitória, mas pode arruinar o rali (e até o título), e a primeira vítima foi… Tommi Mäkinen. O finlandês tinha entrado mal no rali com problemas de afinação da suspensão, mas quando tudo parecia resolvido, perdia a traseira no óleo de um concorrente anterior na PEC 5 e batia violentamente num bloco de cimento. O azarado finlandês ainda tentou chegar à assistência, mas a sempre eficiente polícia de terras de Sua Majestade encarregou-se de impedir que um carro andasse em três rodas nas ligações, obrigando o campeão em título a abandonar e a esperar por um azar de Sainz para manter a coroa. Quanto aos primeiros, apenas os Toyota de Auriol e Sainz fizeram frente aos irmãos McRae, e Colin só não dominou por completo o dia e saiu com uma vantagem mais do que aceitável porque furou após um salto demasiado otimista e deixou a roda demasiado danificada, mesmo assim não perdendo a liderança.

 

 

 

 

Na F2, o primeiro dia acabava com as provas de Mark Higgins e Pavel Sibera, mas a Toyota perdia um importante efetivo quando Grönholm partiu o motor e o carro pegou fogo no final do dia. Quanto aos Seat, sofriam uma série de pequenos problemas que os atirava para fora do top-10. Deste modo, Colin McRae liderava com Sainz e Alister McRae por perto, Auriol estava já mais distante, seguido de Kankkunen e Burns, agora a única esperança da Mitsubishi para os Construtores. Na F2 a luta estava ao rubro, com Kytölehto a liderar na frente do Seat de Gardemesiter, mas com os favoritos ainda muito juntos.

 

 

 

 

O ‘velho’ RAC
As condições meteorológicas no segundo dia eram dantescas, com as especiais no centro de Gales a serem marcadas pela chuva e por um nevoeiro cerrado. Tanto Colin como Alister McRae fizeram más escolhas de pneus, o que os levou a cometer pequenos erros, enquanto Burns dominava as especiais matutinas para saltar para o segundo lugar, batendo no processo os dois Toyota. E, logo na primeira especial do dia, Ari Vatanen despedia-se do automobilismo (até ver…) com um despiste, desta vez sem precisar de destruir o carro, como fora tão típico dos seus começos de carreira – na verdade, Vatanen errou num gancho que atrapalhou muitos pilotos, mas deixou o motor ir abaixo e, com a nova caixa totalmente eletrónica, foi impossível fazer o carro pegar de novo, levando a um final completamente inglório. Duas especiais depois, Colin McRae saia de estrada e perdia a liderança para um surpreendente Richard Burns, enquanto Alister se via batido pelos dois Toyota.

A PEC 16 eliminava também dois concorrentes na F2, Eriksson com problemas de diferencial e Martin Rowe que, depois de um atraso inicial, tentava recuperar até arrancar a suspensão numa pedra. No entanto, na PEC 17 Colin “vingava-se” de Burns e, com um excelente tempo, retomava a liderança e voltava a destacar-se, enquanto o nevoeiro cada vez mais cerrado convidava os favoritos a arriscarem menos, algo exemplificado pelo próprio Sainz que, depois de uma má escolha de pneus, procurava apenas segurar o quarto lugar que lhe permitiria ser campeão. Já os Seat estavam em franca recuperação, lutando pelos últimos lugares do top-10 com os endiabrados privados, destacando-se Gwyndaf Evans que, conhecendo os cantos à casa, estava já bem dentro desta luta quando a embraiagem cedeu na PEC 18 e forçou o galês a desistir.

 

 

 

 

Na F2, Kytölehto continuava a fazer frente a Gardemeister, mas Laukkanen aproximava-se de mansinho e liderava no final do dia. Porém, não tardou a que ocorresse o segundo golpe de teatro do rali, quando Colin McRae, cada vez mais líder, chegava à assistência no final da PEC 19 a reportar problemas de motor, e não mais arrancava. E, na última especial do dia, Auriol desistia também com a embraiagem quebrada. Deste modo, Burns liderava com um bom avanço sobre Alister McRae, seguido de Kankkunen, Sainz (que por pouco não perdia mais que o terceiro lugar devido a um erro), Thiry e um espetacular de Mévius.

 

 

 

 

Campeão no hotel…
A última etapa disputava-se maioritariamente no sul de Gales e a caminho de Cheltenham, mas as condições não melhoraram e, ao arrancar de madrugada, os pisos estavam muito traiçoeiros. A primeira vítima seria Alister McRae que, depois de fazer uma exibição de enorme virtuosismo, debatia-se com alguns problemas elétricos com as luzes extra, que o levavam a derrapar e bater forte numa valeta, ficando logo ali na primeira especial do dia. Também pelo caminho ficava o Hyundai resistente de Wayne Bell, devido a problemas de diferencial, enquanto Burns, apesar de ter mais de dois minutos de avanço, não fazia sinal de abrandar e continuava a vencer especial atrás de especial. Sainz rodava assim em terceiro, mas não procurava atacar Kankkunen, isolado no segundo lugar, sendo mesmo ultrapassado a meio do dia pelo outro Ford de Thiry, apostando em conservar ao máximo a mecânica do Toyota e conseguir os três pontos.

 

 

 

 

Atrás deles, a luta estava entregue aos privados, com de Mévius a manter o seu ritmo avassalador enquanto Holowczyc se debatia com a direção, mas Rovanperä, com os problemas de transmissão resolvidos, não tardava a ultrapassar alguns privados e a lutar pelos últimos lugares pontuáveis, numa exibição promissora do novo Seat. Na F2, Laukkanen deixava de vez para trás os rivais e construía uma boa vantagem, e o mesmo se passava no Grupo N, após uma excelente luta entre Stohl e Derek Higgins, que se resolvia a favor do austríaco. Tudo estava calmo e aguardava-se a consagração de Sainz, enquanto Burns vencia todas as especiais do dia e a geral do rali quando, em Margam Park, a última especial da prova, vislumbravam-se chamas sob o Corolla WRC do espanhol, que parava e tentava extinguir o fogo do motor, que quebrara… a 300 metros do fim.

 

 

 

 

Célebres ficaram as imagens de desalento de Sainz e Moya, assim como a raiva deste, que atirava o capacete contra o vido traseiro do Toyota, esmigalhando-o.
Mäkinen estava prestes a sair do hotel para tomar o avião para a Finlândia quando lhe tocava o telemóvel, anunciando este terrível volte-face… A prova terminava assim com Burns campeão e, ao não terminar com nenhum dos seus carros, a Mitsubishi garantia também o seu primeiro (e único) título de Construtores; seguiam-se Kankkunen, Thiry, de Mévius e Lindholm (que travaram uma bela luta) e, a fechar os pontos, Rovanperä! Foi um final cruel e triste para alguns, mas o automobilismo também é isto.

Guilherme Ribeiro
Fotos Martin Holmes Rallying