LEMBRA-SE DE: O dia em que Markku Alen foi navegador do Zé Pinto


A história é por demais conhecida e tem duas partes. Em 1978, José Pinto, jornalista da RTP que nos ‘dava’, entre muitas outras coisas, o Rotações, foi fazer um co-drive com Markku Alén e desmaiou-lhe nos braços.  Mas o Zé prometeu ‘vingança’ e ‘ela’ chegou 10 anos depois… ou quase! As histórias passaram-se em março de 1978 e 1988, por alturas do Rali de Portugal. Recordamos-las aqui…

As duas fotos têm exatamente dez anos de diferença. Em 1978, e já depois de ter apanhado valentes sustos com vários pilotos de renome internacional, como Sandro Munari, Bjorn Waldegaard, Alcide Paganelli, Hannu Mikkola e Ove Andersson, entre outros, pedi ao vencedor da edição do Rali de Portugal-Vinho do Porto desse ano, Markku Alen para dar uma volta no Fiat 131 Abarth, nem que fosse um ou dois quilómetros num qualquer troço de terra. Alen (a Fiat, por intermédio de Silechia) acedeu, Francisco Santos aproveitou a ‘boleia’ e pediu o mesmo ao Jean-Pierre Nicolas, que acabara a nossa prova com um Ford Escort RS 1800. E lá fomos, depois do slalom no Autódromo, para aquele percurso de terra — que nunca mais esqueço (que hoje em dia é em asfalto), entre a Lagoa Azul e Alcabideche, que dá pelo nome de Rio da Mula. O aparato não faltou: vários carros de assistência ‘fecharam’ o trajeto, o Domingos Piedade deu uma ajuda, estabelecendo as ligações, via rádio e o Jorge Gamito, então Relações Públicas, da Fiat, não escondia um certo ar de gozo, como que antevendo o que se iria passar. Os mecânicos italianos, com algumas palmadas de conforto nas costas, foram-me animando… apressaram-se a trocar os pneus slicks por pneus de terra e o Markku com quem não tinha muita confiança, revelou um pouco do seu feitio latino, ajudando-me a colocar os cintos de segurança. O motor roncou ao fim de breves segundos. O polegar da mão direita de Alen ergueu-se e, pronto, lá fui eu, Rio da Mula fora, borrado de medo, suplicando ao pobre do Alen para andar mais devagar, gesticulando ao ponto de lhe agarrar um braço e, pasme-se, partindo um suporte (em aço) onde estava colocado o relógio conta-segundos, na altura utiliza-do pelo Kivimaki! O resto da história não interessará muito, já que o descrevi, na época, num jornal da especialidade mas, para os mais novos, poderei acrescentar que batemos fortemente num muro (parecia uma bomba, o ruído provocado pelo embate…) e que, no final, caí nos braços do Alen, desmaiado, perante as gargalhadas gerais (contaram-me) dos diversos assistentes. De 1978 para cá tive oportunidade de conviver muito com o Alen em Portugal e no estrangeiro, criei uma amizade curiosa mas, verdade, verdadinha, nunca mais aceitei convites para andar ao seu lado, nem que fosse da porta do hotel para um qualquer ponto 300 metros à frente… E mais: um dia. alguns anos depois do ‘incidente’ no Rio da Mula, julgo que em 1981, em Turim, quando lhe pedi para autografar a foto que ilustra estas linhas, não deixei de lhe garantir que, se pudesse, a brincadeira haveria de ser paga… e de que maneira!

DEZ ANOS DEPOIS… A VINGANÇA!!!
Vésperas do Rali de Portugal de 1988. A segunda-feira foi dedicada aos treinos da classificativa do Autódromo, em carros cedidos pela organização. Às 7h30 estava um frio de rachar, mas, procurando cumprir deveres televisivos, lá estava, pronto a captar algumas imagens para o Telejornal. Pouco depois chegaram o Markku Alen, o Miki Biasion e mais alguns mecânicos da Lancia. Alen dirigiu-se ao Comissário Desportivo, Luís Pinto de Freitas, pedindo-lhe para dar uma volta à classificativa. 

Não Markku, só a partir das 8 horas é que abrimos a pista para todos os concorrentes. A única possibilidade é aproveitares uma boleia de José Pinto e, ao lado dele, reconheceres o percurso. Markku Alen olhou em volta, fez um gesto ao Miki Biasion e, de peito feito, dirigiu-se para o ‘meu’ carro. (Eu estava sentado ao volante de uma pequena ‘bomba’, com uma cilindrada de • 900 cc, com uma potência de xxx cavalos, muitas velo-cidades (4), travões super (tambor) e não digo mais porque a FISA pode implicar e o primeiro gesto do Mark-mais será homologado!)

“Então, hoje, vou fazer de teu navegador?” É hoje Markku, é hoje que me vou vingar de tudo aquilo que se passou em 1978. Só tenho pena do Miki que nada tem a ver com o nosso ajuste de contas… “Prometes que vais devagar…” Claro, já vais ver. Subi as rotações, estiquei os braços, apertei os cintos e o primeiros gesto do Markku foi levar a mão ao fecho da porta… Lá atrás, o Miki ria-se. Primeira, segunda e terceira (nem o percurso, nem o Markku autorizavam mais…) e lá fomos ver a classificativa, com o bom do finlandês a comandar as zonas mais complicadas, a tecer, inclusive, algumas críticas ao troço do Autódromo do Estoril: — Isto aqui é muito perigoso… aqui se alguém pára, ninguém passa! A volta concluiu-se. Ao meu lado tinham andado, calmamente, o Markku Alen e, atrás, o Miki Biasion, que, afinal, acabou por ser o grande vencedor desse Rali de Portugal. Alen, que este ano me pareceu outra pessoa, pela abertura evidenciada no contacto, nomeadamente, com os elementos dos órgãos da Informação, deixou o Seat, riu-se, abertamente, exclamando: “Afinal, o ajuste fica para depois… Mas, olha, enquanto todos pedem para andar ao meu lado, tu foste o único que até hoje me teve como navegador…”